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Superar o preconceito e abraçar a diversidade na engenharia

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Rita Casaro

 

BeatrizBicudoBeatriz Bicudo, presidente do Grêmio Politécnico: garantir espaço às mulheres em uma das mais tradicionais escolas de engenharia do País. Foto: Acervo pessoalAssim que foi aprovada no vestibular para a Faculdade de Engenharia Elétrica da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (Poli/USP), em 2019, Beatriz Bicudo teve uma demonstração dos obstáculos que encontraria à frente. “Um colega da minha mãe falou: ‘Nossa! Ela já está querendo ir atrás de marido?’”, relembra a estudante cuja vocação para exatas,
muito incentivada pelo pai, era evidente desde a primeira infância.

Hoje, no terceiro ano do curso e presidente do Grêmio Politécnico, Bicudo se empenha para que a Poli, onde 80% dos alunos são do sexo masculino, não seja vista como uma meta inatingível pelas mulheres e outras minorias na instituição como pessoas negras e LGBTQIA+. Apesar de reconhecer que ampliar significativamente a presença feminina ainda é um objetivo distante, ela comemora iniciativas como o “Meninas na Poli”, que visa apresentar a engenharia a esse público e atraí-lo para a profissão.


Além disso, afirma, embora ainda exista discriminação, a postura lamentável já sofre censura mais efetiva que a observada há alguns anos.  Em 2017, por exemplo, o vídeo “Poli USP AQUI NÃO” trazia denúncias assustadoras de assédio, abusos diversos e até estupros cometidos contra alunas da universidade. Ainda no mesmo ano, outra produção, esta inspirada no clipe “Survivor”, de Clarice Falcão, ilustrava o machismo dirigido às estudantes de engenharia e celebrava a resistência das garotas.


“A gente tem construído uma Poli cada vez melhor, e eu espero que todas se sintam acolhidas”, afirma Bicudo. Sua atuação se soma a um movimento que considera histórico, com esmagadora maioria feminina na liderança das entidades estudantis, além da direção a cargo de Liedi Bernucci, primeira mulher na função desde a criação da escola em 1893 e referência essencial para a aluna. “É uma das pessoas mais inteligentes com quem já tive o prazer de trabalhar. Eu pude aprender muito com ela durante este ano.”


Nesta entrevista ao Jornal do Engenheiro, Beatriz Bicudo fala sobre os múltiplos desafios de representar 7 mil alunos e lutar por igualdade. Confira a seguir e no vídeo ao final.

 

Qual o panorama da presença feminina hoje na Politécnica?
A USP tem duas outras escolas de engenharia, a de Lorena (EEL) e a de São Carlos (EESC). Na Poli é onde temos a menor participação das mulheres, nas outras tem um pouquinho mais, a gente tem caminhado num sentido interessante. Estamos com 20%, mas nos últimos anos tem aumentado, e muito disso se deve a algumas iniciativas que têm sido tomadas. Dependendo um pouco da engenharia, a participação é maior ou menor. Por exemplo, Elétrica é das que têm menos, mas na Ambiental e na Química é maior. Algo que precisa ser valorizado é o caminho interessante das mulheres na liderança, e me orgulho muito de fazer parte desse movimento. Neste ano, no Diretório Acadêmico – que inclui o Grêmio, todos os centros acadêmicos e também a Atlética –, só um dos centros acadêmicos não é liderado por mulheres. Isso é um momento histórico. E ainda temos acompanhado a diretoria com a Liedi Bernucci.  Acredito que hoje a Poli tenha ainda seus problemas com relação às minorias, mas fico muito feliz de ver que tem esse movimento de incentivo. Já tive diferentes relatos de “bixete” que ingressou na Poli e disse: “Fiquei muito feliz de ver que a presidente do Grêmio era uma mulher.” Esse tipo de coisa vai dando muito significado para o nosso trabalho.

