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MauroLourenco editadoQuem é do ramo sabe que, nos últimos anos, o Brasil vem importando cada vez mais produtos manufaturados, o que tem contribuído para o processo de desindustrialização, que significa o sucateamento ou destruição do parque industriall. Afinal, se a indústria local não fabrica produtos a preços competitivos ou fecha as portas, o mercado é obrigado a buscar lá fora o que precisa.

Obviamente, essa perda de competitividade do manufaturado nacional é reflexo dos elevados custos que cercam as operações de comércio exterior – mais de 30% dos custos das exportações são provocados por uma infraestrutura rodoferroviária deficiente e uma incipiente infraestrutura hidroviária.

Por exemplo, se uma indústria próxima à faixa litorânea está muito distante do porto de embarque, uma alternativa seria recorrer à cabotagem, mas neste modal os problemas não são menores. E o mesmo se dá se o importador precisa levar o seu produto de um hub portnacional para um porto mais próximo de seu galpão. Basta ver que no combustível dos navios de longo curso não incide Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Prestação de Serviços (ICMS), mas no bunker das embarcações que se limitam às águas brasileiras incide toda a carga de impostos, inclusive ICMS. E esse preço tem de ser adicionado ao custo final da operação.

Infelizmente, a situação tende a piorar, pois não se vê um plano amplo destinado a inserir o País no mercado internacional, além de iniciativas isoladas de promoção da marca Brasil em algumas feiras e exposições que quase sempre são empreendidas por associações de exportadores de determinado segmento, ainda que com o apoio da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex-Brasil). Diz-se isto porque, até agora, não se sabe de nenhuma obra para a construção de plataformas offshore capazes de receber navios com capacidade para 22 mil TEUs (unidade equivalente a um contêiner de 20 pés).

No entanto, os grandes armadores, em busca de melhores índices de competitividade, vêm construindo navios cada vez maiores, além de formar joint ventures internacionais que permitem o transporte de cargas de um número cada vez maior de armadores. E o Brasil não dispõe de portos preparados para receber esses navios, o que significa que pode ser excluído de muitas rotas.

Apesar de todos os problemas causados pelo uso excessivo do modal rodoviário – mais de 93% das cargas no Estado de São Paulo viajam em cima de caminhões –, o Porto de Santos ainda é o que oferece as melhores condições de escoamento. Acontece que o seu canal de navegação só suporta cargueiros de até 10 mil TEUs, em época de maré alta. Aprofundar seu calado de 15 para 17 metros é um risco a ser ainda avaliado porque pode comprometer estruturas antigas construídas à beira do canal do estuário e até causar desastres ecológicos. E, ainda assim, será só para receber cargueiros de até 14 mil TEUs. Continuar a negar a saída offshore é seguir na contramão do mundo.

 

 

* Mauro Lourenço Dias, engenheiro eletrônico, é vice-presidente da Fiorde Logística Internacional, de São Paulo-SP, e professor de pós-graduação em Transportes e Logística no Departamento de Engenharia Civil da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp)

 

 

 

 

 

 

 

Na tarde de ontem (12), teve início na sede do SEESP, em São Paulo, o seminário “Água e energia – Enfrentar a crise e buscar o desenvolvimento”. Realizada pela Federação Nacional dos Engenheiros (FNE), a atividade inaugurou a série de eventos que nortearão a próxima etapa do projeto “Cresce Brasil + Engenharia + Desenvolvimento”. Lançado pela entidade nacional em 2006 e atualizado desde então, esse propugna por uma plataforma de desenvolvimento sustentável ao País. Neste ano, o mote é “Não à recessão”. A iniciativa reuniu, entre outros, profissionais da categoria, dirigentes da FNE e de Sindicatos dos Engenheiros de diversos estados a ela filiados.

