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24/06/2020

Entregadores de aplicativos marcam greve nacional dia 1º de julho

Com agências*

Os entregadores por aplicativo estão trabalhando mais horas e ganhando cada vez menos, desde o início da pandemia do novo coronavírus, causador da Covid-19. É o que mostra uma pesquisa feita por sete integrantes da Rede de Estudos e Monitoramento da Reforma Trabalhista (Remir Trabalho) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Para chamar a atenção sobre a precarização do trabalho dessa categoria que cresce a cada dia, está marcada para o dia 1º de julho uma greve nacional dos entregadores.

 

 

Foto: Marcelo Justo / Agência Senado

entregador Marcelo Justo Agencia Senado

A pesquisa da Unicamp constatou uma piora muito significativa nas condições de trabalho, no aumento da jornada e queda na remuneração. Ainda tem o fato de a grande maioria dos trabalhadores arcar  com os custos da prevenção à pandemia, já que as empresas estavam oferecendo aos trabalhadores apenas informações sobre procedimentos sanitários, mas nenhum tipo de subsídio material para proteção.


Sobre remuneração, o levantamento online mostra que 68,9% dos entregadores tiveram queda de ganhos durante a pandemia. Os que ganhavam em torno de um salário mínimo (R$ 1.045,00) antes eram 17%. Agora essa proporção dobrou (34%). Ou seja, 1/3 desses trabalhadores ganham até um salário mínimo por mês.

Antes da crise do coronavírus, 51% dos entregadores afirmavam ganhar acima de dois salários mínimos (R$ 2.090,00). Hoje, esse índice baixou para 26,7%. Nove por cento afirmaram que ganhavam acima de quatro salários mínimos (R$ 4.180,00), contra 3% hoje.

“A alimentação é a coisa que mais dói, ter que trabalhar com fome, carregando comida nas costas.” O depoimento é de Paulo Lima, conhecido como Galo, motociclista que trabalhava para aplicativos de entrega – delivery – e que, desde março último, mobiliza a categoria para reivindicar melhores condições laborais. Fruto da organização da categoria, surgiu esse movimento mais expressivo de paralisação nacional.


Ludmila Costhek Abílio, pesquisadora do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho da Unicamp, uma das autoras da pesquisa que ouviu 252 trabalhadores do setor em 26 cidades entre os dias 13 e 20 de abril, conta que quanto mais alta a remuneração, maior é a queda proporcionalmente. "Conforme fomos analisando os dados, começou uma série de manifestações dos entregadores para a realização de uma paralisação, o que confirma fortemente todos os nossos resultados”, diz.

O aumento da carga horária também foi detectado pelos pesquisadores da Unicamp. Sessenta e dois por cento dos entregadores afirmaram trabalhar mais de nove horas por dia durante a pandemia. É neste contexto de sobrecarga na jornada que se encontra Robinho, que trabalha das 8h às 22h para levar para casa cerca de R$ 2.500,00 por mês, já descontados os gastos com combustível e manutenção da sua moto.


Ele, que prefere não ser identificado por temer represálias das empresas, diz que foi bloqueado pelo IFood há quatro meses “por mau uso do aplicativo”, mas acredita que o real motivo foi por ter circulado um vídeo em que pede melhores condições de trabalho.


“A gente não pode nem se defender, porque as empresas não disponibilizam um número de telefone pra gente, só tem um chat, que nada resolve. Já tive clientes que cancelaram o pedido, e a gente fica com o prejuízo”, reclama.


Aos 39 anos, casado, pai de quatro filhas de 19, 13, nove e seis anos, ele que é gasista (instala e converte aparelhos a gás) encontrou na profissão de entregador uma forma de sustentar a família há dois anos, já que não encontra trabalho fixo e com carteira assinada.


Robinho percorre as ruas da capital de São Paulo com medo de ser contaminado pela Covid-19, por não ter nenhuma assistência de saúde das empresas Uber e Rappi, para as quais trabalha: ”Eu tenho uma filha pequena e sei dos riscos que corro, mas tenho de levar o pão e o leite pra casa. Quando chego, deixo minha roupa na laje, uso máscara e álcool em gel, mas as empresas deveriam oferecer equipamentos de segurança decentes, não só álcool em gel e uma luva ‘sem vergonha’ como fazem.”


