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12/08/2021

Engenheiro empreendedor – Uma visão crítica

Renato Vargas*


A estagnação econômica do Brasil formou um horizonte sem margem para negociar um futuro melhor para a Engenharia do Brasil.  Estes tempos difíceis estão manifestos na ausência de oportunidades, desemprego, evasão  dos  melhores  quadros  para  outras  áreas  devido  aos  baixos salários e a queda de prestígio na hierarquia das empresas. Os motivos para esta derrocada ainda são nebulosos, especialmente porque ocorre diante da complexidade da globalização e o surgimento das novas tecnologias da Revolução 4.0, mas estendem-se desde a profunda desindustrialização  do  Brasil,  passa  pela  falta  de  investimentos  em  infraestrutura  e  chega  à proliferação  de  escolas  de  engenharia  de  nível  questionável.  Todos  estes  fatos  ainda  aguardam discussões  nas  entidades  de  classe  para  fornecer  esclarecimentos  à  categoria  por  meio  de manifestações firmes e distantes das atuais reações complacentes e inconsequentes.

 

 

empreendedorismo

 


Diante da crise, nos  últimos  anos  surgiram  algumas  possibilidades  para  a  redenção  da categoria,  e  uma  alternativa  ganhou  evidência:  resgatar  um  mercado  de  trabalho  por  meio  da transformação  do  engenheiro em  empreendedor. Este  tema  foi  privilegiado  na  agenda  das federações  de  indústria,  entidades  de  classe,  associações,  faculdades  privadas  e  mesmo  em algumas  universidades  tradicionais.  Assim, os  engenheiros  são  assediados  por  mantras  sobre competividade,  inovação  e  empreendedorismo  disseminados  em  congressos,  seminários  e  lives nas redes sociais. O resultado imediato desta retórica de criação do engenheiro-empreendedor foi a neutralização de uma eventual reação da categoria para resgatar oportunidades de trabalho. Por outro  lado,  este  movimento  originou  um  sistema  meritocrático  que  contempla  o  “engenheiro moderno e atento às necessidades de mercado na condição de empreendedor”, e não mais como um  trabalhador  à  disposição  das  atividades  técnicas  demandadas  pelas  empresas.  Portanto, estamos saindo da condição de engenheiros desempregados para a de profissionais “capazes/incapazes  de  se  reinventar  como  empreendedores”,  e  observamos  inertes  o  fator  risco multiplicar-se no desempenho da profissão.

São inegáveis os avanços da onda de empreendedorismo nas últimas décadas, e a chamada revolução 4.0 consolidou um espaço para a disseminação desta tendência tecnológica protagonizada pela Inteligência artificial (AI), internet das Coisas (IoT) e o Big Data, articuladas no contexto  de  criação  de  poderosos  polos  tecnológicos  pelo  mundo. No Brasil, esta  tendência conquistou um espaço importante para a discussão de tecnologia - assunto historicamente marginal na sociedade brasileira – entre engenheiros, economistas e na sociedade em geral.

Mas os números indicam que a despeito deste encantamento tupiniquim com o tema, algo vai mal nesta onda de empreendedorismo e inovação no Brasil. Afinal, se este é o caminho do sucesso econômico, por que o Brasil permanece com baixos índices de inovação e amarga uma 62 ª posição no Índice Global  de  Inovação  (IGI  -  2020)  entre  131 países? Por  que  ocupa  a  34°  posição  entre países  com  mais  registros  de  patentes? Por  que  apenas  25 %  das empresas  criadas  em  2008 sobreviveram  até  2018  (IBGE)? Por  que  a  complexidade  produtiva, um  indicador da sofisticação produtiva por meio de desenvolvimentos tecnológicos apresenta o Brasil em queda livre e refém de minério, petróleo e soja, enquanto os tigres asiáticos avançam  exponencialmente? Basta lembrar que na década de 60 a renda per capita da Coreia do Sul, um dos expoentes da economia baseada em  inovações, era um  terço  da brasileira  e atualmente  é 3,5  vezes  maior.  O Vietnã, devastado pela guerra há 40 anos, não apenas suplantou o Brasil em exportações nos últimos anos, mas o fez por meio de forte participação de produtos tecnológicos. Portanto, os movimentos de disseminação do  empreendedorismo  não  são  acompanhados  de  resultados  na  economia  nacional  e há  a necessidade  de  aprofundar  as  discussões  para  entender  porque  a  retórica  não  se incorpora  à realidade. 


