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05/03/2024

Indústria 5.0 impõe forte integração entre humanos e tecnologias

Carlos Magno Corrêa Dias*

 

Eng IA indústria 5.0Quando se pensa em desenvolvimento e progresso as relações de dependência entre a Inovação e as Revoluções Industriais para a produção de conhecimento são inevitáveis.

 

Categoricamente, pode-se afirmar que “o conhecimento determinou, determina e determinará (sempre) a Inovação”, sendo tal afirmação corroborada pelo girar constante e cada vez mais veloz da Tríplice Hélice do Conhecimento/Inovação a qual formada pelas “hélices” (poderes) da Academia (centrada no poder das Ciências), da Indústria (impulsionada pelas Tecnologias e pelo poder econômico) e do Governo (garantida pelo poder das Legislações).

 

Entretanto, há de se pontuar que, vez ou outra, tem-se afirmado que a já tradicional Hélice Tríplice do Conhecimento/Inovação formada pelas conexões Universidade-Indústria-Governo vem se alterando e, em dada medida, se fortalecido com novas hélices (“atores”) tais como a Sociedade (hélice quádrupla) e o Meio Ambiente (hélice quíntupla) dando origem ao que se poderia denominar Quíntupla Hélice do Conhecimento-Inovação formada pelas conexões mútuas entre Universidade-Indústria-Governo-Sociedade-Meio Ambiente.

Todavia, ao se considerar que a Tríplice Hélice do Conhecimento-Inovação é pensada (exatamente) para girar gerando soluções para os problemas do Meio Ambiente (em geral) e da Sociedade (em particular) a fim de tornar a vida humana facilitada ou melhorada; então, Meio Ambiente e Sociedade não poderiam ser consideradas como “hélices” no sentido originalmente estabelecido para a concepção de Tríplice Hélice do Conhecimento-Inovação.

 

No sentido precedente, então, siga-se a ideia fundamental de que a Tríplice Hélice do Conhecimento/Inovação é posta para girar em função das efetivas e boas conexões entre Universidade-Indústria-Governo para garantir desenvolvimento e melhoria de vida (incluindo o bem geral da Sociedade e a preservação necessária do Meio Ambiente).

 

Seja como for, a Tríplice Hélice do Conhecimento-Inovação sempre esteve girando nas Revoluções Industriais para produzir conhecimento útil e necessário e não será diferente no futuro próximo.

 

Porém, a despeito das Revoluções Industriais bem posicionar a evolução da Inovação, começou-se a pensar, também e em paralelo, que uma classificação particular para a Inovação seria mais propícia e se arbitraram as denominadas “Ondas de Inovação”.

 

A teoria das “Ondas de Inovação” define, então, as seguintes 6 (seis) grandes ondas; quais sejam:

(1) Primeira Onda de Inovação ou Onda da Revolução Industrial;

(2) Segunda Onda de Inovação ou Idade do Vapor;

(3) Terceira Onda de Inovação ou Era da Eletricidade;

(4) Quarta Onda de Inovação ou Era da Produção em Massa;

(5) Quinta Onda de Inovação ou Idade das Redes e Tecnologias da Informação e Comunicação; e,

(6) Sexta Onda de Inovação ou Onda da Sustentabilidade.

 

A atual Sexta Onda de Inovação, iniciada por volta de 2020, se baseia na Sustentabilidade, na Indústria C2C (Economia Circular), nas energias renováveis, no aprimoramento das ações de RSC (Responsabilidade Social Corporativa), nos princípios de ESG (“Environmental, Social, and Corporate Governance”, em português “Governança Ambiental, Social e Corporativa”), nos ODS (Objetivos de Desenvolvimento Sustentável) da Agenda 2030 da ONU (Organização das Nações Unidas).

 

As demais cinco Ondas de Inovação seguem, em dada medida, as razões das Revoluções Industriais que promoveram a disrupção (mudança) nos processos de transformação dos modos de produção e em toda a sociedade. Todavia, avançam traspondo a já identificada Quinta Revolução Industrial ao chamar fortemente a atenção para a necessidade de pensar e conduzir os processos de produção centrados em diretrizes sobre Governança Ambiental, Social e Corporativa (Sexta Onda de Inovação). Sustentabilidade é a palavra de ordem.

