GRCS

 

Sair do caos e resgatar um projeto de nação

 

Início da imunização traz esperanças, mas é preciso levar a vacina a um grande contingente da população. Também há que se atuar efetiva e urgentemente para superar situações trágicas como a ocorrida em Manaus. Por fim, devemos  planejar o futuro do País; anúncio de fechamento das fábricas da Ford é mais um alerta vermelho para a indústria nacional.

 

O início da vacinação no domingo (17/1) em São Paulo trouxe esperanças de que o Brasil possa finalmente começar a vencer a pandemia do novo coronavírus e todas as consequências dela advindas. Ainda que o episódio alvissareiro tenha sido contaminado pela disputa política entre os governos estadual e federal, o que mais importa é que a possibilidade de imunização é uma realidade.

 

No entanto, para que isso se efetive, é preciso que haja doses em quantidade suficiente, assim como os materiais e equipamentos necessários à aplicação em todas as pessoas que se qualificam para ser vacinadas. Seria, portanto, bastante salutar que a partir de agora os esforços se voltassem a esse fim de forma coesa.

 

Igualmente fundamental é assegurar meios econômicos para a sobrevivência da população, daí ser imprescindível a manutenção do auxílio emergencial e o compromisso de governantes e parlamentares com essa agenda.

 

Até porque esses serão passos fundamentais para superar o quadro de extrema dificuldade em curso no País, que ganhou ares ainda mais trágicos na semana passada. Na quinta-feira (14/1), como se já não houvesse fatos ruins suficientes com o aumento explosivo no número de casos e óbitos por Covid-19 neste início de ano, a cidade de Manaus foi palco do horror em seu estado bruto, com pacientes morrendo asfixiados por falta de oxigênio nos hospitais. Deparamo-nos assim com o caos e a barbárie.

 

Dias antes, a bomba sobre os brasileiros havia sido o anúncio da Ford de encerramento da produção de veículos no País. O comunicado feito na segunda-feira (11/1) informava o fechamento das fábricas em Camaçari (BA), Taubaté (SP) e Horizonte (CE), onde mantém a marca Troller, o que elimina cerca de 6 mil empregos diretos, mais algumas dezenas de milhares da cadeia produtiva do setor e tem impacto nas economias locais onde estavam essas plantas.

 

Conforme pontuou nota de repúdio da Federação Nacional dos Engenheiros (FNE), “a situação exige medidas urgentes para mitigar os efeitos negativos da decisão da empresa que, após um século de ganhos no Brasil, abandona o País em momento de crise econômica severa e emergência sanitária”.

 

Para além do agravamento do desemprego com o fechamento de postos qualificados, a entidade alerta para o processo de encolhimento do setor automotivo e da indústria brasileira como um todo, dinâmica que se observa há décadas, mas que vem recrudescendo nos últimos anos. A situação é particularmente preocupante do ponto de vista da engenharia e da tecnologia nacionais e de seus profissionais, que perdem oportunidades a cada dia.

 

A recuperação da indústria, segmento fundamental ao desenvolvimento, demanda política industrial, para além de subsídios fiscais, como demonstra o caso da Ford.  O Estado deve cumprir sua função de indutor do crescimento de maneira adequada ou o País seguirá à deriva.

 

 

Eng. Murilo Pinheiro – Presidente

Demissões

Em assembleia realizada nesta segunda-feira (9/05), os trabalhadores na Ford, em São Bernardo, decidiram paralisar a fábrica por 24 horas em reação à pauta de ajustes apresentada pela montadora ao Sindicato dos Metalúrgicos do ABC na semana passada. A empresa informou que não pretende renovar a adesão às ferramentas de flexibilização que estão sendo utilizadas atualmente – Programa de Proteção ao Emprego (PPE) e layoff –, e alegou que tem um excedente de 1.110 trabalhadores. 

A pauta inclui também a revisão de cláusulas econômicas do acordo coletivo, como alterações na tabela salarial, no pagamento da PLR e congelamento de salários, além de serviços oferecidos ao trabalhador, como plano medico, transporte e alimentação. Por outro lado, não há menção a investimentos concretos para a planta. “Não dá pra aceitar uma negociação sem contrapartida, que rebaixa direitos, conquistas e condições de trabalho que tanto lutamos para conseguir. Nós concordamos em discutir a competitividade, como fazemos sempre com as montadoras sediadas aqui no ABC, mas nesse momento, entendemos que fazer isso é justamente continuar utilizando mecanismos como PPE e layoff”, destacou o presidente do Sindicato, Rafael Maques, para os cerca de quatro mil trabalhadores presentes à assembleia.  

O dirigente relembrou que até 2013 o mercado automotivo brasileiro era um dos que mais crescia em todo mundo, o que possibilitou grandes ganhos às empresas. “Crescemos em ritmo chinês. De 2004 a 2015 as montadoras brasileiras remeteram 24,5 bilhões de dólares às suas matrizes no exterior, o que ajudou no enfrentamento da crise dos EUA e da Europa. Agora esse fluxo se inverteu. As matrizes estão enviando recursos e as direções mundiais estão exigindo como contrapartida duros ajustes em suas fábricas brasileiras. Não podemos aceitar essa lógica e vamos lutar para reverter isso”, garantiu. 

Marques destacou que a situação enfrentada hoje pela Ford também é resultado de uma série de erros cometidos pela própria empresa. “A Ford é uma das montadoras que mais importam peças. Quando o dólar começou a inverter a tendência, abordamos esse assunto com a fábrica e sugerimos que ela montasse uma equipe para nacionalizar as peças, pois seria bom para a empresa e para o País. Isso não foi feito e, hoje, com o dólar alto, o custo das peças importadas pesa bastante. Além disso, a Ford não utiliza as ferramentarias brasileiras. O Inovar Auto oferece vantagem fiscal para as empresas que desenvolvem o seu ferramental no Brasil e eles não souberam aproveitar. Há problemas sim no mercado brasileiro, mas há também problemas na direção da empresa no Brasil e no mundo. E o trabalhador não pode pagar por isso”, reforçou. 

A Ford tem atualmente 3,8 mil trabalhadores. Destes, cerca de 3 mil estão sobre o regime do PPE e 400 estão em layoff, com jornada reduzida em 20%.  Os trabalhadores retornam ao trabalho nesta terça-feira (10/05).

 

 

Fonte: Sindicato dos Metalúrgicos do ABC

 

 

 

 

 

 

agenda