Soraya Misleh/Comunicação SEESP
“A cada seis horas uma mulher morre pelo simples fato de ser mulher e a cada nove segundos é vítima de violência.” Os dados alarmantes foram apresentados pela delegada de Polícia do Estado de São Paulo Renata Lima de Andrade Cruppi, durante o debate “A luta em defesa das mulheres e contra o horror do feminicídio”, realizado na tarde da última sexta-feira (27/3), na sede do SEESP, na Capital.
Dirigentes do SEESP e demais interessados, juntamente com as palestrantes. Foto: Pedro Santana
Promovido pelo sindicato, por meio de seu Núcleo da Mulher Engenheira (NME), e marcando o Mês Internacional das Mulheres, o evento contou também com a participação da deputada federal Juliana Cardoso, que pautou medidas urgentes ao enfrentamento do que ela denominou “pandemia de feminicídio”.
A abertura do encontro coube a Murilo Pinheiro, presidente do SEESP, e a mediação ficou a cargo da coordenadora do NME e diretora da entidade, Silvana Guarnieri. Na ocasião, ficou evidenciado que a alcunha trazida pela parlamentar ao grave quadro no Brasil não é exagero.
Da esq. para a dir., Renata Cruppi, Marcellie Dessimoni Giratola, vice-presidente do SEESP; Murilo Pinheiro, presidente do sindicato; Silvana Guarnieri, coordenadora do NME; Juliana Cardoso; e a escrivã de polícia Érica Faustino. Foto: Pedro Santana
“Em 2024, 1.492 mulheres foram mortas pelo fato de serem mulheres e em 2025, 1.568. Ninguém fala das tentativas de feminicídio, contudo, que foram 3.870 e 4.755, respectivamente. Significa que essas mulheres que escaparam vivem com medo, uma angústia diária”, descreveu Cruppi, que é especialista na atuação preventiva e repressiva em violência doméstica e familiar, prevenção e repressão à violência de gênero.
Silvana Guarnieri (ao centro), mediadora do debate com a participação da delegada Renata Cruppi e da deputada Juliana Cardoso (à dir.). Foto: Soraya Misleh
Cardoso complementou: “Mais de 60% das vítimas são mulheres negras, e as indígenas também sofrem muito. Oitenta por cento dos casos se dá dentro de casa.” Este é, nas palavras da delegada, “o lugar mais perigoso para uma mulher hoje”, onde não há testemunhas.
Dentro desse panorama nacional, a deputada chamou também atenção para o fato de que São Paulo é um dos três estados com recorde em feminicídios, com a marca de 270 em 2025, um crescimento alarmante de 67% em relação ao ano anterior.
Problema estrutural
Ao trazer logo ao início o lema “Lugar de mulher é onde ela quiser”, Cruppi demonstrou que o problema a se fazer frente é estrutural na sociedade.
“A área da engenharia é predominantemente masculina. Quando temos áreas ou empresas que não pensam nas mulheres quando são desenvolvidas, quando elas chegam no ambiente, cria-se um choque. O lugar tem que ser modificado. Isso foi e ainda é muito difícil. A mulher precisa ter autoconhecimento para transformar isso e brilhar, e não ser ofuscada”, exemplificou.
Juliana Cardoso: sociedade machista. Foto: Soraya MislehCardoso atestou: “Vivemos em uma sociedade machista.” A parlamentar ensinou que “isso passa por ações sutis”, ilustrando com uma conversa ou reunião em que os interlocutores masculinos falam sem dirigir o olhar para a mulher ou questionam seus posicionamentos.
“Somos 513 deputados e em pleno século XXI, apenas 91 mulheres estão representadas. Somente há dez anos colocaram banheiro feminino dentro do plenário da Câmara Federal. Seguimos lutando para ter direitos e colocar os que temos em prática”, lamentou.
A delegada observou que foi necessário um instrumento internacional para afirmar seu direito à vida, à saúde e a ir e vir, bem como para definir o que é violência contra ela: a Convenção sobre a Eliminação de todas as formas de Discriminação contra a Mulher, adotada pela Organização das Nações Unidas (ONU) em 1979 e ratificada pelo Brasil em 1984.
Cruppi observou durante o evento no SEESP que, a despeito disso, há uma naturalização da violência contra a mulher na sociedade, o que impede que muitas consigam identificar suas distintas formas.
Três fases da violência
A delegada apresentou as três fases da violência de gênero: a primeira é a possessividade e ciúme num relacionamento, que abrange desde humilhação, perseguição, ridicularização e agressão moral até violências patrimonial e econômica (controle do dinheiro e retirada da independência financeira) e sexual.
Renata Cruppi: rigor da lei, proteção e educação.Esta última inclui, como detalhou Cruppi, não só estupro, assédio e importunação sexual, mas também exigir que a parceira se relacione com outros homens, assista filme pornô, não faça usa de contraceptivos e tenha mais filhos do que gostaria ou submeta-se a aborto contra sua vontade.
Segundo ela, já a segunda fase é a evolução para violência física, e a terceira é a “lua de mel, o ‘arrependimento’ do agressor e reconciliação”. “Isso a deixa completamente fragilizada e se instala o ciclo da violência, que pode durar até dez anos”, adverte.
No Brasil, como informa, mulheres demoram, ainda hoje, em média um ano a 1,5 ano para contar que estão enfrentando violência física. Em algumas regiões, três a cinco anos.
“Quando isso acontece, é preciso validar sua fala, apoiar, tomar providências, não questionar”, alerta. Caso isso não ocorra, enfatiza, esse ciclo recorrente vai estacionar na segunda fase, porque “o homem vai desistir de pedir perdão porque ela morreu”. Soma-se ainda o que as palestrantes denunciaram como violência digital, nas redes sociais, e a dificuldade de enfrentar esse sério problema.
Cruppi vaticina: “O feminicídio é um crime pré-anunciado, extremamente democrático, contra todas as mulheres, independentemente de posição ou classe social, e vai dando indicativos.”
Desafios e ações
“Legislação tem muita, faltam recursos orçamentários e humanos, infraestrutura. Medidas protetivas não são fiscalizadas com tanta presteza, falta monitoramento de agressores, a rede de proteção é insuficiente”, critica Cardoso.
Por outro lado, enxerga avanços como a aprovação no Senado em 24 de março último do Projeto de Lei 896/2023, o “PL da Misoginia”, que inclui entre os crimes de preconceito ou discriminação a incitação ao ódio e aversão às mulheres.
Para Cruppi, é necessário reforçar a rede de proteção, apoio e acolhimento às mulheres. Ela defende tanto rigor no cumprimento da lei em casos de violência de gênero quanto a importância de investimento em políticas públicas, como na educação desde a infância.
Criadora do programa “Homem sim, consciente também”, com foco na conscientização, ela acredita que se tem, como padrão numa sociedade machista, uma “masculinidade tóxica” que precisa ser desconstruída e dar lugar a uma “masculinidade positiva”.
A deputada concorda e desabafa: “Eu sonho com o dia em que a minha filha possa sair da faculdade à noite e chegar em casa sem que o pai dela tenha que buscá-la no Metrô ou ir ao ponto de ônibus [diante do risco de violência contra a mulher]. É um caminho a ser construído, a partir de ações e conversas como a que estamos fazendo aqui. Estou muito orgulhosa de vocês.”
Confira como foi a atividade






