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08/04/2020

Engenharia para conter a pandemia e salvar vidas

Deborah Moreira/Comunicação SEESP

Desenvolvimento de respiradores, equipamentos de proteção individual, novos aplicativos para comunicação, soluções de logística para abastecimento e distribuição de produtos e serviços essenciais, adequações em cadeias de produção, construções hospitalares, montagem de estruturas de hospitais de campanha e até desenvolvimento de robôs. Por trás de todas as ações para conter a pandemia da Covid-19 está a engenharia.

 

Imagem: Freepik

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Como explica José Roberto Cardoso, professor-doutor do Departamento de Engenharia de Energia e Automação Elétricas da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (Poli-USP) e coordenador do Conselho Tecnológico do SEESP, contudo, hoje há muito dependência da indústria estrangeira, dado o desmantelamento em âmbito nacional nos últimos tempos. "Agora, só a engenharia para recriar tudo o que foi feito no passado", enfatiza.

Essa surge com força na universidade pública, lembra Cardoso, que frisa: “Uma quantidade enorme de pesquisadores estão debruçados neste momento sobre esse problema [a pandemia]. A Poli desenvolveu um respirador, mas outras instituições também fizeram”, diz, referindo-se ao projeto da Escola Politécnica da USP que consiste no desenvolvimento de um ventilador pulmonar mecânico de baixo custo, utilizando peças disponíveis no mercado.

ventilador pulmonar poli peqVentilador pulmonar da Poli/Arquivo pessoalA ideia do engenheiro Raul Gonzalez Lima, coordenador de um grupo de cerca de 40 pessoas envolvidas na iniciativa, é disponibilizá-lo para todas as empresas autorizadas a fabricarem o equipamento pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), cuja portaria relativa ao tema exige que as companhias abrangidas tenham certificação para manufatura de equipamentos médicos, odontológicos ou hospitalares.

Segundo matéria publicada no Jornal da USP em 27 de março último, enquanto um respirador convencional no mercado tem preço mínimo de cerca de R$ 15 mil, o projeto da Poli tem custo em torno de R$ 1 mil. A expectativa é que já possa ser viabilizado a partir de meados deste mês de abril.

“A proposta de termos ventiladores pulmonares de baixo custo visa prover as instituições de saúde com um número elevado de equipamentos para essa pandemia. O objetivo é ter um modelo de fabricação rápida, confiável e que possa ser feito em grande quantidade”, observa a professora Liedi Bernucci, diretora da Poli-USP, que completa: “A ideia não é substituir o parque de indústrias existentes, mas sim [garantir] atendimento rápido à população.”

Outra característica desse projeto, como lembra Cardoso, é a rapidez na viabilidade do equipamento e o conceito open source. “O professor Raul Gonzales se envolveu em projetar esse respirador buscando informações diretamente nas indústrias para saber quais as peças que estão sobrando, que estão mais acessíveis, levando em conta critérios logísticos. Dessa forma, qualquer um poderá reproduzir o que ele fez, já que não será patenteado”, disse ele, que colabora com um dos projetos mais inovadores da Poli-USP, o Delivery Robô, para atuar em diversas situações, desde entrega de comida até de remédios nas farmácias hospitalares.

Inovação no campus

No Laboratório de Robótica Móvel do Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação da Escola de Engenharia de São Carlos (Eesc) da USP  também está sendo desenvolvido um robô autônomo com o objetivo de dar suporte na distribuição de remédios e alimentos aos pacientes em hospitais. O diretor da Eesc, professor Edson Wendland, faz questão de ressaltar o papel inovador das universidades públicas e institutos de pesquisa, fundamentais para o desenvolvimento científico, tecnológico e social do País. “Nosso modelo de geração de conhecimento é fortemente concentrado nas pesquisas desenvolvidas em programas de pós-graduação, sediados, principalmente, nas universidades públicas.”

robo sao carlosPara ele, épocas de crise, como a atual, são o momento de a engenharia contribuir com ideias criativas para a geração de respostas rápidas que farão a diferença. Afinal, continua, “a engenharia é a arte de identificar problemas, propor e desenvolver soluções para a preservação e melhoria da qualidade de vida da sociedade”.

Um exemplo recente citado por Wendland foi o surto de microcefalia em recém-nascidos associado à epidemia de zika, que assolou o País, foi entendida e controlada dentro dos centros de pesquisa universitários.

União de esforços
A diretora da Poli lembra que cabe à universidade “unir diferentes competências complementares e de alto nível em torno de um objetivo focado e resolver em curto espaço de tempo um problema tecnológico”.

Liedi Bernucci ressalta que para isso ocorrer é fundamental preservar as bolsas de pesquisa. “Não somente porque não teremos mais pessoas formadas para o desenvolvimento, mas também serão desarticulados os grupos de pesquisas, gerando descontinuidades muitas vezes irrecuperáveis. Com isso, a pesquisa será desarticulada, bem como a liberdade de ação. Ficaremos dependentes de pesquisas externas.”

Wendland enfatiza que a engenharia tem apresentado soluções para as diversas situações demandadas na crise atual. No entanto, por se tratarem, em geral, de resultados de pesquisa em laboratório, a escala de produção é pequena, insuficiente para atender demanda nacional.

“Neste momento, a união e solidariedade são fundamentais para o necessário aumento de escala, a partir de um trabalho colaborativo entre todos os setores da sociedade. Mesmo a definição de políticas públicas, como o isolamento social, resulta da contribuição das universidades, que concentram os maiores especialistas do País em diferentes áreas do conhecimento”, complementa o diretor da Eesc, que destaca: “Não estávamos preparados para essa situação absolutamente adversa. Teremos de ser criativos, flexíveis, determinados e incansáveis para entregar o resultado esperado pela sociedade.”

Cardoso também joga luz sobre a importância da união de esforços neste momento, principalmente entre medicina e engenharia. “As soluções para os diversos problemas, como a construção de hospitais em tempo recorde, vêm da engenharia. Por trás de uma obra de montagem industrial, como dos hospitais de campanha, tem toda a parte elétrica, de distribuição de ar-condicionado, dos compressores, a instalação de salas de UTI. Tudo isso exige engenharia e de forma rápida, funcional e baixo custo.”


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Comentários   

# Segurança/Indus trial MecânicoAntonio Luis Rossi N 10-04-2020 09:21
Bom artigo. Demonstra que as universidades sérias continuam a colaborar com a sociedade e que recursos para pesquisas, desde que bem administrados, devem ser sempre mantidos.
# engenheiro eletricistaEMMANUEL BRITTO f. 09-04-2020 13:17
Os engenheiros são fundamentais em praticamente todas as atividades. Sãos eletricistas na geração, transmissão e distribuição de energia elétrica, os mecânicos e químicos no tratamento de água, os civis nas construções, etc.
Sem engenheiros o país para.

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