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28/09/2020

Engenheiros que fizeram transição de carreira após os 50 anos

Luiz Morroni Filho e Henrique Pereira se reposicionaram no mercado depois de mais de duas décadas como empregados de montadoras

 

Rosângela Ribeiro Gil
Oportunidades na Engenharia

 

A área Oportunidades na Engenharia, do SEESP, tem se debruçado no tema da longevidade, visando trabalhar com os profissionais mais maduros e experientes que querem se colocar ou recolocar no mercado de trabalho e sobre os processos de inclusão neste momento. Seguindo o que ocorre em outros países, a expectativa de vida, no Brasil, também aumentou: em 1980, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), ela era de 62,6 anos; quase 40 anos depois, em 2018, saltou para 76 anos.

 

Nesse sentido, foram entrevistados consultores, especialistas e headhunters para entender como o mercado de trabalho nacional vem absorvendo a mão de obra veterana. Todos salientaram que os ambientes corporativos devem estar mais preparados, assim como os próprios recrutadores e áreas de Recursos Humanos das empresas, para entender a positividade de criar espaços laborais que façam coabitar as diversas gerações. Como diz a própria presidente de uma das consultorias mais prestigiadas do País, o Grupo Cia de Talentos, Sofia Esteves, “aos 58 anos de idade me sinto plena em energia”.

 

Todavia, como assevera a gerente sênior de recrutamento da Robert Half, Carolina Cabral, o preconceito em contratar pessoas de mais idade, ainda existe, mas já foi maior. Ela acredita que, hoje, há um entendimento maior de que “o profissional de 65 anos é o que tinha 45 anos”. Cabral ainda observa que há uma confusão entre idade e energia, por isso, salienta: “Temos de levar em conta a personalidade, a energia, e não a idade, em se tratando de mercado de trabalho.” Para a criadora e gestora do “Conexão Melhor Idade”, Solange Vilella, o convívio com os veteranos “é algo fascinante e produtivo. A experiência que eles carregam em suas vidas nos remete a respeito, formas de pensar equilibradas e paciência”.

 

A headhunter Isis Borge, diretora da Talenses Group, também vê o mercado menos refratário e mais aberto à integração de profissionais de gerações diferentes. Por isso, explica, as empresas hoje pedem o recrutamento às cegas, onde não se envia dados, como gênero, idade e é solicitado apenas as duas últimas experiências daquele profissional sem data. Para ela, o perfil comportamental é mais importante do que a faixa etária. Contudo, Borge observa que existem setores mais fechados para uma geração ou outra. Ela exemplifica: “Áreas como o de infraestrutura, hidrelétrica, geralmente querem profissionais bem sêniores e têm uma barreira com engenheiros recém-formados. Por outro lado, no caso de startups de tecnologia de aplicativos, muitas vezes vamos ver o oposto. Já para o profissional sênior já aposentado ou em vista de aposentadoria, tenho visto vários caminhos de carreira, como o acadêmico e o de consultoria própria, empreendendo ou mesmo em conselhos administrativos.”

 

Para conhecer mais a realidade de profissionais das gerações Baby boomers (nascidos entre 1945-1964) e X (1965-1984), principalmente, que tiveram de se reinventar após os 40 anos de idade, entrevistamos os engenheiros Luiz Morroni Filho, 55 anos, e Henrique Pereira, 59. Os dois são formados em engenharia mecânica e desenvolveram mais de duas décadas de carreira em montadoras, na região do ABC Paulista. Ambos elogiam as empresas e consideram-nas verdadeiras “universidades” em termos de desenvolvimento técnico e de outras competências ligadas mais à área de gestão. Eles afirmam manter a paixão pela engenharia, após três décadas de formados, e ainda com o “brilho nos olhos” – competência que todos precisamos ter, ensina Sofia Esteves.

 

Apesar de muitas coincidências e sucessos alcançados dentro da indústria automotiva, os engenheiros fizeram mudanças em suas carreiras por motivos diferentes. Henrique Pereira afirma ter escolhido, e de forma planejada, aderir ao plano de demissão voluntária (PDV) oferecido pela General Motors, em 2011. “Achei que era o momento para mudar. E a empresa fez um dos melhores e excepcionais PDVs. Aproveitei esse valor e investi em meus negócios”, diz, considerando que fez “o grande salto da minha carreira” aos 51 anos. Já Luiz Morroni Filho não teve escolha, foi desligado da Ford, em 2018, aos 53 anos. “Perdi meu chão. Não estava preparado para sair. Meu plano era me aposentar na empresa”, lembra. À época lhe faltavam seis anos para a aposentadoria.

