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Opinião – Venezuela em disputa

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Gilberto Maringoni

As eleições presidenciais venezuelanas do último dia 14 de abril ocorreram em cenário atípico. Primeiro, foram disputadas em meio a enorme comoção pela morte do ex-presidente Hugo Chávez Frias. Segundo, esse foi o terceiro pleito realizado no país em seis meses. Aconteceram eleições presidenciais em outubro de 2012 e para governadores em dezembro, com incidências variadas na vida cotidiana. Terceiro, a diferença entre os candidatos foi mínima: 1,83%, num universo de quase 15 milhões de votos.

Não bastasse isso, a Venezuela vive um surto inflacionário. A taxa de 2012 chegou a 20%. Para um observador pouco informado, o quadro beira o caos. Aliás, é essa a mensagem que a mídia brasileira buscou transmitir nas últimas semanas.

A morte de Chávez tem contornos de grande acontecimento mundial. Não se trata apenas do desaparecimento de um mandatário em exercício, mas da falta de uma liderança que foi capaz de rearticular um país estilhaçado política, social e institucionalmente após duas décadas de profunda crise, entre os anos 1980-90.

A queda vertiginosa dos preços do petróleo, num país monocultor, levou a um desarranjo espetacular na vida política, econômica e social. Com ousadia e algum estardalhaço, Hugo Chávez reconstitucionalizou o país logo no início de seu mandato, estabeleceu novos parâmetros de convivência internos e consolidou a democracia, marcada por 17 eleições em uma década e meia. Adquiriu, perante boa parte da população, características quase heroicas no manejo das engrenagens do poder.

Após seu falecimento, muitos dos problemas administrativos e desgastes com 14 anos de governo vieram à tona durante a curta campanha eleitoral disputada por seu ministro das Relações Exteriores, Nicolás Maduro, e seu oponente, o governador do estado de Miranda, Henrique Capriles.

A votação extremamente equilibrada expôs uma divisão no país. Ao mesmo tempo, revelou a vitalidade de sua democracia. Ditaduras são pródigas em fabricar maiorias e consensos artificiais. Não faltaram insinuações de fraude no pleito. No entanto, não há denúncia consistente de manipulação dos resultados. Uma auditoria oficial – nunca realizada nos Estados Unidos ou na Europa Ocidental em pleitos majoritários – até agora nada provou.

A grande tarefa de Maduro será reaglutinar o país, direcionar investimentos para a infraestrutura e atacar a inflação. Diga-se de passagem, a onda altista está em queda. Após bater os 30% em 2010, ela caiu para 27,5% no ano seguinte. Mesmo assim, é um problema sentido no cotidiano da população. Não será tarefa fácil, em meio a um clima político agitado. Os preços do petróleo em alta podem ajudar na estabilização.

Ao Brasil interessa a estabilidade do quadro político local. Com investimentos crescentes e um comércio bilateral que se multiplicou por sete entre 2002 e 2010, somos atualmente o maior parceiro da Venezuela na América Latina.


Gilberto Maringoni é professor de Relações Internacionais da Universidade
Federal do ABC e autor de “A Venezuela que se inventa”
(Editora Fundação Perseu Abramo, 2004) e “A revolução venezuelana” 
(Editora Unesp, 2009)

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