 

Tanto quanto as já tradicionais Revoluções Industriais as Ondas de Inovação são provocadas, também, pelo giro constante e contínuo da Tríplice Hélice do Conhecimento-Inovação produzindo novo e inovador conhecimento que transforma inevitavelmente sistemas antes estabelecidos.   

 

Assim, pontue-se que a Tríplice Hélice do Conhecimento-Inovação girou quando ocorreu a Primeira Revolução Industrial (Indústria 1.0) que promoveu a transição do capitalismo comercial para o capitalismo industrial quando o progresso e o desenvolvimento ficaram a cargo do uso do vapor, da utilização do carvão e do ferro.

 

A Indústria 1.0, iniciada em 1760, na Inglaterra, foi a era da mecanização. O mundo era impulsionado pelas máquinas a vapor (motores a vapor, máquinas térmicas que exploram a pressão do vapor). O trabalho passou a ser realizado nas fábricas gerando a otimização do tempo e a produção em escala, mas com péssimas condições para o trabalhador com longas jornadas de trabalho e salários muito baixos.

 

A mesma Tríplice Hélice, garantiu a produção de conhecimentos na Indústria 2.0 (a Segunda Revolução Industrial) com o emprego do aço no lugar do ferro, o uso da energia elétrica e a geração de produtos químicos quando, também, o capitalismo industrial cedeu lugar para o capitalismo financeiro. O período é impulsionado pela chegada da energia elétrica. 

Iniciada em 1850 quando se descobre que o petróleo podia ser extraído do carvão e do xisto betuminoso, terminando no fim da Segunda Guerra Mundial, na Indústria 2.0 tem-se na utilização do petróleo vantagens inolvidáveis e a promoção de diversas outras inovações tomando-se agosto de 1859 como a data de nascimento da indústria petrolífera dado que naquela data, na Pensilvânia (Estados Unidos), era perfurado o primeiro poço para a procura de petróleo.

 

A Terceira Revolução Industrial (Indústria 3.0) iniciada na década de 1950 é caracterizada pelo desenvolvimento da informática e pelos avanços na eletrônica. Sendo consequência, também, das simbioses entre o Poder do Conhecimento (Universidade), o Poder Econômico (Indústria) e o Poder Político (Governo) para a geração de conhecimentos, a Terceira Revolução Industrial teve na qualificação da mão-de-obra especializada característica fundamental.

 

Na Indústria 3.0 a utilização da tecnologia em todas as etapas da cadeia industrial foi outro dos aspectos relevantes do período a destacar tanto quanto a disseminação dos computadores que impulsionaram sobremaneira o setor industrial e comercial.

 

Uma Quarta Revolução Industrial (Indústria 4.0) começou a ser identificada na década de 2010 quando se iniciou o desenvolvimento de tecnologias avançadas capazes de automatizar praticamente todos os processos produtivos. Automação, Big Data, Machine to Machine (M2M), IoT/IIoT, Smart Factory, dentre outros sistemas, serviços ou processos passam a condicionar a realidade da produção industrial e a própria vida das pessoas.

 

O enfoque na conexão digital de equipamentos e dispositivos em um único sistema é um dos focos importantes na Quarta Revolução Industrial. O mundo passou a ser impulsionado por Sistemas Ciber-Físicos (CPS) e mais que em épocas passadas as conexões entre Governo-Academia-Meio de Produção foram determinantes. A produção de conhecimento científico em distintas áreas do saber foi enorme e por demais significativa.

 

Mas, o mundo, a partir de 2017, particularmente no Japão, começou a ser impulsionado pela interconexão, colaboração e sinergia entre seres humanos e tecnologias avançadas de forma que se fez surgir a Personalização em Massa, a Ultra Personalização e os Sistemas Ciber-Físicos Cognitivos dando origem à atual Quinta Revolução Industrial (Indústria 5.0).