 

Conversando com os dois profissionais, observamos que ambos trazem uma riqueza grande de superação, reinvenção, desafios e, principalmente, de resiliência. São ensinamentos importantes para qualquer idade.

 

Luiz Morroni Filho
Engenheiro, pode nos contar sobre as mais de duas décadas de trabalho na Ford?
Graduei-me na [Escola de Engenharia] Mauá aos 23 anos. Comecei como estagiário, na Ford, aos 21 anos, em 1987, na Operação de Caminhões, na já fechada planta do Ipiranga [SP], onde hoje temos o Shopping Mooca. Fui efetivado como Engenheiro Pleno em dezembro de 1988.

 

Luiz Morroni FilhoO engenheiro Luiz Morroni Filho conseguiu se reposicionar no mercado. Crédito: Arquivo pessoal.

 

Iniciei minha carreira na Engenharia da Qualidade e, em 1995, fui promovido para Supervisor da Qualidade. Em 1999, com fechamento da planta do Ipiranga, toda produção de caminhões foi transferida para São Bernardo. Em 2000, iniciei meu trabalho com o time que estaria implementado a nova planta de Camaçari, na Bahia, dentro da Manufatura, como supervisor de lançamento de novos produtos.

 

Em 2005, ainda em Camaçari, fui promovido para Gerente de lançamento de novos produtos, responsável por todos os lançamentos da Ford na América do Sul. Em 2008, retornei para a Engenharia do Produto, de volta para São Bernardo, onde fiquei até 2015. Nesse ano, fui promovido para Diretor de Lançamento de novos produtos para a América do Sul, de volta à área da Manufatura, onde fiquei até outubro de 2018, quando fui desligado da Ford, devido à restruturação da empresa.

 

O que lhe acrescentou à carreira, engenheiro?
Ao longo de quase 30 anos, tive oportunidade de morar em várias cidades e viajar pelo mundo conhecendo várias plantas da Ford e fornecedores, em países como Argentina, Venezuela, Uruguai, México, Estados Unidos, Alemanha, Reino Unido, e também em aprimorar meus conhecimentos, com MBA em Gestão de Pessoas [em 2017, na Fundação Instituto de Administração, Universidade de São Paulo – FIA/USP], Especialização em Engenharia da Qualidade, Certificação Black Belt e vários outros treinamentos ao longo desta jornada.

 

Tabela Luiz Morroni

 

Em outubro de 2018, o senhor inicia uma nova fase na sua carreira. Foi uma mudança tranquila?
Quando saí da Ford, em outubro de 2018, estava com 53 anos. Nesse período, perdi meu chão. Não estava preparado, pois meu plano era me aposentar na empresa, porém faltavam seis anos para isso.

 

Nesse momento, trabalhei muito com o networking que criei ao longo desses 30 anos para tentar me recolocar. Assentando a poeira e pensando em planejamento profissional e de vida, em agosto de 2018, decidi abrir uma agência de viagens. Era um sonho para a aposentadoria, uma vez que meu hobby sempre foi viajar. Em setembro estava com a agência operando e, com isso, amenizava um pouco o medo de ficar ocioso. Contar isso agora fica mais fácil, mas essa mudança me custou uma depressão muito forte e só consegui me reerguer em termos de saúde em 2020.

 

Como foi possível criar esse networking?
Até eu ser demitido levou ainda alguns meses e comecei a colocar em prática o meu networking. Fiz duas entrevistas. E fui contratado pela empresa DHL [da área de logística], onde fiquei de outubro de 2018 a maio de 2019, como gerente geral na planta da FCA [grupo da Fiat]. Como estava morando sozinho em Belo Horizonte e minha família estava em São Paulo, decidi, de comum acordo com a empresa, sair e voltar para a minha agência de turismo e poder ficar em São Paulo com a família. Esse foi o fim da minha era na indústria automobilística.