No contexto mais amplo, a economia mundial é controlada pelo poder financeiro, traduzido em  poder  político  na compra de  influências  que  cria  barreiras  para a  livre  concorrência (Stiglitz, 2019) e inovação. Este componente político e econômico que impede o desenvolvimento do  livre  mercado  é  potencializado  em  um  país  periférico,  historicamente  refém  dos  poderes  das multinacionais e à deriva no processo de desenvolvimento em função da ausência de planejamento do estado.
 

Mas para elucidar alguns dos obstáculos para a construção de um ecossistema de empreendedorismo no Brasil em meio às contradições que constroem a sua história, é interessante resgatar  algumas  ideias  de  Joseph  Schumpeter  (1883-1950),  o  economista  e  cientista  político austríaco responsável pela criação das bases teóricas do empreendedorismo há quase cem anos.


Schumpeter introduziu os conceitos de inovação e da constante reinvenção baseada na quebra de paradigmas – a consagrada ideia de destruição criativa (Schumpeter;1942). Ele  fundamentou a sua teoria da inovação e empreendedorismo sobre o conhecimento e jamais se afastou da necessidade de  estabelecer  estruturas  permeáveis  ao  fluxo  deste  conhecimento  para  a  constituição  de  uma empresa. Schumpeter definiu o empreendedor como um agente versátil, com habilidades técnicas para produzir e reunir recursos financeiros, organizando as operações internas e as vendas. Mais tarde, Peter Drucker (1970) associou ao  empreendedorismo a noção de risco e consolidou a base teórica  para  Nelson  (1993)  conceber  a  ideia  de  Sistema  de  Inovação  (SI).  O  SI  é  uma  iniciativa governamental que congrega empresas, governos e universidades por meio de políticas de indução de tecnologias prioritárias com financiamento público e privado, benefícios fiscais, e atividades de fomento para criar, importar, modificar e difundir novas tecnologias (Freeman, 1995).

Estas ideias foram  cristalizadas  no  Vale  do  Silício  (EUA),  um  polo  tecnológico  amparado  pelo  financiamento público e composto por universidades de alto nível como Stanford e empresas de base tecnológica. Este sucesso inspirou a criação de outros polos, entre os quais destaca-se o da cidade de Shenzen, na  China,  que  se  tornou  a  nova  referência  para  uma  economia  baseada  no  conhecimento  e inovação.  Mas  ainda  podem  ser citados  Tsukuba  no  Japão, que foi  planejado  como Science  City congregando a Universidade de mesmo nome e centenas de institutos de pesquisa e laboratórios de P&D de empresas; Bangalore, na Índia, e sua ascensão no cenário da tecnologia de informação por  meio  de  empresas  como  a  Wipro  de  Azim  Premji;  Zhongguancun,  localizada  na  região metropolitana  de  Pequim,  caracteriza-se  por  ligações  com  grandes  corporações  multinacionais como Google, Intel, Motorola, Sony, Microsoft e outras. A sua fonte intelectual está na Universidade de Pequim, Universidade de Tsinghua e – sua grande diferencial – a Academia Chinesa de Ciências.

Todos  estes  SIs  comprovam  a  necessidade  de  um  estado  forte  para  criar  ecossistemas  para  o fomentar áreas prioritárias e a mobilizar de recursos para a difusão do conhecimento e da inovação em todos os setores da economia.  


