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04/06/2021

Engenharia de agrimensura no campo, na cidade e nas águas

Engenharia baseada no conhecimento milenar no georreferenciamento se expande para novos campos de atuação e, hoje, está, também na cidade e nas águas. 

 

Rosângela Ribeiro Gil
Oportunidades na Engenharia

 

A agrimensura é umas das modalidades mais antigas da engenharia. As primeiras atividades remontam aos egípcios em torno de 1400 a.C. A palavra vem do latim: agri de agrícola/terra e mensor, de medir/medidor. As informações são do professor e engenheiro agrimensor Silvio Jacks dos Anjos Garnés, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Num primeiro momento, esclarece, entende-se esse profissional “como especialista natural do georreferenciamento nos levantamentos e regularização fundiária de terras rurais e atividades relacionadas à divisão e remembramentos de área”. Todavia, prossegue Garnés, a atuação se expandiu para além dos campos, chegando às cidades e às águas. É com informações sobre essa abrangência maior e muito mais que celebramos o Dia da Engenharia de Agrimensura, neste 4 de junho.

 

Vanessa Marinho 1A estudante Vanessa Marinho destaca a ligação da engenharia de agrimensura ao desenvolvimento do País. Foto: Acervo pessoal.

 

Esse profissional, reforça o docente, não trabalha apenas em terra firme. “O nosso trabalho também está nas águas com os levantamentos batimétricos, que são a representação tridimensional do relevo submerso de reservatórios, rios, lagos e até oceanos”, explica. Tal trabalho é necessário, relaciona ele, para a construção de pontes, monitoramentos de reservatórios para dessedentação humana e de animais  [suprir necessidades de água], atracamentos de navios em portos etc.

 

Na área urbana, explica Garnés, é o primeiro profissional a iniciar uma obra, com o levantamento do terreno, a elaboração do parcelamento do solo, os trabalhos de cálculos e acompanhamento da terraplenagem, a locação dos terrenos. “Ao final da obra, faz o levantamento As Built [expressão inglesa que, traduzida para o português, significa “como construído”] para registro na base cartográfica municipal. Essa base, inclusive, cuida e gerencia informações técnicas fidedignas da realidade, “base essa fundamental para qualquer gestor público para decisões”, informa.

 

Mulher na engenharia
É nesse mundo que a estudante Vanessa Marinho escolheu para atuar profissionalmente. Em 2016, aos 22 anos de idade, ela passou no vestibular no curso de Engenharia Cartográfica e de Agrimensura da UFPE. “Estou no quinto ano e devo me formar em julho de 2022, finalmente”, diz, orgulhosa. A discente se espanta com os números de registros de profissionais junto aos conselhos federal e estaduais (Sistema Confea/Creas). Hoje, o País, conta com 5.561 engenheiros agrimensores, destes, apenas 592 são mulheres. “Já tinha consciência da distinção quantitativa entre homens e mulheres no ambiente da engenharia. Porém, esses números me surpreenderam, a diferença é muito grande”, espanta-se.

 

Ela sabe que os desafios existem, que os marcadores de gêneros estão muito presentes nos ambientes escolar e laboral, mas revela uma disposição em enfrenta-los da melhor forma possível: “Com as minhas atitudes e formação vou mostrar que sou uma profissional capaz e posso estar onde quiser.”

 

Disposição e capacidade que já se mostram no seu estágio na área de regularização fundiária rural, no Instituto de Terras e Reforma Agrária do Estado de Pernambuco (Iterpe), uma instituição pública federal. “Estagio na geração de dados referentes a lotes rurais e suas devidas localizações, e para a alimentação de banco de dados”, descreve.

 

Nessa experiência, Marinho afirma que já consegue colocar em prática os conhecimentos técnicos do curso, mas que também aprende muito com os profissionais do instituto. Ela elogia: “Fui recebida de forma respeitosa e encontrei pessoas que me ensinam muito. Ver a realidade dentro dos desafios e dificuldades existentes nas instituições públicas, assim como a luta diária de todos os profissionais para trazer um serviço de qualidade ao povo, é algo que expandiu minha visão de estudante.”