 

O quanto o senhor traz da cultura da indústria automotiva nessa nova fase profissional?
Essa indústria é uma grande ‘universidade’. Adquiri muitas experiências técnicas e relacionamentos pessoais. Aplico Lean manufacturing [traduzível como manufatura enxuta, tem origem no chamado Sistema Toyota de Produção, filosofia de gestão focada na redução de desperdícios] na minha vida pessoal e na minha agência, processos de logística, qualidade e, principalmente, no relacionamento interpessoal.

 

Luiz Morroni Filho 2Luiz Morroni Filho em sua agência de turismo. Crédito: Arquivo pessoal.O senhor está com 31 anos de formado e na profissão, como o senhor se mantém atualizado?
O aprendizado foi longo como deve ser, para estarmos sempre atualizados e atentos ao momento do mercado. Fiz muitos treinamentos específicos nas áreas da Qualidade, Engenharia e Manufatura. Minha preocupação sempre foi o relacionamento humano, por isso, além da parte técnica, foquei muito em gestão de pessoas, treinamento para poder exercer a liderança como ferramenta para atingir os objetivos, tanto pessoais como os das equipes com as quais trabalhei.

 

Para mim, uma das questões mais importante é ter a capacidade de entender e se adequar ao ambiente onde se está inserido. Quanto maior é essa capacidade, mais sucesso se alcançará. Se ficar parado no tempo, não se atualizar tecnicamente e não ter esta capacidade de ambientação, seus dias estão contados.

 

Hoje o senhor é Gerente Operacional na WMF Solutions.
Aqui volto a falar do meu networking. Desde junho de 2019 até março de 2020, estava fora da engenharia, me dedicando à agência de viagens. Foi então que um amigo, ex-Ford também, me apresentou a vaga em aberto na WMF, empresa familiar, para trabalhar diretamente com o dono. Depois de duas entrevistas, iniciei meu trabalho na WMF, exatamente em 2 de março [último], poucos dias antes de ser decretada a pandemia do [novo] coronavírus. Sou responsável por toda operação da empresa: produção, compras, supply chain, inspeção de recebimento e TI. O trabalho é desafiador e motivador. É uma empresa excelente para trabalha com sistemas hidráulicos e acessórios para monitoramento e controle de sistemas de selagem para mancais de bombas, ventiladores, compressores e equipamentos rotativos em geral.

 

O que é ser engenheiro para o senhor depois de 31 anos de carreira?
Ser engenheiro é o meu projeto de vida. A engenharia me possibilita alcançar todos os meus objetivos pessoais e profissionais. Não tem idade para ser engenheiro. O que seria do mundo se não existissem os engenheiros?

 

Um conselho para profissionais que, por necessidade ou opção, fazem transição de carreira depois dos 40 anos.
Quero deixar algumas lições que aprendi ao longo desses 32 anos de trabalho: estude e se atualize constantemente para estar inserido no mercado; trate as pessoas como gostaria de ser tratado; esteja sempre preparado para o pior e sempre tenha um plano B; busque um trabalho que realize seu sonho pessoal, e não somente financeiro; gaste seu tempo e se preocupe mais com você e sua família, porque nada é mais importante do que você mesmo; construa e mantenha seu networking; e curta e desfrute da vida.

 

>> Perfil do engenheiro Luiz Morroni Filho no LinkedIn aqui

Henrique Pereira
Foram 26 anos de trabalho na GM?
Sim. Entrei com 25 anos, em 1986. Saí com 51 anos de idade. Logo que me formei participei de processos seletivos e passei na General Motors [de São Caetano do Sul]. Comecei a minha carreira trabalhando em laboratórios, desenvolvendo motores, na verdade. Sempre fiquei na linha de motores. Durante dois anos trabalhei numa coligada da empresa, e depois retornei para a engenharia de projetos e, na sequência, fui promovido para gerente de projetos e fiquei até quando saí, no final de 2011.


600 Henrique Pereira 2009 Lançamento da CaptivaO engenheiro Henrique Pereira planejou mudança na carreira aos 51 anos de idade, depois de mais de 20 anos na General Motors. Foto de 2009 no lançamento da Captiva. Crédito: Arquivo pessoal.

