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19/03/2024

Engenharia aeroespacial a serviço do bem-estar das pessoas e dos negócios

Jéssica Silva – Comunicação SEESP

 

A tecnologia para evitar tragédias com deslizamentos, desmatamento e queimadas, além de melhorar a qualidade da produção de alimentos, pode vir do espaço – e não há nada extraterrestre nisso, pelo contrário, trata-se da mais pura engenharia humana. Ou melhor, Engenharia Aeroespacial.

 

Foi com essa sacada e muito estudo que a CEO e cofundadora da Quasar Space, Thais Cardoso Franco, empreendeu no setor, desenvolvendo a companhia que presta serviços espaciais de monitoramento, previsibilidade e planejamento estratégico para setores como agronegócio, de águas e de infraestrutura, a partir de uma tecnologia nacional e de alta precisão.

 

Franco formou-se engenheira aeroespacial pela Universidade Federal do Grande ABC (UFABC) em 2016 e, na sequência, cursou mestrado no Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) e, atualmente, faz o doutorado na mesma instituição, além da especialização na Universidade de Cambridge, no Reino Unido.

 

Com currículo acadêmico de peso, ela afirma que sempre quis ter “o próprio negócio”. Mas, ao se lançar no mercado, enfrentou muitos desafios incluindo o machismo. “Sofri assédio e escutei de muitos homens que engenharia não era profissão de mulheres. Então minha estratégia sempre foi tentar me destacar, ter as maiores notas na graduação, me envolver com projetos diversos, para sempre estar um passo à frente dos homens”, relata a engenheira em entrevista ao SEESP.

 

Thais QuasarSpaceA engenheira aeroespacial Thais Cardoso Franco, CEO e cofundadora da Quasar Space. Foto: acervo pessoal

Como foi o caminho até a Engenharia Aeroespacial?

 

Desde pequena eu gosto de objetos que voam, principalmente helicópteros. A tudo o que voava eu fazia movimento de tchau com as mãos, por incentivo da minha mãe. Ao mesmo tempo, tinha pavor de vida alienígena, óvnis (objetos voadores não identificados). Depois de assistir ao filme “E.T. O Extraterrestre”, fiquei sem conseguir dormir bem por muito tempo. Então foi minha paixão por helicópteros que me fez descobrir o curso com 14 anos e, desde esse momento, ser engenheira aeroespacial se tornou uma meta para mim.

 

No 9º ano, montei um plano de ação para passar na faculdade pública sem curso preparatório. Eu estudei o cronograma do ensino médio e fiz, sozinha, um plano de três anos, separado por dias e semanas, de quais assuntos seriam vistos e quais simulados seriam feitos. Eu cursava o ensino médio de manhã e executava o meu plano à tarde. No terceiro colegial, comecei a receber propostas do meu colégio e de outros para cursos preparatórios financiado por eles, mas eu neguei e continuei colocando o meu plano em prática. E foi assim que eu entrei na UFABC. Logo que entrei na graduação me apaixonei pelo espaço. Faz 10 anos que atuo diretamente na área de satélites.

 

Logo de início você almejou ser empreendedora?

 

Sim, desde os meus cinco anos eu já queria empreender. Com essa idade, eu fazia desenhos e artesanatos, divulgava e vendia para a minha família. Com o passar dos anos, na adolescência, eu comecei a dar aulas particulares, revisar livros para publicação… Sempre tive a vontade de “ter o meu próprio negócio”. Na graduação, eu me envolvi com projetos de inovação e o feedback dos professores era que eu tinha espírito de liderança e que era “atrevida”. Sempre foi muito natural para mim.

 

Como pesquisadora, qual projeto teve maior relevância?

 

Não diria especificamente um projeto, eu acredito que ter participado do desenvolvimento de três missões espaciais tenha sido uma experiência muito enriquecedora, muitas pessoas não sabem, mas sim, o Brasil tem programa espacial e lançamos satélites. Participei da missão Serpens, um nanossatélite de capacitação colocado em órbita pela Estação Espacial Internacional em 2015. A missão Áster, que está sendo desenvolvida para enviar uma sonda para um sistema de três asteroides. E a missão em desenvolvimento ITASAT-2, um projeto de formação em voo de três satélites para fazer investigações do clima espacial e de geolocalização. Essa missão é continuação de uma outra de muito sucesso chamada Sport, que foi desenvolvida juntamente com a NASA e outras instituições americanas. Tenho muito a agradecer ao Centro Espacial ITA e ao Comando da Aeronáutica por sempre depositar confiança em mim e no meu trabalho.  

 

Por ser mulher numa área ainda majoritariamente ocupada por homens enfrentou muitos obstáculos?

 

No início da carreira, sim! Sofri assédio e escutei de muitos homens que engenharia não era profissão de mulheres, por exemplo. Então minha estratégia sempre foi tentar me destacar, ter as maiores notas na graduação, me envolver com projetos diversos, para sempre estar um passo à frente dos homens. Com o passar do tempo, eu sinto que o mercado começou a me enxergar de fato como engenheira e isso foi libertador! Mas mesmo assim, esse período de resistência deixou marcas: somente me senti preparada para empreender na minha área quando já estava no doutorado, antes disso eu me sentia “não boa e madura o suficiente”.

 

O que é a Quasar Space? Como funcionam os serviços prestados?