 

Ciência para todos
Na universidade, Marinho participa ativamente de projetos de extensão relacionados à regularização fundiária em municípios pernambucanos, juntamente com o projeto Moradia Legal do Governo Federal. “A UFPE fornece serviços técnicos ao programa, expandindo o acesso ao cadastro nos municípios”, explica. Tal projeto, acrescenta a estudante, já entregou títulos de propriedades a famílias de baixa renda no município de Igarassu, da região metropolitana do Recife. “O objetivo é fazer isso nas 84 cidades que estão recebendo auxilio desse projeto”, diz. O professor Garnés, inclusive, criou um software que vem trazendo facilidade e eficácia no cadastro urbano que se transformou, também, num curso dado nas prefeituras locais para que o corpo técnico esteja apto a realizar a regularização fundiária. Marinho, inclusive, é monitora do curso.

 

Silvio Granés UFPEProfessor Silvio Granés salienta que profissão se expandiu para além dos campos, chegando às cidades e às águas. Foto: Acervo pessoal.

 

Em 2019, Marinho também iniciou um projeto de extensão no Laboratório de Astronomia da UFPE, fazendo atendimento ao público e levando informações relacionadas aos astros e seus comportamentos. “Apresentávamos conteúdos sobre astronomia, levávamos conhecimento científico ao público, se fazia também observações a partir de estações totais e telescópios. O projeto cresceu muito. Infelizmente, em março do ano passado, tivemos de parar os eventos semanais por causa da pandemia da Covid-19”, lamenta. Em cada uma das recepções ao público, lembra a graduanda, passava-se conteúdo sobre os astros e suas características e a forma como se comportavam no espaço. “A nossa contribuição prática era tornar acessível e aproximar a ciência das pessoas, recebíamos de idosos a jovens e crianças. Ou seja, era a ciência se popularizando e mostrando a sua importância à sociedade”, diz.

 

Agrimensura e tecnologia
A engenharia de agrimensura se adapta muito bem a qualquer tipo de tecnologia, “desde as mais rudimentares e importantíssimas, como é o caso do nivelamento hidrostático, o conhecido nível de mangueira que todo pedreiro e mestre de obras usam no seu trabalho, e não podem ser dispensados, até os mais sofisticados tipos de levantamentos como, por exemplo, os posicionamentos por satélites do GNSS [sigla em inglês para Global Navigation Satellite System; em português, Sistema Global de Navegação por Satélite]”, aponta Granés. O sistema é o processamento de imagens por sensores remotos, incluindo todos os tipos de sensores orbitais, os levantamentos com lasers tanto terrestre como os aerotransportados, os levantamentos com drones, “hoje muito populares graças à modernização dos softwares de processamentos fotogramétricos”.

 

Marinho completa, dizendo que a engenharia, de forma geral, acompanha os avanços tecnológicos, “com a agrimensura não foi diferente”. Há um alinhamento e uso intensivo de tecnologias de informação e comunicação (TICs) na área, afirma a estudante. Ela reforça: “Equipamentos como GPS, satélites, câmeras modernas e softwares nos auxiliam muito na produção de elementos com maior precisão e facilidade. A ampliação e crescimento dos programas gráficos também ajudam bastante na elaboração de materiais cada vez melhores. Essa convergência é notável.”

 

A engenharia de agrimensura por Vanessa Marinho
Marinho destaca que a engenharia de agrimensura está muito ligada ao desenvolvimento do País. “Obras de estradas, outros tipos de construção, estudos do solo, cadastro territorial, mapeamento são exemplos de coisas que necessitam de um conhecimento da cartografia e da agrimensura. Desta forma podemos dizer que a utilização de tais áreas da ciência são necessárias no desenvolvimento e gestão de uma nação”, define.

 

Vanessa Marinho se vê, na profissão, contribuindo para o atendimento às necessidades da sociedade e ao crescimento do País. Ela dá o recado: “Quero coletar dados e gerar produtos que tragam conhecimento e melhoria de vida aos cidadãos. Espero que cada vez mais nossa área seja notada, reconhecida e valorizada, e torço para que mais e mais mulheres ingressem e conquistem o espaço da engenharia.”

 

Mudanças no curso
Na década de 1980, a engenharia de agrimensura tornou-se uma graduação plena com cinco anos de carga horária igual aos outros cursos de engenharia. “Sua coirmã, a Engenharia Cartográfica, surgiu como curso superior antes, em meados dos anos 1960. Mas a sobreposição entre as duas graduações ultrapassava 80%, isso culminou, nos últimos anos, numa recomendação do MEC [Ministério da Educação], na fusão dos currículos dos dois cursos”, explica o professor da UFPE. Na prática, isso significou novas grades curriculares e a criação dos cursos de “Engenharia de Agrimensura e Cartográfica” e de “Engenharia Cartográfica e de Agrimensura”. “Via de regra, com algumas exceções, a primeira para cursos que inicialmente eram “Engenharia de Agrimensura” e, a segunda, para os de “Engenharia Cartográfica”.

