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19/11/2021

Desistir nunca foi uma opção, afirma Tatiana Vitório

Aos 27 anos, a engenheira trabalha para uma grande multinacional do segmento petrolífero

Rosângela Ribeiro Gil
Oportunidades na Engenharia 
Edição Rita Casaro - Comunicação/SEESP

 

Na entrevista concedida enquanto preparava as malas para uma viagem de trabalho ao Suriname, Tatiana Vitório Isidorio contou sua trajetória de vida como mulher preta, que aos 27 anos atua como engenheira de projetos numa multinacional. 

 

Tatiana destaque inicialTatiana Vitório Isidorio, na sua formatura em 2018. Crédito: Acervo pessoal.

 

Quantos negros e negras havia na sala de aula e quantos eram professores na sua graduação?
Vinte por cento dos alunos da minha turma de engenharia de petróleo eram negros. Não tenho um número exato de professores negros que tive durante a graduação, mas não foram muitos, em torno de 10%, eu diria.

 

Você já sofreu ou sabe de outros profissionais que sofreram racismo em algum momento da carreira?
Sim, há três anos e meio, basicamente desde que me formei; é o racismo em sua versão mais comum e mascarada, que é o racismo estrutural. Como uma mulher preta de 27 anos, moradora da Baixada Fluminense (RJ), em muitos momentos não me sinto confortável para dizer que sou formada em engenharia de petróleo, pois o olhar de surpresa das pessoas me causa um sentimento de incômodo, já que uma engenheira branca nunca receberia esse tipo de olhar quando falasse da sua profissão.

 

Um outro episódio curioso que percebi no meu primeiro embarque foi o fato de que tinha muitos estrangeiros no navio, logo, grande parte da comunicação era realizada em inglês e eu recebi vários elogios sobre o meu inglês, de brasileiros e estrangeiros. Cerca de 80% dos brasileiros naquele navio falavam inglês com muita fluência, mas uma mulher preta ter uma boa comunicação verbal em outro idioma ainda choca a sociedade.

 

Em nosso país, de acordo com dados do IBGE, cerca de 54% da população é composta de pretos e pardos. Como é compor a maioria e ainda ser tratada como minoria?
É carregar mais um peso que colocaram em nossas costas. Fui a primeira da minha família a entrar em uma universidade pública, estadual, no curso de engenharia de petróleo, aliás foi o curso desta modalidade pioneiro no País. Desistir nunca foi uma opção. Além dos meus sonhos e objetivos, eu carregava e carrego, até hoje, a responsabilidade de tentar influenciar nem que seja uma pessoa preta ao longo da minha vida, mostrando que o nosso caminho é mais difícil, mas somos competentes e com as oportunidades certas, chegaremos lá. Lá é em qualquer lugar que desejarmos.

 

Como você vê o apagamento da memória técnica trazida pelos povos escravizados?
O que me incomoda mais é o fato de parte da sociedade brasileira que detém o poder, de certa maneira, roubar e camuflar tudo que foi e é produzido pelo povo preto neste país. Não dar o crédito a quem merece. Roubar nossos espaços, tentando de certa maneira nos direcionar para o lugar que eles acham que nós merecemos.

 

Como é enfrentar essa situação no Brasil?
Angustiante. Triste. Cansativa. Repetitiva.

 

400 Tatiana engenheira 2Tatiana numa plataforma de petróleo. Crédito: Acervo pessoal.O debate sobre racismo e machismo como estruturantes da sociedade é pauta importante na formação superior?
Tanto é, que aqui estou. Resistindo para existir. Ocupando para recuperar espaços dignos que nos foram negados apenas por conveniência. Sou filha de uma mãe solo que trabalhou como doméstica por cerca de 50 anos. É com muita humildade que me sinto como um ato de resistência apenas por exercer a profissão que escolhi, na posição que estou hoje. Se tem uma coisa que não deixa a branquitude e o patriarcado felizes é a filha da empregada preta trabalhando junto com o filho do "doutor" engenheiro fulano, pois para eles, o meu cargo já havia sido definido e era bem diferente do que estou agora.

 

Quais exemplos ou personalidades a inspiram na luta contra o racismo?
Neste momento, eu preciso citar Maria Sabina Vitório. Uma mulher preta de 68 anos, que começou a trabalhar por volta dos 12 anos como empregada doméstica e parou aos 65 anos, quando sua filha estava formada e empregada. A história da minha mãe é como ela mesma diz: sem luta, não há vitória. Ela enfrentou muitas lutas para entregar para esse mundo uma mulher preta com uma graduação e exercendo a profissão que escolheu. Por isso, deixo meu eterno agradecimento a essa mulher.

 

Como tem sido sua trajetória profissional desde a formaçao?
Estou formada desde 2018, em Engenharia de Petróleo pela Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (Uenf). Trabalhei, por um ano e meio como técnica em um projeto na universidade, que tinha uma parceria com a Petrobras. Faz quase dois anos que trabalho como engenheira de projetos para uma empresa multinacional. Durante este período, tive a oportunidade de trabalhar em dois escritórios da estatal mexicana, enquanto em home office participei de alguns projetos trabalhando com monitoramento remoto de operações de perfuração em poços do Golfo do México, Austrália e Brasil.

 

No mês passado, tive a oportunidade de embarcar pela primeira vez como engenheira de projetos de MPD [na sigla em inglês Managed Pressure Drilling, e na tradução para o português Gerenciamento da Pressão na Perfuração de Poços], uma experiência muito enriquecedora. No momento, estou me preparando para o meu próximo embarque, no dia 20 de novembro viajo para mais um desafio profissional, desta vez, no Suriname. Algo interessante sobre o meu primeiro embarque foi o fato de durante 17 dias, em que o navio teve em média 185 pessoas, só tinha duas mulheres pretas, eu e uma mulher que trabalhava na hotelaria.

 

Qual a sua mensagem para o Dia da Consciência Negra?
Estude, criança preta! Meu grande sonho sobre a situação da interação étnico-racial na sociedade brasileira é exatamente a conscientização, que eu gostaria muito que existisse o ano todo. Precisamos dialogar sobre o tema. A Lei 10.639/03 – que tornou obrigatório, no País, o ensino de história e de cultura africana e afro-brasileira nas escolas – precisa ser projetada para todas as esferas da nossa sociedade, precisamos falar da nossa origem africana. Sem romantização.

 

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