 

Foto: Beatriz Arruda/Imprensa SEESP
seminario energia bia arruda 
Pinheiro, presidente da FNE, abre os trabalhos do seminário sobre água e energia    
 
À abertura do seminário, que segue até o fim da tarde desta sexta-feira (13), o presidente da FNE – que também está à frente do SEESP –, Murilo Celso de Campos Pinheiro, destacou que premissa decisiva do projeto dos engenheiros é que “o Brasil precisa, pode e deve crescer a taxas anuais significativas e que todas as eventuais dificuldades de um processo de crescimento acelerado não podem servir de suporte para concepções negativas, entre as quais as teses de um pequeno PIB potencial, de um inevitável risco inflacionário intrínseco e de uma incapacidade estrutural de nosso setor produtivo”. Assim, frisou que a busca tem sido por soluções factíveis, às quais os engenheiros podem contribuir substancialmente. Nesse contexto, enfatizou a necessidade de se combater a recessão, mantendo a meta do desenvolvimento, “com geração de emprego e renda”. Pois, na visão da FNE, “o único caminho viável para a superação das desigualdades sociais em nosso país e para a melhoria significativa do padrão de vida dos brasileiros é o da expansão econômica”.  
 
Sobre água e energia, o presidente da federação concluiu: “A melhor contribuição que os engenheiros podem dar para o correto tratamento desses temas é a do primado da ciência, da técnica e do interesse nacional.” (confira o discurso na íntegra). A abertura contou com a participação do vereador por São Paulo José Police Neto (PSD), dos engenheiros Marcos Peres (especialista em energia elétrica), João Antonio Del Nero (do Conselho Tecnológico do SEESP), João Carlos Gonçalves Bibbo (vice-presidente desse sindicato), João Sérgio Cordeiro (do Conselho de Administração do Instituto Superior de Inovação e Tecnologia – Isitec) e Fernando Palmezan Neto (coordenador do projeto “Cresce Brasil”), além do economista Antonio Correa de Lacerda, a quem coube a palestra inaugural, intitulada “Evitar a recessão no Brasil”.  
 
Diagnóstico e proposições
Ele iniciou sua preleção com um alerta: “A despeito das dificuldades de curto prazo, não podemos perder a visão estratégica do desenvolvimento a longo prazo.” Ele apresentou o diagnóstico da realidade brasileira atual, a partir de análise da conjuntura internacional – um cenário de crise que, como mostrou, hoje impacta mais fortemente o País. Isso porque, diante desse cenário, “o montante de capitais especulativos segue mudando de mão” – e o que contém os efeitos negativos do rentismo é o volume de reservas, no Brasil próximo de US$ 380 bilhões. Na China, como destacou Lacerda, são quase US$ 4 trilhões e, mesmo assim, tem havido desaceleração no crescimento no curto prazo. “A contração da demanda global derrubou os preços das principais commodities, como petróleo e minério de ferro.” E o País, cuja estrutura ampliou sua dependência de tais insumos, sofre maior impacto da crise do que antes, quando adotou políticas cíclicas, segundo constatou o economista. Assim, conforme sua palestra, tem havido crescimento econômico abaixo do seu potencial nos últimos quatro anos, elevação de déficit das contas públicas, desindustrialização precoce, dada a ampliação da entrada de importados, e, sob a alegação do fantasma da inflação, incremento da taxa de juros (a real em torno de 5%) – “a maior do mundo”.  
 
“O grande desafio”, como concluiu ele, “é separar os aspectos conjunturais e estruturais”. Nesse sentido, foi categórico: “O risco é cortar onde não se deve, como está ocorrendo. O ajuste não pode se dar pela via recessiva. O crescimento é condição necessária para viabilizar o desenvolvimento. Para Lacerda, evitar a recessão passa por financiar o investimento produtivo, fortalecer o papel do Estado, garantir taxas de juros mais equilibradas, elevar a massa salarial e a renda, bem como estabelecer estrutura institucional que estimule o setor privado ao investimento da produção e da infraestrutura. Ao final, ressaltou a importância de se preservar as liberdades democráticas, caminho para que se consiga progredir.  
 
Hoje, estarão em pauta “Os desafios da crise hídrica” e “Energia para o desenvolvimento”. Transmissão ao vivo online no link http://goo.gl/y7Zis4



Soraya Misleh Imprensa SEESP                  
 


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