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31/03/2014

Zaida Diniz coleciona realizações pelos nutricionistas

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Após conversar com Zaida Maria de Albuquerque Melo Diniz, é difícil destacar um único trabalho, um único ato. Aos 79 anos, a pernambucana, nascida em Olinda, acumula uma larga experiência na criação de diversas entidades, como conselhos de classe, o sindicato em seu estado, as duas federações da categoria e da própria Confederação Nacional dos Trabalhadores Liberais Universitários Regulamentados (CNTU).

Atuou como juíza classista no Tribunal Regional do Trabalho (TRT) e implantou sistemas de alimentação em diversos locais. Além dos hospitais, com pacientes de perfis diversos –doentes mentais, doenças infectocontagiosas, venéreas , hanseníase, entre outras – contribuiu para a implantação no setor público, em sistemas nacionais, no setor privado.

Neste mês de março, quando se comemora o Dia Internacional da Mulher, a dirigente sindical concedeu uma entrevista ao Portal da CNTU onde recordou momentos marcantes da profissão, predominantemente feminina, como o início da carreira, quando foi preciso se impor duplamente: como nutricionista, uma profissão que começava a surgir na década de 1970, e como mulher. Também têm destaque nessa trajetória os cinco filhos muito bem criados por ela sozinha, que já lhe deram 11 netos.

Zaida pertenceu à primeira turma do curso de Nutrição do Instituto de Fisiologia e Nutrição, da Universidade Federal de Pernambuco, que se formou em 1959. Mesmo aposentada, ela continua participando ativamente das discussões da categoria, como delegada sindical do Sindicato dos Nutricionistas de Pernambuco e como diretora administrativa da Federação Interestadual dos Nutricionistas (Febran).

Como foi o seu ingresso na profissão?
Zaida Diniz –
O noivo de uma vizinha minha, que estudava Medicina, me avisou que abriria a primeira turma da faculdade de Nutrição, no Instituto de Fisiologia e Nutrição, da Universidade Federal de Pernambuco. Naquele tempo só havia o curso em São Paulo e Rio e Janeiro. Eu, aos 20 anos, trabalhava como professora. Mas sempre gostei da área de saúde, porque meu pai era médico e dentista. Então, acabei fazendo vestibular e passei no curso.

O campo da Nutrição ainda tem mais mulheres do que homens atuando?
Diniz –
Sim, bem mais mulheres, cerca de 90% da categoria. Na minha turma do curso de nutrição eram 29 mulheres e um homem.

A senhora enfrentou dificuldades no trabalho por ser mulher?
Diniz –
Casei em 1960. Mas, em 1972, quando eu estava grávida de três meses do meu quinto filho, meu marido saiu de casa para ir trabalhar em outro estado e não voltou mais. Foi então que minha situação financeira ficou apertada e precisei arrumar um segundo emprego porque nessa altura meu pai já estava com idade e muito doente. Eu tinha que trabalhar pela manhã no Estado e à tarde eu trabalha em clínicas, em fábricas.

Depois eu tive que viajar para várias cidades do nordeste em um trabalho que assumi para implantar o sistema Ticket de Refeições [os restaurantes credenciados eram auxiliados na preparação de cardápios para torná-los mais atraentes]. Eles eram muito pequenos ainda, mas era o único jeito para sustentar cinco filhos, sozinha, e manter gente dentro de casa para ajudar a cuidar das crianças... Uma luta! Mas nunca deixei de estar próxima. As minhas duas filhas mais velhas me ajudaram muito a criar os menores, ajudando nas lições. Mas, quando chegava em casa, mais tarde, eu ia revisar as tarefas.

Entre os trabalhos que realizou, qual a senhora destacaria?
Diniz –
Fui convidada a implantar um sistema de refeição em uma usina de açúcar. Entre os cortadores de cana havia um índice muito grande de acidentes de trabalho porque eles não se alimentavam adequadamente. Mas, para isso, visitei os canaviais, conversei com os trabalhadores e vi de perto qual era a situação daquela gente, qual era o volume de trabalho. Era uma função absolutamente braçal e muitos deles não tinham o que comer em casa. Chegavam pra trabalhar de barriga vazia e debaixo daquele sol, um calor! Então, preparamos um cardápio balanceado, de acordo com o tipo de atividade que eles exerciam, com café da manhã, almoço e jantar para os diversos turnos.  E quem almoçava, antes de deixar a usina, também jantava.