Foto: Roberto Parizotti / Brasil de Fato

entregadores Roberto Parizotti



Entre as reivindicações dos trabalhadores estão assistência médica, alimentar e aumento no valor das corridas, com melhoria da taxa mínima. Também exigem seguro de vida, de acidentes e um vale para a compra de máscaras, luvas, álcool em gel e outros equipamentos de proteção.

 

“Há três meses fraturei um dedo da mão num acidente, mesmo assim continuei trabalhando pra levar o sustento pra casa. Fiquei com o dedo torto, porque não tive nenhuma assistência médica das empresas”, conta.


Além da falta de assistência médica, o valor do pagamento, em plena pandemia, está caindo. Segundo Robinho, as empresas tiveram aumento de 15% no número de pedidos por entrega, mas não repassam nenhum reajuste. Ao contrário, os valores das corridas têm caído quase diariamente. Já não existe preço fixo.

“As empresas fazem propaganda dizendo que estão apoiando a gente, mas não repassam um centavo. Cobram R$ 1,00 no valor de um prato para os clientes e não oferecem um prato de comida, nem um vale pra quem está na rua. É uma incoerência, a gente entrega comida e não tem o que comer“, critica o entregador.


MPT faz campanha em prol dos entregadores de aplicativos

Baseado na pesquisa da Unicamp e nas denúncias que recebe diariamente de precarização do trabalho da categoria, o Ministério Público do Trabalho de São Paulo (MPT/SP), com apoio da própria universidade e do Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA/ONU), lançou uma campanha em vídeo, de conscientização da população sobre os riscos que os entregadores por aplicativo correm de serem contaminados e contaminarem outras pessoas pela Covid-19.

O projeto, que veiculou três de cinco vídeos, reúne relatos de ciclistas e motoqueiros que passaram a trabalhar com os aplicativos depois de perderem o emprego com carteira assinada. Eles falam do medo de contrair Covid-19 e contam a história de familiares com quem dividem moradia e que pertencem aos grupos de risco do novo coronavírus.

“Percebemos a necessidade de mostrar à sociedade que as empresas por aplicativos não atendem aos objetivos de sustentabilidade preconizados pela ONU, que tem em sua agenda o trabalho decente com crescimento econômico”, afirma Carolina De Prá Camporez Buarque, procuradora do trabalho e vice-coordenadora nacional de Combate às Fraudes nas Relações de Trabalho do MPT.

A atuação do MPT vai além. O órgão ajuizou ações na Justiça contra todas as maiores empresas por aplicativo - UberX, Rappi, Ifood, LalaMove Brasil, entre outras -, pela precarização do trabalho dos entregadores. Outras ações contra empresas menores estão em fase de investigação e posterior ajuizamento na Justiça. As empresas ajuizadas recorreram com liminares, e a próxima fase será ade realização de audiências de conciliação.

“A investigação do MPT demonstrou que essas empresas não cumprem as condições de saúde e segurança, há trabalhadores adoecendo por causa do aumento excessivo da demanda. Sempre é bom lembrar que expor esses trabalhadores ao contágio expõe toda a população que, cada vez mais, requisita esse tipo de trabalho por entrega”, diz Buarque.

A pandemia jogou luz sobre o pouco caso dessas empresas com a segurança dos seus trabalhadores. Não há local para higienização, treinamento e suporte econômico em caso de contaminação.

“As empresas atuam onde tem um nicho e muitas vezes atendem sem ter um profissional sequer na sua área. E a gente não consegue ter o número de trabalhadores nesta situação, porque as empresas não fornecem e, consequentemente, por falta de controle, esses trabalhadores acabam desorganizados porque não são enxergados”, conclui a procuradora.


Como denunciar

O Ministério Público do Trabalho tem uma ferramenta para denúncias contra empresas de entregas por aplicativo. Quem denunciar pode pedir sigilo dos seus dados. É só entrar no site https://mpt.mp.br/ e clicar no ícone “Denuncie”.

 

Abaixo, vídeo do Canal Meteoro sobre a organização da categoria:

 




* Com Agência CUT e Brasil de Fato



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