 

Mas, em linhas gerais, é oportuno observar que a Personalização em Massa corresponde à produção de bens e serviços em massa que possam atender aos desejos particulares individuais de cada cliente com custos algo semelhantes aos dos produtos em geral não customizados. A Personalização em Massa, ou chamada também de Customização em Massa, está centrada na ideia de se oferecer produtos únicos não onerosos produzidos em um ambiente de produção em massa.

 

A Personalização em Massa nasceu na Indústria 4.0 e, atualmente, na Indústria 5.0, passa por um processo de aprimoramento de forma a intensificar a ideia de adaptar produtos e serviços conforme as demandas e gostos dos clientes. Em decorrência da maior exigência dos consumidores os meios de produção se convenceram que é necessário oferecer produtos ou serviços conforme as escolhas e expectativas dos clientes. Na Indústria 5.0 um dos fatores de disrupção é a interconexão mais pessoal próxima entre as marcas e os produtos e seus clientes.

 

Percebe-se na Indústria um retorno humano típico para os meios de produção quando se constata processos que visam a união das habilidades humanas e tecnológicas para criar um sistema de interação muito mais aprimorado, centrado no encontrar meios de criar uma colaboração mais assertiva entre as máquinas e a mão de obra humana baseada nos conhecimentos e experiências que apenas o homem possui. 

 

Porém, é importante ressaltar que, quanto à inovação, a “personalização” por ser produzida de forma mais rápida e imediata é menos inovadora que a “customização”. A customização além de agregar valor tem o algo a mais do “único”. Embora tanto personalizar quanto customizar pretendam individualizar a experiência do possível cliente, a personalização e customização diferem em termos da “ação necessária” dado que a primeira “é feita para o usuário” e a segunda “é feita pelo usuário”.

Customizar (“feito sob a encomenda”, em tradução do inglês “custom”) é modificar, adaptar ou personalizar algo de modo a adequá-lo ao gosto ou às necessidades de alguém.

 

Assim, customizar é entendido como “alterar algo para fazer com que sirva melhor aos requisitos individuais de alguém”. Na Indústria 5.0 a Produção Customizada (também conhecida como Customização Maciça) refere-se à transformação dos processos de produção e ao uso (desenvolvimento) de tecnologias para dar ao cliente exatamente “o que ele deseja da forma que ele pensa ser o melhor para ele mesmo”.

 

A Ultra Personalização (“Ultra-Personalized Products and Services” - UPPS) objetiva atender ao cliente de forma realmente individualizada para cada pessoa. Enquanto a personalização envolve a adaptação da produção de acordo com as preferências e características gerais dos clientes a UPPS analisa dados em tempo real e usa de IA (Inteligência Artificial) para gerar experiências únicas altamente customizadas e individualizadas para cada pessoa.

 

A UPPS se mostra uma abordagem em desenvolvimento que pretende ser um grande “upgrade” para o mercado de forma a gerar produtos e serviços ultrapersonalizados criados para atender totalmente ao cliente de maneira única, particular e individual. Seguindo a ideia de retornar o valor humano agregando-o à tecnologia a UPPS está focada em trabalhar no sentido “sob demanda” para atender questões específicas de cada consumidor.

 

Observe-se, também, que a Indústria 5.0 se mantém desenvolvendo e otimizando, de forma intensificada, a maior e melhor conectividade por meio dos Sistemas Ciber-Físicos Cognitivos os quais proporcionam união e complementação entre as habilidades humanas e o poder das tecnológicas gerando sistemas de interação ainda mais aprimorados e complexos que conta (fundamentalmente) com a gama de conhecimentos e experiências vividas pela humanidade as quais tão somente o homem pode fornecer.

 

Para além dos CPS da Indústria 4.0 os quais são sistemas que integram computação, comunicação e controle por meio de redes e processos físicos para representar a realidade do mundo físico em ambientes digitais realizando simulações, os Sistemas Ciber-Físicos Cognitivos da Indústria 5.0 possibilitam ao homem realizar experimentações virtuais particulares associadas às características individuais de cada um para a tomada de decisão pessoal.