 

Como foi iniciar essa mudança na carreira?
Devo à GM muito do que tenho, inclusive em termos de conhecimento e aprendizado. Já estava com um bom tempo de empresa e olhava para o futuro. Percebia grandes movimentações, mesmo porque a empresa, nos últimos anos, reduziu, e muito, a sua engenharia. Já não via mais desafios grandes para mim. Queria mudar, na verdade, iniciar alguma coisa mais própria, com mais liberdade. Achei que era o momento para mudar, e, à época, a GM fez um dos melhores e excepcionais plano de demissão voluntária (PDV), receberia um valor muito grande, parando numa boa, sem criar qualquer tipo de problema. Optei pelo PDV, então. Aproveitei esse valor e investi em meus negócios. Nesse momento, abri mão um pouco da minha atuação na engenharia mecânica e me dediquei à área da construção civil junto com a minha esposa, que é engenharia civil.

 

300 Henrique Pereira 2012 CompostelaHenrique Pereira como andarilho no Caminho de Compostela, na Espanha. Crédito: Arquivo pessoal.O senhor também fez uma caminhada longa antes de iniciar uma nova fase, não é isso?
Sim. Foi logo no início de 2012, assim que saí da GM fui fazer o caminho de Santiago de Compostela, na Espanha. Fiquei um mês por lá, percorrendo todo os 800 quilômetros a pé. Isso me ajudou muito. É uma grande introspecção. Caminhar sozinho com um objetivo, é cansativo, mas lhe traz uma reflexão muito boa e intensa. Quando voltei estava com muita garra para começar uma nova etapa na minha vida. O caminho não termina na Catedral de Santiago de Compostela, ele apenas começa. A vida segue seu curso e nós o nosso caminho, com momentos de alegria, tristeza e de obstáculos diários a serem superados.

 

E como foi esse recomeço?
Como disse, reiniciei com a minha esposa nessa empresa de construção civil. Mas sentia que precisava de algo mais e fui para a área de consultoria. Mas percebi que entrei no mesmo ritmo de 10 horas de trabalho, sem tempo para quase nada. Aí, parei tudo de novo. Voltei aos contatos e reencontrei um amigo jornalista que me convidou para acompanhar lançamentos de automóveis. Hoje, faço a cobertura técnica nesses eventos. Também, há pouco tempo, comecei uma parceria com outro amigo da Jovem Pan, e participo do programa “Máquinas na Pan”. Esses trabalhos são uma diversão e me mantenho dentro do meu meio, que é automotivo. E continuo na empresa de construção civil com a minha esposa.

 

O que não pode faltar para o profissional de engenharia em nenhum momento da carreira?
Aceitar ouvir, saber escutar as pessoas, ter a consciência de que não sabemos tudo ou que não estamos acima dos outros.

 

O que é ser engenheiro para o senhor depois de 35 anos de carreira?
O engenheiro é isso: curiosidade, persistência e entender que para tudo tem uma solução. Precisa ter humildade também para errar e aprender com os outros.

 

O senhor tem uma participação marcante numa inovação da indústria automotiva no País, certo?
Sim. Na General Motors, trabalhei, desde 1992, no projeto dos flexíveis que foram lançados no mercado apenas em 2003. Hoje praticamente todos os carros são tipo flex. Tenho um baita orgulho desse trabalho, que me levou para muitos países, onde pude fazer apresentações e debater o projeto. Claro, que éramos uma equipe enorme envolvida nessa ideia. Mas considero um marco na minha carreira estar envolvido na concepção do primeiro carro flex do Brasil. Trabalhei muito! O carro flexível é exclusivo do Brasil, como o carro a álcool.

 

Tabela Henrique Pereira 2

 

Um conselho para profissionais que fazem transição de carreira após os 40 anos de idade.
Por opção realmente é mais fácil, quando é obrigado entram outros fatores, sem dúvida nenhuma. Infelizmente, o mercado não é tão simpático aos profissionais de mais idade ou com salários mais altos. Mas a palavra de ordem é: não desista. No caso de uma transição por opção, é necessário planejar, pensar bem e calcular tudo. Se não der certo logo de primeira, comece tudo de novo. Mesmo no caso do desemprego, sei que a pessoa fica chateada e frustrada, mas não pode parar, não pode desistir. É importante acordar todos os dias, se arrumar, planejar uma rotina. Vamos persistir e perguntar: no que sou bom e o que gosto de fazer.

 

>> Perfil do engenheiro Henrique Pereira no LinkedIn aqui 

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