O  Brasil  possui  boas  universidades  públicas  em  nível  de  ensino  e  pesquisa,  o  que  é comprovado  pelo  número  de  publicações  internacionais  e  formação  de  pessoas  em  nível  de graduação o pós-graduação. Por outro lado, se a indústria ainda convive com uma cultura imersa no  prático-imediatismo,  pouco  permeável  à  pesquisa  e  desenvolvimento  -  e  enfrenta  uma  forte retração nos últimos 40 anos - ainda mantém um parque industrial com demandas razoáveis e busca os caminhos para consolidar as novas tecnologias da Revolução 4.0. Portanto, a realidade nacional apresenta os atores  necessários para  o processo  de  inovação  e  empreendedorismo,  exceto pela ausência de um governo federal distante de seu papel de organizador e, pelo contrário, no momento atual se empenha na diminuição do Estado, na expectativa de que a inciativa privada assuma esta função.  Ele  desconhece  que  as  empresas  privadas  não  são  concebidas  para  organizar  políticas públicas  para  fomentar  setores  estratégicos  de  um  país  e  jamais  exerceram  o  protagonismo  na construção de um SI, em lugar ou tempo algum. Entre os motivos impeditivos para o protagonismo das  empresas  privadas  na organização  de  novos  empreendimentos  está  o  risco.  Qualquer empreendimento possui muitas incertezas no início e as empresas privadas não estão dispostas a assumir  os  riscos  e  preferem  aguardar  iniciativas  governamentais  (Mazzucato,  2014).  Um  belo exemplo aconteceu no Brasil no início dos anos 2000. Havia fortes indícios de petróleo na camada do  pré-sal  e  a  Shell,  na  época  operadora  na  exploração  de  novos  campos,  estava  ciente  destas informações,  mas  também  dos  riscos  envolvidos,  e  resolveu  não  realizar  os  investimentos.  A Petrobras tomou este risco e fez história. 

Os  países  desenvolvidos  e  os  tigres  asiáticos  são  produtos  dessa  sociedade  tecnológica concebida  por  SIs  com  base  nos  recursos  públicos.  Na  China  existem  mais  de  30  bancos  de desenvolvimento para subsidiar esta estrutura. Enquanto isto, o atual governo federal desmontou o BNDES nos últimos anos.
 

No  Brasil  é  comum  a  referência  aos  casos  de  sucesso  de  polos  tecnológicos,  mas  sem  a restituição  deste  contexto,  onde  o  SI  exerce  o  protagonismo.  Este  é  um  erro  capital porque  esta omissão inviabiliza a implantação de um ecossistema para criação e gestão de tecnologia e constrói o abismo cada vez maior entre o Brasil e os países de forte investimento em tecnologia.

Embora  o  governo  federal  atual  esteja  na  contramão  deste  processo,  algumas  iniciativas isoladas persistem, como os parques tecnológicos que possuem ambientes para geração de novos negócios e algumas linhas de financiamento público para criação de empresas. Os programas de financiamento  de  empresas  promovidas  por  fundações  de  pesquisa,  em  especial  a  Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), por meio do projeto Pipe (Pesquisa Inovativa  em  Pequenas  Empresas)  e  a  Embrapii (Empresa  Brasileira  de  Pesquisa  e  Inovação Industrial), são bastante interessantes, embora insuficientes  para atender  as  demandas  de mercado. A Fapesp persiste como a referência nacional para a dotação de recursos para pequenos e médios empresários, mas o Embrapii está distante da realidade de um engenheiro-empreendedor.

Recentemente, foi veiculada uma apresentação do Embrapii com 2 casos de sucesso: um liderado pela Bosh e outro pela Fiat Chrisler, empresas bilionárias com lucros de R$ 30 bilhões e 20 bilhões (2019),  respectivamente.  Este  exemplo  expõe  como  os  recursos  para  inovação  permanecem próximos das grandes corporações e distantes de um engenheiro-empreendedor.