 

De outro lado, embora a Indústria 4.0 caminhasse para a automação plena de praticamente todos os processos de produção, se constatou que as tecnologias não conseguiriam assumir todo o mercado de trabalho dos humanos; mas estavam transformando radicalmente as habilidades dos trabalhadores. Algo notório por si só, mas que por algum tempo orbitou na esfera do imaginário ou ficcional. Havia um receio intenso que as máquinas iriam substituir plenamente os humanos em todo mercado de trabalho.

 

Entretanto, a Indústria 5.0 chegou desmistificando a ingênua ideia de que os humanos seriam totalmente substituídos por robôs tecnológicos ou por máquinas “inteligentes” (mais inteligentes que o próprio homem). A Indústria 5.0 recoloca o ser humano no centro das operações de produção novamente.

 

Trabalha-se, atualmente, muito mais intensamente, para se usar as tecnologias tanto para melhorar a qualidade de vida das pessoas quanto para atender expectativas e vontades do consumidor de maneira efetiva e objetiva. Assim, muito mais que em tempos passados, a Ciborguização (incorporação de tecnologias no corpo humano combinada com o orgânico para gerar seres híbridos biológicos/máquinas), por exemplo, vem mudando drasticamente a qualidade da vida humana levando o homem a um novo patamar de evolução quando os sistemas cibernéticos (implantados fisicamente ou acessados virtualmente) são desenvolvidos para que todos os dados sobre o indivíduo possam ser comunicados (acessados) de forma síncrona, eficiente e em tempo real e o corpo físico possa a ser melhorado (potencializado) visando, de fato, atravessar a barreira entre a mente e a matéria.

 

Além da produção física de órteses e próteses e de outros dispositivos cibernéticos virtuais para tornar o homem mais forte, mais resistente, mais saudável, mais interativo, universal, começa-se a intensificar na Indústria 5.0 (com base no novo “mindset” (modelo mental) de interação entre tecnologia e ser humano), também, a concepção que às máquinas (às tecnologias em geral), não híbridas (apenas eletromecânicas), apenas “máquinas”, cabe realizar o trabalho chamado de “DDD” (“Dirty, Dangerous and Difficult”, significando “sujo, perigoso e difícil”) de forma que o trabalho de “estabelecer estratégias, fornecer supervisão inteligente e definir abordagens mais criativas durante o processo de produção” continue sendo função precípua do ser humano (como sempre deverá ser).

 

Tem-se percebido não ser possível permitir em qualquer que seja o processo de produção que o “artificial” possa escravizar o humano. Assim, as tecnologias devem ser pensadas para sempre melhorar a qualidade de vida das pessoas. As máquinas devem servir aos humanos. E neste sentido a Quinta Revolução Industrial é especial.

 

Pode-se pensar, entretanto, que a Quinta Revolução Industrial é o resultado de uma evolução contínua no campo tecnológico e da automação industrial que não poderia culminar em outra convergência a não ser focar no próprio ser humano. As máquinas devem produzir soluções humanas para os humanos.

 

Na Indústria 5.0 a produção cria ambientes colaborativos e flexíveis cada vez mais potentes de forma que máquinas e seres humanos trabalhem em conjunto para alcançar níveis de eficiência e produtividade de excelência colocando o ser humano no centro da operação. Na Indústria 5.0 é fortalecida a concepção que as máquinas devem contribuir efetivamente para o bem melhor dos homens.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

*Carlos Magno Corrêa Dias é professor, pesquisador, conselheiro consultivo do Conselho das Mil Cabeças da CNTU, conselheiro sênior do Conselho Paranaense de Cidadania Empresarial (CPCE) do Sistema Fiep, líder/fundador do Grupo de Pesquisa em Desenvolvimento Tecnológico e Científico em Engenharia e na Indústria (GPDTCEI) do CNPq, líder/fundador do Grupo de Pesquisa em Lógica e Filosofia da Ciência (GPLFC) do CNPq, personalidade empreendedora do Estado do Paraná pela Assembleia Legislativa do Estado do Paraná (Alep).

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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