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Carro voador e tendências da mobilidade aérea urbana no Brasil

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Jéssica Silva

 

“Os Jetsons, “Guerra nas estrelas”, “De volta para o futuro” e muitas outras produções de ficção científica têm um ponto de engenharia em comum: com seus marcantes carros voadores, popularizaram no imaginário de todos a possibilidade da mobilidade aérea urbana.

 

O conceito, segundo o professor-doutor da Escola de Engenharia da Universidade Mackenzie Dario Rais Lopes, é de um sistema de transporte aéreo seguro e eficiente que usará aeronaves altamente automatizadas que operarão e transportarão passageiros ou cargas em altitudes mais baixas, em áreas urbanas e suburbanas. “Essas aeronaves são os eVTOL. O acrônimo inglês significa electrical vertical take-off and landing, ou veículo elétrico de pouso e decolagem verticais. Numa visão bem simplista, poderia dizer que é um misto de carro com helicóptero elétrico”, explica.

 

Em termos operacionais, conforme ele, a diferença em relação aos últimos está na possibilidade de voos a uma altitude inferior. Já quanto à tecnologia, muda a propulsão. “Serão veículos elétricos com menor impacto ambiental. Os eVTOL geram um ruído muito menor que o dos helicópteros e não usam combustíveis fósseis. E se trabalha para que cheguem a operações driveless, ou seja, sem piloto”, complementa Rais.

 

Segundo este engenheiro aeronáutico, há mais de 150 projetos de veículos eVTOL no mundo, num mercado estimado em aproximadamente US$ 30 bilhões. “Alguns países, como Estados Unidos e China, estão inclusive com o trabalho de regulamentação em estágio avançado, de modo que o cenário mais provável é a operação de serviços de mobilidade urbana aérea a partir de 2025”, diz.

 

EVE 450Simulação do eVTOL da Eve. Imagem: Divulgação/Eve Air MobilityNo Brasil, a Eve Air Mobility, empresa subsidiária da Embraer, trabalha no primeiro eVTOL nacional, apelidado inicialmente de “táxi voador”, movido por dez motores elétricos, com sistema fly-by-wire [controle de voo eletrônico] de quinta geração e capacidade para até cinco passageiros e um piloto, ou até seis passageiros em voos autônomos.

 

Em março último foram realizados testes de voo com um protótipo em escala reduzida. Já em julho o design da cabine  foi apresentado durante o evento Farnborough International Airshow 2022, na Inglaterra. “Nossas soluções foram pensadas considerando necessidades essenciais do mercado como acessibilidade, segurança, sustentabilidade e preço da passagem”, disse na ocasião a vice-presidente de experiência do usuário da Eve, Flavia Ciaccia.

 

A companhia também trabalha no desenvolvimento da gestão do tráfego aéreo urbano, a “UATM” (sigla em inglês de Urban Air Traffic Management). Em maio, publicou em conjunto com a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) o Conceito de Operações (Conops), com análise e proposta inicial de mobilidade aérea urbana para o Rio de Janeiro.

 

De acordo com o que foi divulgado pela Anac, o documento incluiu estudos, grupos de discussão e um período de operações de voo realizado em novembro de 2021 entre a Barra da Tijuca e o Aeroporto Internacional Tom Jobim (RIOgaleão), simulando o ecossistema de operação de um eVTOL com a utilização de um helicóptero. “Passageiros também puderam participar em um dos seis voos diários realizados ao longo de 30 dias com passagens a preços acessíveis”, destacou a agência reguladora em seu portal. Teste semelhante foi efetuado em setembro, em Chicago (Illinois/EUA), em parceria com a empresa Blade Air Mobility, sendo a primeira simulação norte-americana de mobilidade aérea urbana.

 

Vídeo de divulgação do eVTOL da Eve e teste piloto com protótipo em escala reduzida.

 

Estudo sobre a demanda em potencial do transporte aéreo feito pelo Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), em conjunto com a Eve, calcula que será viável cobrar cerca de US$ 1,50, em torno de R$ 7,50, de cada passageiro por quilômetro voado.    