Há outros fundos formados por consórcios de entidades públicas e privadas para financiamento  de  novos  empreendimentos,  mas  é  possível  perceber  nos  eventos  de  “pitch” organizados pelos  “anjos  tupiniquins” a preferência pelo aporte de recursos em empresas consolidadas, com um risco mínimo e amplas garantias para o investidor sair do negócio. Portanto, também estão longe das mãos dos potenciais engenheiros-empreendedores. Um aspecto essencial neste processo de busca de recursos para alavancar novos negócios é entender que os investidores privados,  em  geral,  orientam  suas  decisões  para  obtenção  de  um  retorno  financeiro  seguro  e imediato  e  entram  em  conflito  com  o  processo  de  inovação,  naturalmente  sujeito  aos  avanços  e retrocessos de qualquer desenvolvimento tecnológico.

Portanto, ao nosso colega engenheiro bombardeado diariamente pelas palavras de inovação, competitividade e empreendedorismo e que se aproxima desta imagem do engenheiro-empreendedor é prudente informar que o eventual insucesso nos empreendimentos não é apenas uma questão de competência, mas devido à ausência de condições para criação e manutenção de empresas. Aquela imagem estereotipada do jovem maluco e genial como Steve Jobs, imerso em riscos  e  soluções  criativas  no  fundo  de  uma  garagem  americana  é  uma  lenda,  porque  ele  foi privilegiado pelos desenvolvimentos tecnológicos realizados com financiamento público e, mesmo nos momentos  de  dificuldades  encontrou  o  abrigo  em  vários  incentivos  fiscais  e  financeiros  do estado.
 

Por fim, é necessário deixar registrada a associação inequívoca entre o atual movimento de empreendedorismo à fragilização dos sindicatos e ao sequestro dos direitos trabalhistas e sociais previstos na agenda neoliberal, que procura tratar sintomas da exaustão do sistema capitalismo do mundo ocidental por meio de corte de gastos relativos ao estado de bem-estar social (Streek, 2018).


Esta  articulação  deu  origem  a  conhecida  economia  uberizada  e  estabeleceu  um  novo  sistema meritocrático  onde  aplicativos  de  taxi  ou  de  entrega  de  alimento  são  referências  de  sucesso  de empreendedorismo. O que deixa a seguinte questão: se os empreendimentos que jogam nas ruas milhares  de  jovens  sem  qualquer  tipo  regulamentação  de  direitos  trabalhistas  e  segurança  são casos de sucesso, chegou a hora de pararmos para entendermos as severas restrições  impostas ao conceito de desenvolvimento no momento atual. 
 

Bibliografia

  • • SCHUMPETER, J. Capitalismo, Socialismo e Democracia (1942).
  • • NELSON, R. R. National Innovation Systems: a comparative analysis. New York, Oxford University Press,

1993.

  • • FREEMAN, C. The ‘National  System  of  Innovation’  in  historical  perspective.  Cambridge Journal of

Economics, Volume 19, Issue 1, February 1995, Pages 5–24.

  • • MAZZUCATO, M. O Estado Empreendedor: Desmascarando o Mito do Setor Público x Setor Privado. São

Paulo: Portfolio-Penguin, 2014. 

  • • STREEK, W. O Tempo Comprado – A Crise Adiada do Capitalismo, São Paulo, Boitempo, 2018.
  • • STIGLITZ, J. Povo,  Poder  e  Lucro  -  Capitalismo  Progressista  Para  uma  Era  de  Descontentamento.  São

Paulo, Record, 2020


*Engenheiro mecânico com mestrado e doutorado em Engenharia Mecânica pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (Poli-USP); diretor técnico-administrativo do Núcleo de Consultoria em Engenharia e Pesquisas em Tecnologia Ltda (NEP); coordenador da Relief, plataforma EAD desenvolvida para capacitação de engenheiros na área de análise estrutural por elementos finitos.


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