GRCS

09/03/2021

Por mais mulheres nas carreiras ligadas a ciência e tecnologia

Docente pesquisa sobre a evasão da mão de obra feminina nas carreiras ligadas ao eixo tecnológico e de exatas

Rosângela Ribeiro Gil
Oportunidades na Engenharia

 

Elisangela Muncinelli Caldas Barbosa é professora de cursos técnicos e de Engenharia Mecânica e de Controle e Automação do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Sul (IFRS), na disciplina de Química, campus Farroupilha, em Porto Alegre. Ela tem se debruçado em observar a representatividade feminina nas carreiras de ciência, tecnologia, engenharia e matemática, na sigla em inglês STEM (Science, Technology, Engineering e Mathematics). “Minha vivência enquanto mulher e docente de cursos técnicos e superiores do eixo tecnológico me permite dizer que as meninas e as mulheres são minoria nesses estudos”, constata. 

 

Essa foi a motivação para Barbosa propor uma pesquisa em que uma das etapas é buscar dados do acesso e conclusão do ensino superior, com recorte de gênero, bem como da participação no mundo do trabalho para compreender a representatividade feminina nessas áreas. Segundo ela, no Censo da Educação Superior, de 2017, as mulheres representam a maior parte das matrículas e também das concluintes, mas ainda procuram mais cursos de ciências humanas e da saúde, enquanto os homens buscam maisos da área de STEM.

 

Em entrevista à área Oportunidades na Engenharia do SEESP, que integra série especial para o Dia Internacional da Mulher, ela fala mais da pesquisa e dos desafios para superar marcadores de gênero nas carreiras do eixo tecnológico. 

 

Conforme sua pesquisa, qual é a situação da mulher?
Verificamos que as mulheres foram incluídas no ensino superior, mas ainda há nitidamente uma segregação horizontal onde as escolhas das carreiras estão fortemente segmentadas por gênero. Perceba que as carreiras em que as mulheres são maioria são aquelas que se relacionam com estereótipos de gênero, como cuidados e educação. Especificamente na engenharia, o último Censo da Educação Superior [do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep), órgão ligado ao Ministério da Educação], divulgado em 2020, traz que as mulheres são a minoria concluinte nos cursos de graduação, cerca de 37%. Partindo dessas informações, é importante reconhecer e refletir sobre os motivos que levam as mulheres a não escolherem as carreiras STEM. Já quando escolhem esses cursos, é importante verificar o que as faz desistir ou seguir na carreira e, ainda, avaliar a ascensão profissional delas.

 

600 Elisangela professora 2A professora Elisangela Barbosa realiza estudos sobre a participação feminina nas carreiras ligadas ao eixo tecnológico e de exatas (STEM). Foto: Acervo pessoal

Você estuda a construção de estereótipos de gênero. Pode nos falar mais sobre isso com relação à família e à escola?
A construção de estereótipos de gênero se inicia desde a primeira infância quando, na família, se instituem discursos e ações que ditam o que é adequado para meninos ou para meninas. É comum que as meninas recebam bonecas, panelinhas – que remetem a utensílios domésticos – e maquiagens, enquanto os meninos são presenteados com blocos de montagem, ferramentas de construção e carros eletrônicos, por exemplo. Estabelece-se que meninos estão propensos a atividades ligadas à tecnologia, ao raciocínio lógico, à força e exploração do espaço físico, enquanto as meninas tendem a atividades domésticas e que remetem a cuidados, vaidade. Pesquisas demonstram que essas atitudes são ameaças para o desenvolvimento das meninas e pelo seu interesse nas áreas de STEM.

 

Como começar a mudar isso?
As famílias podem oferecer – mas sabemos que as condições sociais influem nessa questão – atividades científicas informais para suas crianças, como visitas a museus, vídeos, desenhos animados, livros e séries que explorem temáticas científicas e também deem visibilidade às mulheres, além de desconstruir o discurso de que existem brinquedos e atividades de meninos e de meninas. Ainda há vários programas como @meninasnaciência, @ismstem. Numa outra perspectiva está o papel da escola. É preciso atentar, desde o ensino fundamental, para que a construção do currículo, o uso de metodologias e materiais didáticos e as relações interpessoais no ambiente escolar sejam isentas de qualquer tipo de discriminação. Há, portanto, que se investir na formação continuada de professores e gestores educacionais para que essas concepções sejam refletidas na sua práxis educativa e impactem positivamente meninos e meninas, no processo de ensino aprendizagem e na construção de uma sociedade mais justa e igualitária. Essa concepção se estende às universidades.

