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Engenharia para garantir produção e desenvolvimento

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Rosângela Ribeiro Gil

 

Em meio à crise econômica e à pandemia do novo coronavírus (Covid-19), a produção brasileira enfrentou gargalos e escassez de insumos em diversos setores.

 

Já nos primeiros dias da emergência sanitária, em meados de março de 2020, o País não tinha produção suficiente de máscaras e escudos faciais nem álcool gel para a área médica e a população. E os respiradores eram em número reduzido ou inutilizados por falta de manutenção. Mais recentemente, enfrenta-se a carência de oxigênio e medicamentos até para a intubação de pacientes com Covid-19.

 

Leopoldo Yoshioka: engenharia e tecnologias são fundamentais para conter a pandemia. Foto: Acervo pessoal“A pandemia desencadeou uma série de crises: econômicas, sociais e sanitárias. Um dos efeitos imediatos foi a escassez de produtos e insumos na área da saúde, que posteriormente se alastrou para outros setores como construção, automotivo e químico, entre outros”, observa o professor Leopoldo Yoshioka, do Departamento de Engenharia de Sistemas Eletrônicos da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (Poli-USP). Por sua atuação durante a pandemia, ele foi agraciado pelo SEESP em 2020 como personalidade em Tecnologias Emergentes.

 

A situação de emergência acendeu alerta junto à engenharia nacional, que passou a empenhar esforços de modo a contribuir para salvar vidas. “Mostramos que temos material humano com qualidade”, diz Yoshioka.

 

Ele relaciona algumas respostas às urgências demandadas pela pandemia: “Cientistas e engenheiros desenvolveram soluções para produção de EPIs [equipamentos de proteção individual], como máscaras, protetores faciais, aventais, óculos de proteção etc.. Universidades, em parceria com empresas, fabricaram respiradores de baixo custo, às vezes até alterando a produção de uma planta industrial.”

 

Um desses ventiladores pulmonares é o Inspire. Desenvolvido na USP, resultou na nomeação dos engenheiros que o criaram – Marcelo Zuffo e Raúl Lima –, como Humans of the Year [Humanos do ano de 2020] pela revista norte-americana ViceAmbos foram agraciados como personalidades da tecnologia pelo SEESP, respectivamente em Inovação Tecnológica (2006) e Saúde (2020).

 

Na avaliação de Yoshioka, o protagonismo da engenharia foi fundamental à “criação de processamento de dados de telefones celulares para medir o índice de isolamento social; aplicativos para auxiliar na localização de insumos e pessoas interessadas em colaborar na prestação de ajuda aos necessitados”. Além disso, acrescenta, foram desenvolvidas “plataformas robóticas para transporte hospitalar de exames e medicamentos e ferramentas de informações geográficas (GIS) para cruzar dados de mapas e de GPS [em português Sistema de Posicionamento Global] para extrair informações de propagação e penetração do coronavírus nas cidades”.

 

Ilso de Oliveira: minimizar os problemas requer esforço conjunto. Foto: Gladyston Rodrigues/CbicA importância da área é também realçada pelo presidente da Comissão de Obras Industriais e Corporativas da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (Cbic), Ilso de Oliveira, para quem “já tínhamos um grande desafio, mesmo antes da pandemia, de valorizar a nossa engenharia. Temos um mar de oportunidades para nossos profissionais, nossas empresas e para nosso País”.

 

A indústria da construção civil, informa Oliveira, foi bastante atingida pela crise sanitária. “Enfrentamos um grande desabastecimento de insumos e a elevação de preços. Um misto de falta de determinados produtos em função da redução da produção na indústria, da desvalorização do real impactando o custo do frete e de produtos importados, além de, em inúmeros casos, aproveitamento do contexto atual para recuperar e aumentar a margem de lucro”, contextualiza.

 

No curto prazo, indica ele, a forma de minimizar os problemas é um esforço conjunto dos órgãos de governo, dos fabricantes de produtos e da sociedade para regularizar fornecimento e preços.

 

Já no médio e longo prazos, a engenharia “pode atuar para ampliar a gama de produtos alternativos com o objetivo de aumentar o nível de concorrência para termos ofertas compatíveis com a demanda e preços adequados”.

 

Oliveira enfatiza que o setor é um grande gerador de empregos no País, portanto, “qualquer paralisação ou postergação de projetos e obras interfere drasticamente na tão desejada retomada da economia”.

 

 

Projeto de desenvolvimento e mercado

 

Como enfatiza o diretor técnico do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), Fausto Augusto Junior, a indústria brasileira já foi responsável por 28% do PIB [Produto Interno Bruto], no auge dos anos 1980, “o patamar mais alto que chegou”.

 

Embora considere mais difícil avaliar a participação da indústria no PIB no ano de 2020, em função da pandemia, estima que “estamos beirando os 11%, podendo cair abaixo de 10%, e isso é muito grave”.