 

Na sua avaliação, por que a Politécnica ainda é a que tem menos mulheres?
A Poli, em comparação às outras escolas da USP, é vista como muito tradicional, o que pode acabar assustando e afastando mulheres e minorias em geral. Fora as histórias que a gente acaba sabendo de situações bem chatas que aconteciam em relação ao machismo. Quando eu prestei Poli, eram muitos comentários do tipo: “Você vai para a Politécnica? Lá rolam coisas complicadas.” Muitas vezes, a gente tem que lidar com essas coisas que desestimulam. Logo que eu passei, um colega da minha mãe falou: “Nossa! Ela já está querendo ir atrás de marido?” Essa foi a reação: dizer que eu tinha entrado na melhor escola de engenharia da América Latina para encontrar marido. Eu sempre tive essa postura mais reativa: “Não, eu estou lá para estudar engenharia porque eu gosto e porque eu sou boa em matemática, nessas linhas lógicas.” Mas é muito difícil às vezes reagir. Quando eu entrei, a Poli já estava nessa tentativa de incentivar mais mulheres, mas ainda pesava muito para mim porque eu chegava na sala de aula, olhava para o lado e tinha mais três ou quatro meninas. Eu jurava que tinham corrigido minha [prova da] Fuvest (Fundação Universitária para o Vestibular) errado, que não era para eu estar lá, porque não conseguia me identificar com o espaço. Depois, comecei a me envolver com outras coisas, ser representante de classe, e vi no Grêmio uma ótima ponte para as próximas gerações olharem e falarem: “Uma presidente mulher, eu posso estar lá.” Isso para mim é o que mais pesa.

 

DestaqueEntrevista1Os seus pais apoiaram a opção pela engenharia?
Desde pequenininha, eu fui sempre fui muito voltada a exatas, matemática pura mesmo, sempre gostei muito. É algo muito legal, ainda cogito uma graduação em matemática. Meu pai também sempre gostou de exatas e me incentivava muito. Até os dois anos, eu fui cuidada unicamente pelo meu pai, ele ficava o dia todo comigo; eu não sabia falar direito, mas sabia a sequência dos números. Eu fui muito incentivada a prestar engenharia. Desde que eu me entendo por gente, gostava dessa área e sentia que não tinha uma representatividade muito grande, foi uma bandeira que sempre levantei. Ao longo do meu ensino médio, essa era uma pauta muito importante, pensava em como incentivar outras meninas a sentirem que tinham essa opção.

 

O que tem sido feito para que isso se efetive?
Estamos ainda abrindo as portas. Um exemplo é o “Meninas na Poli”, que teve a segunda edição neste ano. É uma série de eventos para que as meninas conheçam a Poli, trazê-las para dentro desse contexto. Foram quatro dias de evento online. O primeiro dia teve a professora Liedi contando a trajetória dela. [Nas demais atividades da programação], explicou o que é engenharia, como é o dia a dia de cada uma [das modalidades], [houve] relatos de diferentes perspectivas do mercado de trabalho. A gente tem lutado muito por essas iniciativas e para levar a Poli para o ambiente externo, principalmente às pessoas que não têm acesso a essas informações. Muitas vezes, a gente chega a meninas que não sabem o que é o vestibular, então explica como funciona, que pode entrar na Poli pelo Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) e pela Fuvest. [A ideia] é mostrar que esse mundo é de todas nós, não é para ficar restrito a algumas pessoas que têm privilégios.

 

Quais são as iniciativas de inclusão para outras minorias na escola?
Dentro da Poli, a gente tem coletivos voltados às questões racial, de orientação sexual, das mulheres já há alguns anos, mas têm ganhado força nos últimos. Um grande expoente, por exemplo, é a semana de diversidade em que o coletivo PoliPride organiza desde eventos de capacitação a rodas de conversa. O Poli Negra tem feito um trabalho interessante, por exemplo, sobre as fraudes de cotas. As pessoas do coletivo têm o protagonismo, mas a gente sempre está no apoio. Este ano nós fizemos um projeto bem legal que foi o prêmio de diversidade da USP. Surgiu nesse projeto o Coletivo Autista.