 

Já na perspectiva do mundo do trabalho, você utiliza o conceito leaky pipeline. De que se trata e como nos ajuda a entender a evasão da mulher nas carreiras do eixo tecnológico?
Leaky pipeline [tubulação com vazamento] é uma metáfora utilizada para explicar a sub-representação das mulheres nas áreas de STEM. Nessa proposição, os alunos e alunas são levados por essa tubulação do ensino médio à universidade e desta, às carreiras STEM. Ocorre que há vazamentos na tubulação, que vão desde discentes que mudam de ideia antes de entrar na universidade, outros que mudam de curso durante a graduação e, ainda, aqueles que desistem após terem se graduado nessas áreas. Quando analisamos o grupo dominante, aquele que chega ao final da tubulação, percebemos que é composto majoritariamente por homens brancos. Uma pesquisa sobre os cargos ocupados na área corporativa, nas carreiras de STEM, divulgada recentemente pela consultoria McKinsey and Company, mostra que, ao se percorrer a tubulação, cada vez menos mulheres são encontradas. Olhando especialmente para a engenharia e a indústria de manufatura, esses são os dados da pesquisa, as mulheres representam 33% das profissionais no início da carreira, vão sendo filtradas (vazam) e no topo da carreira representam apenas 16%. Esse efeito cumulativo resulta no desequilíbrio de gênero que temos hoje nas áreas de STEM. Não basta que as mulheres escolham esses cursos, é preciso criar ambientes favoráveis, seja nas escolas, universidades ou no mundo corporativo, para que elas permaneçam e sigam nessas carreiras. É preciso investir em abordagens que estimulem o interesse de meninas nas áreas de STEM e contemplem a diversidade para, a médio prazo, contribuir para interromper o ciclo vicioso estabelecido que acarreta a baixa participação feminina nessas áreas.

 

Como você percebe a presença da mulher nesses cursos?
Minha vivência como docente me permite percepções, mas especialmente a pesquisa nessa área me habilita a destacar dois obstáculos: o primeiro é a falta de representatividade do corpo docente. Os modelos de referência {docentes) são importantes para que as alunas se identifiquem cada vez mais com a área escolhida. É importante que elas percebam que podem ser engenheiras e continuar com suas características femininas. Muitas meninas relatam mudar sua forma de se vestir e falar para se sentirem pertencentes àquela realidade ou até mesmo para que sua presença feminina não seja notada. O status quo tende a se manter, enquanto não tivermos um corpo docente mais diverso e também professores e professoras que atuem na promoção de discussões sobre a presença das mulheres nessas áreas. O segundo aspecto se relaciona aos discursos de discriminação. Na verdade, discursos e atitudes que desqualificam as alunas, especialmente pelo gênero, costumam desestimular a permanência das mulheres nos cursos de engenharia. Uma campanha intitulada #esse é meu colega e #esse é meu professor, promovida pelo Programa Meninas na Ciência, da UFRGS [Universidade Federal do Rio Grande do Sul], traz exemplos desse tipo de atitude: “Licenciatura é coisa para mulher que não passa nas cadeiras de bacharel”, “Achei que as mulheres não fossem conseguir realizar esta atividade”. É importante enfrentar essas questões, que, muitas vezes, são vistas como comentários inofensivos e dar visibilidade a essa discussão, engajando todos e todas para que contribuam para a mudança desse cenário.

 

Como enfrentar essas obstáculos ao acesso feminino às carreiras STEM?
Esse enfrentamento precisa ser de toda a sociedade. Em todas as relações podemos atuar como agentes modificadores. No núcleo familiar, por exemplo, devemos eliminar a criação de estereótipos de gênero, excluindo a segregação de atividades adequadas para meninos e meninas. Todos devem ser estimulados a interagir com brinquedos e atividades tecnológicas. Da mesma forma, as atividades concebidas como próprias das mulheres precisam ser vistas como direito e dever de todos. Na escola e nas universidades é imprescindível criar um ambiente favorável para que essas discussões ocorram, naturalizando a participação feminina nessas áreas. No ambiente corporativo é preciso romper com a segregação vertical que faz com que as mulheres não atinjam os altos cargos. Esse movimento, embora lento, vem ocorrendo. Uma forma de contribuir para essa mudança é justamente dar visibilidade ao trabalho das mulheres e promovê-las a cargos mais altos, tornando equipe mais diversa e, consequentemente, diluindo a percepção majoritariamente masculina. Isso não significa travar uma batalha de mulheres versus homens, muito pelo contrário, contribui para uma visão mais criativa, democrática e que impulsionará o desenvolvimento tecnológico.

 

 

Indicações de livros e filmes de Elisangela Muncinelli Caldas Barbosa

 

Livros
* Sobre o “caso Marie Curie”: a radioatividade e a subversão do gênero
* A ridícula ideia de nunca mais te ver
* As cientistas: 50 Mulheres que mudaram o mundo

 

Filmes
* Estrelas além do tempo
* Mercury 13 – O espaço delas (Netflix)

 

 

Lido 600 vezes

Adicionar comentário

Código de segurança
Atualizar

agenda