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07/11/2017

Indústria 4.0: riscos e oportunidades da digitalização

Jornal Engenheiro*

A quarta revolução industrial, ou a indústria 4.0, é irreversível, conforme aponta o representante da fundação alemã Friedrich Ebert Stiftung (FES), Thomas Manz. A instituição privada, que promove pesquisas e estudos sociais, realizou, juntamente com o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), em 10 de outubro último, na capital paulista, o seminário “Política de inovação na era da digitalização: desafios para as relações de trabalho”.

Como destacou o coordenador de educação e comunicação do Dieese, Fausto Augusto Júnior, o movimento sindical brasileiro deve entrar nesse debate devidamente preparado. “A nossa tarefa é contribuir com essa reflexão, mostrando como as mudanças tecnológicas e digitais vão afetar o mundo do trabalho.”

O professor e pesquisador Anderson Luis Szejka, da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR), coordenador do curso de especialização em Engenharia e Gestão da Indústria 4.0, explica que a chamada quarta revolução industrial é ainda apenas um conceito que envolve a conectividade e a interação entre os domínios físicos, digitais e biológicos, que surgiu em 2011 na tradicional feira de Hannover, na Alemanha.

Segundo ele, esta era está inteiramente relacionada à engenharia, pois prevê a aplicação e utilização de robôs autônomos, manufatura aditiva, internet das coisas (IoT) e computação em nuvem. Tal concepção, para Manz, traz riscos e oportunidades: “Assim como pode facilitar o trabalho, ela pode significar a perda de emprego. Se antes a automatização substituiu a atividade de menos qualidade, repetitiva e perigosa, a digitalização ameaça os trabalhos de boa formação e qualidade.” Raquel Duaibs, professora na Faculdade de Tecnologia de São Paulo (Fatec), que tem se dedicado à pesquisa principalmente sobre indústria 4.0, internacionalização produtiva, sindicalismo e cooperativismo, reforça que com o avanço da inteligência artificial, quase todos os trabalhos poderão ser facilmente eliminados. “De metalúrgicos a vendedores, de professores a contadores, todos podem ser substituídos por máquinas, robôs e drones.” Para o professor da PUC paranaense, assim como algumas funções deixarão de existir, outras poderão emergir “no intuito de desenvolver e dar suporte a esses novos conceitos da indústria inteligente e conectada”.

Consequências
Duaibs avalia que ainda é cedo para dizer quais serão as reais consequências da indústria 4.0 e como elas ocorrerão em cada país. Mas em um primeiro momento, aponta, a ideia é eliminar custos, principalmente aqueles relacionados à força de trabalho humana. Por isso, problematiza: “Como o processo de eliminação dos empregos já está ocorrendo, o grande desafio para o mundo do trabalho será se reinventar de modo que a sociedade consiga criar novas formas de ocupação ou de geração de renda em um contexto sem empregos.”

Já o professor Daniel Buhr, da Universidade de Tübingen, na Alemanha, no seminário do dia 10, disse ver com cautela a empolgação com a digitalização associada à indústria e defendeu a inserção qualificada do movimento sindical e da sociedade nessa discussão para que junto com essas mudanças seja garantido e ampliado o Estado de bem-estar social, com a produção de políticas públicas que assegurem, por exemplo, a inclusão digital de qualidade de todas as pessoas, a educação e direitos sociais básicos. “Não vamos resolver tudo apenas usando a tecnologia, a questão social é do cidadão”, vaticinou. Por isso, a professora da Fatec vê com apreensão as pessoas difundindo os impactos positivos da revolução tecnológica, sem que haja o debate das consequências negativas.

Duaibs sugere que a ideia de “paraíso laboral” vendida junto com a indústria 4.0 está longe de ser realidade, “especialmente nos países que não lideram a corrida pelo desenvolvimento tecnológico de ponta, como é o caso do Brasil e da América Latina de uma forma geral”. Para ela, em um cenário como o brasileiro, certamente as pessoas trabalharão menos, “mas não porque existe uma estrutura social que viabilize a redução da jornada de trabalho sem a redução dos salários, e sim porque teremos uma massa de desempregados ou de subempregados muito maior do que a que existe hoje”.

José Silvestre, técnico do Dieese, durante o seminário, lembrou que tal discussão se dá no momento em que a legislação trabalhista passa por um sério desmonte e diante de um profundo processo de desindustrialização no País. “O debate está posto, e essa pauta deve estar devidamente incorporada ao dia a dia sindical”, advertiu, reforçando que a revolução tecnológica e digital poupa esforço, mas também mão de obra.

Apesar dos percalços, Duaibs acredita que a “indústria 4.0 pode, verdadeiramente, ser uma grande aliada de uma sociedade melhor e mais justa, pois é capaz de proporcionar aos indivíduos mais tempo para se dedicarem à família e às realizações pessoais”. Como continua ela, “isso vai depender de como cada país está se reestruturando para receber esse novo modelo de produção”. Nesse sentido, ganha força a proposta da renda básica universal, que prevê o pagamento pelo Estado de um valor mensal para todos os cidadãos, com o intuito de garantir suas necessidades básicas. “Essa ideia está sendo discutida e colocada em prática com muita seriedade em alguns países, como a Finlândia, o Canadá e a Holanda. Alguns empresários do setor de tecnologia também a defendem, como Mark Zuckerberg, Elon Musk e Stewart Butterfield.” 

* Por Rosângela Ribeiro Gil. Edição 186/Novembro de 2017

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