 

A Quasar Space é uma empresa brasileira de serviços espaciais que oferece soluções pioneiras ​​de monitoramento, previsibilidade e planejamento estratégico. Aliamos tecnologias de imageamento em alta resolução proporcionadas por modernos satélites com a interconexão digital de multiprocessos em nuvem, via inteligência artificial. E assim entregamos para os setores do agronegócio, de águas e de infraestrutura, dados inteligentes. O trabalho que antes dependia de drones e equipe especializada local, pode ser realizado de forma totalmente remota, através de satélites que continuamente mapeiam a superfície do planeta, proporcionando ao cliente uma visão completa e atualizada de seus recursos através de indicadores, previsibilidade e sugestões de otimização do desempenho, auxiliando-o na tomada de decisão.      

 

De onde surgiu a ideia da empresa e como foi colocá-la em prática?

 

A Quasar foi fundada no período mais tumultuado da minha vida. Durante a pandemia, descobrimos que minha mãe estava com câncer em estado terminal, e cuidei dela durante todo o processo. Neste período, eu tracei o projeto de empreender – e foi o que me impediu de ter uma depressão. A minha visão era de que, quando ela falecesse, a empresa sairia do papel, e assim eu fiz. Meu sócio e eu começamos a pesquisar as dores de mercado em que dados provenientes de tecnologias espaciais poderiam ser empregados e desenhamos os setores de produtos da empresa. Mas a tecnologia em si foi a aplicação de anos e anos de conhecimentos e trabalhos que já tínhamos desenvolvido.

 

É uma inovação nesse segmento, você teve referências de outras empresas nacionais ou estrangeiras?

 

Sim! Mapeamos os concorrentes diretos e indiretos da Quasar tanto no Brasil quanto internacionalmente. E sempre nos deparamos com processos pouco robustos e escaláveis, de alto custo e tecnologias limitadas. Com a Quasar oferecemos serviços com tecnologia 100% nacional e de alta precisão. 

 

E quais são os benefícios a partir do mapeamento e informações oferecidos? Em que aspecto isso contribui para a vida das pessoas, para uma cidade inteligente?

 

A implementação de tecnologias da Quasar pode definitivamente contribuir para uma cidade inteligente em diversos aspectos. Pode ser utilizada para monitorar continuamente a qualidade da água em reservatórios, rios ou outras fontes que abasteçam as cidades. E isso é fundamental para garantir que a água fornecida à população esteja dentro dos padrões de segurança e potabilidade, contribuindo para a saúde pública e o bem-estar dos cidadãos.

 

A tecnologia pode ser empregada para monitorar áreas urbanas e detectar ocupações irregulares ou invasões de áreas públicas ou privadas. Áreas sem infraestrutura básica adequada, como saneamento e eletricidade, que colocam em risco a segurança dos ocupantes e das comunidades ao redor podem ser monitoradas. Ou invasões em áreas de proteção ambiental, ou locais suscetíveis a deslizamentos, inundações. A tecnologia ajuda a aumentar a segurança pública.

 

A Quasar pode ser utilizada para monitorar áreas geográficas vulneráveis e, ao identificar e monitorar essas áreas de forma contínua, é possível tomar medidas preventivas e mitigatórias, como o reforço de encostas, a realocação de comunidades e o planejamento urbano adequado, garantindo a segurança dos cidadãos e reduzindo danos causados por desastres naturais. Se o meu trabalho não estivesse impactando positivamente a vida das pessoas, ele não teria sentido para mim.

 

Qual sua visão sobre o mercado de trabalho para o engenheiro aeroespacial?

 

Não é trivial! O engenheiro aeroespacial é um profissional multidisciplinar. Na graduação cursamos as disciplinas de aeronáutica e espacial juntas. Ainda assim, faltam mais profissionais dessa qualificação e, embora não tenhamos tantas empresas, o setor espacial brasileiro está crescendo; o mercado está aquecido, tem excelentes empresas para trabalhar, com muitas oportunidades de projeção. Inclusive dentro da Quasar.

 

Qual dica você dá aos engenheiros que estão ingressando no mercado?  

 

Além dos básicos como “saiba onde se quer chegar” e “sempre busque aprimoramento profissional”, têm dois pontos que acredito serem dicas de ouro que, na minha visão, são ensinamentos para a vida. O primeiro é se apaixonar pela dor que você está resolvendo. Entender o problema que você está resolvendo e estar alinhado com a proposta de valor da empresa é essencial para direcionar seus esforços de maneira eficaz. Quando isso ocorre, você se torna mais comprometido e motivado a encontrar soluções inovadoras e eficientes. Ainda, ajuda a manter o foco e a persistência, que são fundamentais para superar os desafios que surgirão ao longo do caminho, e pode ter certeza que serão vários! O segundo é que a vida é feita de pessoas, de conexões. Engenheiros muitas vezes trabalham em projetos multidisciplinares, em que diferentes habilidades e conhecimentos são necessários para alcançar os objetivos. Saber trabalhar em equipe, ter um bom networking e valorizar a diversidade de ideias são características essenciais para o sucesso.

 

 

 

 

 

 

 

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Comentários  
# EngenheiroEmiliano Affonso 25-03-2024 15:12
Parabéns Engenheira Thaís!

Excelente atitude, foco, profissionalism o e dicas
Muito sucesso com a Quasa!
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