 

Nesse cenário, defende Marco Aurélio Cabral Pinto, professor da Universidade Federal Fluminense (UFF) e consultor técnico do projeto “Cresce Brasil + Engenharia + Desenvolvimento” – iniciativa da Federação Nacional dos Engenheiros (FNE) –, o papel da engenharia é promover um debate amplo em defesa do desenvolvimento para gerar empregos em grande volume e qualidade.

 

“Precisamos dispor de uma versão atualizada de um projeto de desenvolvimento que compreenda investimento em infraestrutura, na indústria, na tecnologia, no refino do petróleo. Muitas oportunidades vão surgir nesse processo. A nossa criatividade tem que estar atenta a isso”, ressalta.

 

Augusto Junior reforça, afirmando que o País “precisa ter uma política industrial, de desenvolvimento tecnológico e de investimento em P&D [Pesquisa e Desenvolvimento]. É preciso construir um ´plano de voo´, saber qual o nosso projeto de país, onde queremos chegar daqui a 30 anos nesse novo cenário que está se configurando no mundo, altamente tecnológico”. Na sua ótica, um campo vasto de atuação para diversas profissões, como a engenharia.

 

Maria Sartori: acompanhar tendências e adotar logística inteligente para armazenagem, circulação e distribuição de produtos. Foto: DivulgaçãoMaria Sartori, diretora de recrutamento da Robert Half, também acredita que momentos de crise induzem “a capacidade de reinvenção, especialmente para profissionais e empresas que queiram se manter em evidência”.

 

Muito em função da evolução do trabalho remoto, impulsionado pela pandemia houve um processo de transformação da logística no meio digital, como aponta: “O e-commerce [comércio eletrônico] e o marketplace [shopping virtual que oferece várias opções de vendedores ou prestadores de serviço], antes apenas projetos, tornaram-se necessidade e deixaram de ser uma questão de escolha.”

 

Dessa forma, observa a recrutadora, tornou-se fundamental acompanhar tendências e possibilitar a adoção de uma logística inteligente para todo o processo de armazenagem, circulação e distribuição de produtos.

 

Nessa perspectiva, segundo ela, os principais setores para a atuação de profissionais de engenharia são saúde, agronegócio, alimentos e bebidas e tecnologia e logística.

 

 

Além da globalização

 

Muitas vezes, a atuação dos profissionais de engenharia não é tão visível como a de outras profissões. É o que observa Yoshioka: “São poucas as situações em que fazemos um atendimento direto ao cliente final.”

 

Todavia, ressalta, o papel da engenharia é o de garantir perfeito funcionamento da infraestrutura e do aparato tecnológico que nos cerca, sem os quais a sociedade atual não consegue mais se sustentar.

 

“Cabe ao engenheiro a resolução de problemas através do desenvolvimento de novas soluções, mais eficazes, mais sustentáveis e amigáveis ao meio ambiente”, explicita.

 

Para ele, a pandemia de Covid-19 coloca o País e o mundo diante de desafios nunca enfrentados. “Apesar de algumas vacinas contra o novo coronavírus terem sido desenvolvidas e terem a sua eficácia comprovada, o ritmo de produção é insuficiente para atender a demanda”, lamenta, informando que estima-se que somente em 2022 ou 2023 seja alcançada a vacinação de pelo menos 70% da população mundial.

 

Equivale dizer, como pondera Yoshioka, que existem desafios científicos e tecnológicos a serem superados para que o desenvolvimento, produção e distribuição das vacinas e dos acessórios de aplicação alcancem toda a população.

 

Ao mesmo tempo, a pandemia traz uma mudança de comportamento na sociedade. Ante essa realidade, como acredita o professor da Poli-USP, “adquirir novas habilidades, desenvolver a criatividade e a capacidade de inovação nunca foi tão importante como agora. Felizmente, encontram-se disponíveis muitas plataformas de aprendizagem de qualidade, onde os engenheiros, em qualquer fase da carreira, podem obter conhecimentos e aprimorar as habilidades técnicas e sociais para serem bem-sucedidos e contribuir cada vez mais para a construção de uma sociedade melhor”, indica.

 

O momento dramático, como faz questão de ressaltar Yoshioka, traz importantes aprendizados em estratégias e planejamentos. Nessa linha, ele relaciona: “Ficou evidente a necessidade de melhorar a integração horizontal e vertical dos setores da indústria. A cooperação tecnológica entre empresas não deve ser somente um ‘esforço de guerra’, mas uma prática comum, pois traz vantagens de aumentar a competitividade de toda a coletividade da indústria. E a colaboração com os institutos de pesquisas e universidades deve ser aperfeiçoada.”

 

O professor conclui: “A engenharia e as novas tecnologias serão fundamentais para suplantarmos a pandemia e ficarmos atentos a novas ameaças.”

 

 

Imagem do destaque na matéria  Arte: Eliel Almeida/Foto: Freepik/Aleksandarlittlewolf

 

  

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