GRCS

16/03/2010

O PIB de cientistas e engenheiros, artigo de Vinícius Torres

       Mais uma vez a imprensa repercute a constatação de que a formação qualificada em áreas estratégicas é crucial para o Brasil. O tema tem sido objeto de campanhas da FNE para ampliar interesse pelas engenharias.
       O número mais comemorado do PIB do trimestre final de 2009 foi o da veloz recuperação do investimento. Isto é, das despesas em fábricas, máquinas, instalações etc. Ainda assim, ano contra ano, 2009 ante 2008, a taxa de investimento caiu quase 10%.
       A parte da renda nacional destinada ao investimento, ao aumento da capacidade produtiva, desceu a 16,7%. Ou seja, praticamente a média medíocre de 1995 a 2006, quando então a economia brasileira começou a crescer mais rápido e com melhor qualidade, investindo mais. No trimestre da explosão da crise, o terceiro de 2008, a taxa de investimento chegara a 20%.
       Se perguntarmos a alguns economistas desprevenidos, sem planilhas de estimativas à mão, é possível que, na média, eles digam que o Brasil precisa investir pelo menos 25% do seu produto a fim de crescer a quase 5%, sem inflação e/ou deficit externo excessivo.
       Mas sabemos que uma determinada taxa de investimento pode permitir uma gama de taxas de crescimento do PIB, sem efeitos colaterais. O número dependerá de contextos e, provavelmente, da qualidade do investimento, sua dispersão por diversos setores da economia. Incertezas não faltam.
       O que faz falta mesmo é discussão sobre como incrementar a qualidade do investimento, sobre a criação de novos setores na economia brasileira, sobre a velocidade do aumento de produtividade. O mercadismo dirá que, mais ou menos livre, o capital encontrará o seu uso eficiente. É?
       É verdade que no Brasil o capital costuma ser cerceado pelo Estado (e com gosto, aliás). Mas é certo também que o capital desembestado é capaz de descalabros como os da crise de 2007-2009. Enfim, o setor privado, mais ou menos livre, jamais inventou sozinho um grande negócio, um novo setor, no Brasil. Irmão siamês dessa desambição nacional é o descaso com assuntos como a formação de cientistas e engenheiros.
      Não diplomamos engenheiros nem para atender a demanda de um par de anos de crescimento, quanto mais para ter massa crítica bastante para inovar. Outra questão relegada é a criação de empresas inovadoras. Há capital para elas? Incentivos? Técnicos bastantes?
       Em quase cada discurso dos ditadores chineses há uma menção a metas de formação de cientistas e engenheiros. Aqui, a discussão sobre universidade trata de invasão de reitoria, de polícia, eleição de burocratas, cotas, laboratórios com goteiras ou sem luz. Ou sobre quando tal ou qual faculdade horrível, segundo as notas desses provões, será fechada.
       A resposta é "nunca", e é de resto irrelevante. Importante é saber quando abriremos mais escolas excepcionais. Alguém aí se ocupa de saber quem será o ministro da Ciência? Em São Paulo, a fricção entre agroindústria e universidades razoáveis faz com que uma ou outra tese de doutoramento acabe por se tornar o capital inicial de novas empresas. Ou ajudam a expandir negócios de algumas outras, em especial no caso da cana e do álcool. No resto, de grande, há quase só casos históricos: Petrobras, Embraer, Embrapa.
       Difícil enxergar tais problemas. Nosso longo histórico de ignorância e anti-intelectualismo, além do vício maníaco do debate apenas macroeconômico, nos antolhou.

(Fonte: Vinícius Torres Freire , Folha de S. Paulo, 14/3)
Assista ao vídeo da FNE Mais Engenheiros para construir o Brasil
www.cntu.org.br

 

 


 

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