 

“O grande desafio é a regulamentação operacional do veículo e da infraestrutura, os vertiportos. Mas tudo indica que teremos serviços de mobilidade urbana aérea na segunda metade desta década. Os benefícios vão além de ser uma alternativa para deslocamentos em áreas urbanas congestionadas; será fundamental no atendimento às emergências, transporte e entrega de cargas em cidades como São Paulo”, vislumbra Rais.

 

Oportunidades a engenheiros

A mobilidade aérea urbana vai demandar muitos engenheiros, na sua visão. Ele destaca a proporção de atendimento do novo modal: “Pesquisas de origem e destino falam que 40 milhões de viagens são feitas por dia na Região Metropolitana de São Paulo, 28 milhões motorizadas, sendo 15 milhões por transporte coletivo e 12 milhões por veículos particulares. Imagine que 1% dessas viagens motorizadas migrem para os serviços de mobilidade urbana aérea; serão 282 mil por dia. Hoje nós temos diariamente 2 mil operações de helicópteros na Grande São Paulo e menos de 600 voos no Aeroporto de Congonhas. Dá para imaginar o esforço de engenharia para viabilizar esse salto operacional?.”

 

Dario JurandirOs especialistas Dario Rais Lopes (à esquerda) e Jurandir Fernandes. Fotos: Beatriz Arruda / Gutah/Mix MídiaApesar de grande avanço tecnológico, o impacto sobre os congestionamentos atuais, na ótica do coordenador do Conselho Assessor de Transporte e Mobilidade Urbana do SEESP, Jurandir Fernandes, será ínfimo. “Mesmo que o futuro eVTOL transporte o dobro dos passageiros dos helicópteros, o número continuará sendo relativamente muito baixo, sem impacto algum sobre o trânsito. Mas é importante tê-los, são transportes mais leves, silenciosos e movidos a energia elétrica, portanto, menos agressivos ao ambiente urbano em termos de poluição sonora e química”, ele avalia.

 

Nesse sentido, Fernandes pontua que o Conselho Tecnológico do SEESP acompanha todo o processo do eVTOL, “consciente de sua importância para a engenharia nacional, sem esquecer que a eficácia da mobilidade urbana está centrada num transporte público cuja espinha dorsal são os sistemas sobre trilhos (trens, metrôs e VLTs) e sobre pneus operando em faixas próprias (BRTs). O eVTOL será um equipamento a mais para a mobilidade urbana”.

 

Mercado potencial

Apesar da visão futurista, a ideia de carro voador é bem antiga. O primeiro experimento registrado é de 1921, o “carro avião” desenvolvido pelo francês René Tampier. Muitos outros modelos foram testados até a chegada do Transition, da chinesa Terrafugia, em 2009, o primeiro do gênero a ser comercializado.

 

Vídeo de divulgação do carro voador Transition.

 

Já na linha do “pilote você mesmo”, em 2021, a empresa sueca Jetson lançou o Jetson One, um eVTOL feito de fibra de carbono e alumínio que alcança a velocidade máxima de 102km/h num limitado voo de até 20 minutos por carga. Ainda assim, segundo o portal Olhar Digital, restam poucas unidades à venda para 2023 – o preço do veículo chega a pouco mais de R$ 450 mil.

 

Segundo pesquisa realizada pelo professor Rais entre setembro e outubro de 2021, os paulistas querem voar: 68% das pessoas que responderam ao questionário afirmaram ter disposição total para experimentar um táxi aéreo como o eVTOL da Eve. Esse número se reduz para apenas 21% quando a experiência é considerada sem piloto. “O resultado mostra a necessidade de um esforço para esclarecer o mercado potencial sobre as condições de segurança dos veículos não tripulados”, conclui o docente. A pesquisa ainda identificou que os entrevistados entendem como principal benefício da mobilidade aérea urbana a melhoria do atendimento e serviços de remoção em emergências, além do ganho de tempo no transporte de cargas e deslocamento de passageiros.

 

 

Divulgação do Jetson One, eVTOL no estilo "pilote você mesmo".

 

 

 

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