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Angústias financeiras

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Luiz Gonzaga Belluzzo

 

A rápida queda do banco regional do setor de tecnologia derrubou os costumes no Vale do Silício. Investidores, que normalmente repreendem os reguladores por sufocar a inovação, voltaram-se para Washington em sua hora de necessidade. Na última semana de abril, as ações do First Republic Bank continuavam a cair, enquanto reguladores em Washington e financiadores de Wall Street lutavam para bolar um plano para estabilizar o banco em dificuldades.

 

Quem disputa o jogo da concorrência nos mercados financeiros está sempre “especulando”, obrigado a buscar, em condições de incerteza, o rendimento máximo, sob pena de ser desbancado pelo rival da esquina. Ligada a ignição da ganância infecciosa, os tripulantes não podem brecar o expresso da alegria, até o comboio descarrilar.

 

O entusiasmo quase generalizado com a liberalização e a desregulamentação dos mercados financeiros deu lugar à recriminação e à busca de culpados. Os analistas mais responsáveis e menos comprometidos com o mundo dos negócios procuraram ressaltar o papel desempenhado pelos bancos e empresas privadas, sempre envolvidos, dizem, em surtos “especulativos” com ativos reais e financeiros.

 

Quando ouço e leio proclamações condenatórias de gregos e troianos aos “especuladores” dos mercados, não resisto a um sorriso irônico, aquele que assoma nos cantos dos lábios.

 

Nos anos 1920, John Maynard Keynes operou com perdas e ganhos nos mercados futuros e opções de commodities. Nesse período, estabeleceu uma distinção entre jogo e especulação. Jogo aplica-se a situações em que o risco não é calculável ou não distribuído normalmente, como o da roleta. Especulação aplica-se a situações em que o risco é calculável e normalmente distribuído, como o seguro de vida. O critério de divisão está na quantidade de conhecimento possuída pelo agente em ambos os casos: “A posse de conhecimento superior [é] a distinção vital entre o especulador e o jogador.”

 

No correr dos anos, Keynes abandonou sua convicção acerca do conhecimento superior dos “especuladores” e consolidou suas convicções a respeito da natureza dos mercados de avaliação da riqueza financeira. “O investidor profissional é forçado a preocupar-se com a antecipação das variações iminentes, nas notícias ou no clima geral, do tipo das que, pela experiência, são as que exercem maior influência sobre a psicologia de massas do mercado.” Esse é o resultado inevitável dos mercados de investimento organizados em torno da chamada “liquidez”.

 

A sucessão de quebras e intervenções do Federal Reserve e do Tesouro nos Estados Unidos deixou de calças na mão os arrogantes e presunçosos que proclamavam e ainda proclamam a “eficiência dos mercados”.

 

O assim chamado megaespeculador George Soros desconfia das teorias que informam as decisões dos protagonistas dos mercados financeiros. Para ele, as autoridades e os demais participantes do jogo de avaliação da riqueza apoiam-se em uma falsa interpretação sobre o funcionamento dos mercados. Imaginam que, “eficientes”, esses mercados tendem ao equilíbrio, e os desvios são aleatórios. Essa falsa concepção permitiu a elaboração dos produtos estruturados e produziu uma crise muito mais abrangente do que uma simples bolha imobiliária americana.

 

Bolhas de ativos são endêmicas. As autoridades reguladoras têm obrigação de lidar com elas enquanto é tempo. Não é o caso de se utilizar a política monetária, ou seja, de tentar furar a bolha com aumento do juro. Trata-se de operar através do canal do crédito. Soros, como Hyman Minsky [economista americano], assegura que os mercados financeiros lidam com promessas e avaliações sobre o curso futuro dos ativos e dos títulos de dívida. Estão, portanto, sujeitos a gerar endogenamente euforia e pânico. O Banco Central deve estar sempre pronto para modificar as exigências de reservas e de capital conforme a toada do ciclo econômico.

 


Luiz Gonzaga Belluzzo é economista, professor emérito da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e da Universidade Federal de Goiás. É autor de vários livros, entre eles “O tempo de Keynes nos tempos do capitalismo” (São Paulo: Editora Contracorrente, 2016)

 

 

Imagem: Freepik/Arte - Eliel Almeida / Foto Luiz Gonzaga Belluzzo: Antonio Scarpinetti/Comunicação Unicamp

 

 

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