 

E como tem sido a experiência de exercer a liderança, como presidente do Grêmio, sendo parte da minoria?
Ter enfrentado essa questão e ser presidente é uma experiência muito interessante. Eu tive mais que lidar com a minha síndrome de impostora que com comentários externos. Eu ficava: “Será que vou mesmo? Será que eu consigo?” Tive uma rede de apoio muito grande. Estou indo para o 11º mês e, modéstia à parte, a gente tem feito uma gestão muito sólida e construtiva. A gente sabe que vai ser uma pressão muito grande; quando eu falo, é por mais de 7 mil alunos. Isso pode assustar, por isso tem que estar fiel ao que você acredita, falando de coração, acreditando num futuro de uma Poli melhor, mais forte, mais acolhedora. Posso errar, mas eu tentei fazer uma Poli melhor. E somos uma gestão histórica, porque é a primeira vez que presidente e vice (a estudante Gabriela Tamaso) são mulheres.

DestaqueEntrevista2

 

Quais têm sido os desafios durante a gestão?
Você está lá como representante, não como aluna. Nas primeiras assembleias dos órgãos colegiados, eu ficava um pouco mais nervosa. Por exemplo, faço parte do Conselho Técnico Administrativo, que é uma reunião com a diretoria, todos os chefes de departamento, um representante dos funcionários e eu. Na primeira reunião do CTA, tive que fazer uma apresentação de um projeto de espaço de convivência. Aí, fiquei: “Meu Deus, como vou fazer isso na frente de tanta gente importante?”. Nesses momentos, tem que dar essa respirada e pensar: “Fui eleita para isso, as pessoas confiaram em mim.” E tem dado certo. O que foi um diferencial na minha trajetória foi ter a Liedi, uma das pessoas mais inteligentes com quem já tive o prazer de trabalhar, que desempenha um papel de liderança ímpar. Eu pude aprender muito com ela durante este ano, não consigo imaginar a gestão sem ela. Sempre me incentivou muito dentro de todos os espaços da escola. Quando me lembrar dessa experiência, vou me lembrar dela apoiando e falando que esse era um espaço em que eu poderia estar.

 

Com todo esse empenho, já dá para vislumbrar uma Poli com mais diversidade e com mais mulheres?
Infelizmente, hoje na Poli, se a gente falasse que não ocorrem casos de machismo e de discriminação em geral, seria mentira. Mas o que fica é a forma como se lida, no sentido de dizer que isso não é para acontecer na Poli. Hoje não tem mais espaço para tantos comentários e situações constrangedoras. Isso é reflexo das políticas de inclusão dentro da escola e do cuidado das lideranças. [Mas] são mudanças estruturais [que ainda são necessárias]. Por exemplo, o “Meninas na Poli” é um projeto superimportante, mas é um passinho de formiga. Não vou ver em vida uma Poli com 80% de mulheres; a Poli reflete o que a sociedade está trazendo.

 

Qual a mensagem às meninas que querem estudar engenharia, mas têm dúvidas?
Sintam-se à vontade para entrar em contato com qualquer entidade da Poli. O Grêmio está super à disposição. O caminho da engenharia é muito interessante, de resolução de problemas, desde questões mais técnicas, pequenininhas, minuciosas até as estruturais. Não abandonem o interesse, vale a pena investir no sonho. Mesmo que depois não queira fazer engenharia, conheça esse mundo. A gente tem construído uma Poli cada vez melhor, e eu espero que todas se sintam acolhidas.

 

 

Entre em contato
Grêmio Politécnico

Poligen
Poli Negra
PoliPride
Coletivo Autista da USP

Assista ao vídeo da entrevista

  

 

Foto no destaque: Beatriz Bicudo. Crédito: Acervo pessoal

 

 

 

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