 

Para o docente, nomenclaturas diferentes são desnecessárias, uma vez que se trata do mesmo profissional, “chegará o momento que essa nomenclatura será padronizada”.

Você sabia que o SEESP oferece:

I - Orientação à carreira
O SEESP mantém a área Oportunidades na Engenharia que atende estudantes e profissionais da área na parte de orientação à carreira, com diversas ações, entre elas: atendimento personalizado (serviço exclusivo para estudantes e profissionais associados ao SEESP) com análise de currículo, orientação de LinkedIn, simulação de entrevista, dicas atuais sobre processos seletivos online e presenciais, elaboração de trilha de carreira e de estudo etc. O setor mantém, ainda, plataforma de divulgação de vagas de estágio e outras oportunidades; cadastro de autônomos; conteúdos atualizados sobre mercado de trabalho; noções gerais de redação e português.  Para auxiliar estudantes e engenheiros na hora de formatação do currículo, também tem o Mapa da profissão, com informações de legislação, mercado, palavras-chave para cada modalidade da engenharia etc..

 

II - Associação para os estudantes
O estudante de Engenharia também pode se associar ao SEESP e usufruir de diversos benefícios, inclusive de desconto na mensalidade da faculdade, caso esta seja conveniada ao sindicato. Saiba mais aqui.


III - Núcleo Jovem Engenheiro
Foi criado um espaço bem bacana para os estudantes e recém-formados na área para discutir questões específicas. É o Núcleo Jovem Engenheiro, saiba como participar, clicando aqui.

 

REFERENCIAL DO CURSO DE ENGENHARIA DE AGRIMENSURA

Carga mínima – 3.200 horas

Perfil do egresso – Profissional de formação que atua na captação, tratamento, processamento de informações espaciais por meio de levantamentos topográficos, geodésicos, hidrológicos, hidrográficos e em imagens aéreas ou de satélites. Produz mapas e cartas para projetos de obras de infraestrutura, serviços e obras ambientais. Faz a locação de obras civis, de transportes, projetos de assentamentos rurais e urbanos, a demarcação de terras e o georeferenciamento de áreas urbanas e rurais. Pode proceder vistorias, perícias, avaliações, arbitramentos, laudos e pareceres técnicos relativos a terrenos rurais e urbanos, elaborar projetos e executar serviços de loteamento, desmembramento e remembramento do solo urbano. Coordena e supervisiona equipes de trabalho, realiza estudos de viabilidade técnico-econômica, executa e fiscaliza obras e serviços técnicos e efetua vistorias, perícias e avaliações, emitindo laudos e pareceres técnicos. Em suas atividades, considera aspectos referentes à ética, à segurança, à segurança e aos impactos ambientais.

Temas abordados na formação – Atendidos os conteúdos do núcleo básico da Engenharia, os conteúdos profissionalizantes do curso são: Computação; Mecânica; Mecânica dos Sólidos; Eletricidade; Meio Ambiente; Desenho Técnico; Legislação; Topografia e Geodesia; Geotecnia; Cartografia e Aerofotogrametria; Obras de Construção Civil; Processos de Gestão; Hidráulica e Hidrologia; Irrigação; Glebas e Loteamentos; Sensoriamento Remoto; Transportes; Saúde e Segurança do Trabalho; Cadastros Multifinalitários.

Áreas de atuação – Profissional habilitado para trabalhar em empresas de geoprocessamento, de engenharia e terraplenagem; em áreas rurais, industriais, de construção civil, serviço público e instituições de ensino e pesquisa; em obras e construções, com planejamento, monitoramento, administração e controle grandes obras, analisando o terreno e prevendo possíveis problemas; em monitoramento de áreas rurais, monitoramento dos terrenos e das condições geológicas; na construção de ferrovias, hidrovias, barragens; no loteamento de terrenos, na medição e na interpretação dos dados; em obras de extrativismo (como mineração) para realização do extrativismo sustentável; em sistema de saneamento, irrigação e drenagem.

Estágio – Obrigatório (Lei 11.788/2008).

Legislação pertinente – Lei 5.194/66 que regulamenta o exercício profissional na engenharia. Lei 4.950-A/66 define o piso salarial dos profissionais diplomados em Engenharia.

Fonte: Secretaria de Educação Superior do Ministério da Educação

 

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