Se fosse um homem no seu lugar, teria sido mais fácil?
Diniz –
Lembrando alguns momentos da minha trajetória, agora, digo que foi muito difícil da nossa profissão se impor como categoria. Porque insistiam em dizer que nosso trabalho era de cozinheira. Principalmente no nordeste, onde a cultura é mais machista. Nós que fomos da linha de frente, as primeiras a exercerem a função, tivemos que nos impor. Eu quase sempre trabalhei dentro de hospital. Eu era moça, muito jovem e precisei me impor duplamente: como nutricionista e como mulher. E fui sim bastante respeitada. Os médicos no iniciam tinham certa resistência em relação às nossas orientações, mas depois foram cedendo. Foi difícil. Foi preciso muita batalha. Mas tenho muito orgulho de ser nutricionista. Mas, o primeiro orgulho meu é de ser mãe. Ser mãe, ser mulher, ser profissional e, agora, ser avó, que é a coisa mais gostosa do mundo.

A senhora parece ter conciliado muito bem essas duas funções. Além de desempenhar muito bem seu trabalho como nutricionista, acabou indo para o campo político e lutou pela criação de algumas entidades representativas da categoria.
Diniz –
Em março de 1978, me tornei a presidente da Associação Pernambucana de Nutrição. E logo que assumi recebi uma correspondência informando sobre a existência de um projeto de lei que tramitava na Câmara dos Deputados, que estabelecia a criação dos conselhos regionais e o conselho federal. Por coincidência, haveria naquela mesma ocasião, em Brasília, um Congresso de Saúde na Câmara. Eu e Claudete Nascimento, então vice-presidente da Associação, fomos parar no gabinete do presidente da Câmara, que era Marco Antonio Maciel, com quem já tínhamos amizade de longa data, lá no Recife. Mostramos a ele o projeto de lei sobre os conselhos e explicamos a ele a necessidade da criação das entidades. Era dia 16 de agosto de 1978. No dia 31 de agosto do mesmo ano, o ministro do Trabalho daquele tempo anunciou, em um congresso, sobre a assinatura dos decretos de criação dos conselhos regionais e federal de Nutrição.

E depois disso ainda fundou o sindicato, a federação e a CNTU?
Diniz –
Sim. Em 1984, a Associação Profissional dos Nutricionistas a qual eu já não mais presidia. Porém, aceitando um convite de algumas nutricionistas, assumi a tarefa de transformar a associação em sindicato, que nasceu no dia 4 de março de 1986. Em outubro de 1989, criamos a Federação Nacional dos Nutricionistas (FNN), que reunia, além de Pernambuco, São Paulo, Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro e Alagoas. Em 2011, houve um desentendimento na Federação e nós de Pernambuco e o sindicato de São Paulo, decidimos nos desfiliar. O caminho natural acabou culminando na criação de uma nova entidade: a Federação Interestadual dos Nutricionistas, a Febran, que reúne seis sindicatos de seis estados  – PE, SP, MS, PA, AL e BA.

E como a senhora vê a participação das mulheres na vida política?
Diniz –
Ainda temos poucas mulheres atuantes nos cargos políticos. Temos que ter mais mulheres nos representando. Mas não é só pra assumir o cargo e ficar lá sentada assinando papel. Tem que ser atuante, como é a deputada federal Luciana Santos (PCdoB-PE), que foi prefeita de minha cidade natal.

E no movimento sindical?
Diniz –
Mas, na parte sindical já tem muitas mulheres que vêm se destacando e conquistando seus espaços. Em Pernambuco, passei 30 anos à frente das entidades representativas da minha categoria.  E, em especial, nos encontros da Federação e da CNTU existe muito  apoio, muita igualdade no tratamento. Na Febran, inclusive, são três presidentes homens, dos sindicatos de Alagoas, da Bahia e de São Paulo, e os outros três sindicatos são presididos por mulheres. Em nossa categoria, os homens atuam mais com ensino e pesquisa.  Já na CNTU foi criado um Coletivo de Mulheres para debater as políticas para mulheres e que é coordenado por uma batalhadora, que é Gilda Almeida, vice-presidente da confederação.

 

Deborah Moreira – Imprensa SEESP
Entrevista publicada originalmente no site da CNTU











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