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28/09/2020

Processos seletivos mais inclusivos, defende Sofia Esteves, presidente da Cia de Talentos

Para isso, a exigência do idioma de inglês não deve ser pré-requisito em programas de estágio e trainee.

 

Rosângela Ribeiro Gil
Oportunidades na Engenharia

Na segunda e última parte da entrevista com a presidente do Grupo Cia de Talentos, Sofia Esteves traz uma boa reflexão sobre pré-requisitos que acabam impedindo a participação mais democrática dos nossos jovens em processos seletivos de estágio e trainee, principalmente. “Fui uma das primeiras vozes contrárias a exigência do inglês, por exemplo”, observa.

Vinda de uma família simples de imigrantes europeus e crescida na Zona Leste de São Paulo, Sofia gosta de destacar a importância do autoconhecimento para fazer planejamento de vida e profissional. “Aprendi muito com os meus pais que me falavam, desde criança, ‘faça por merecer’, o que me ensinou muito sobre desafios e conquistas, a me conhecer”, reconhece.

 

Sofia Esteves segunda partePara Sofia Esteves, história de vida é muito importante para compor uma carreira de sucesso. Crédito: Divulgação.Autoconhecimento que deve estar ativo em todas as idades. “Tenho 58 anos e me sinto plena na minha energia”, revela. Por isso, orienta para que o profissional, não importa a faixa etária, sempre tenha disposição de aprender, evoluir e acompanhar as inovações e mudança da sociedade.

 

Como destacou na primeira parte da entrevista, hoje o mundo corporativo não está à procura de super herói. “Diferentemente da criptonita [nas histórias relacionadas ao Superman é um mineral que tem o efeito principal de enfraquecer] que está fora e não depende da pessoa, precisamos reconhecer nossas vulnerabilidades, que estão dentro de nós.” Ela explica: “Estou falando que somos diferentes, alguns são mais sensíveis, por exemplo. Vejo pessoas que se o líder falar um pouquinho mais alto já se assusta. Se um dia estiver nervosa e falar mais alto com alguém, por que o meu funcionário também não pode fazer o mesmo? Se estou debatendo uma ideia, por que a pessoa não pode colocar o seu ponto de vista? Agora se eu sei que uma pessoa que trabalha comigo é mais sensível, tenho de tomar mais cuidado.” A empatia na relação de trabalho, portanto, deve ser de ‘mão dupla’: “O líder também tem de ser empático.”

 

Com essa e outras lições de vida e profissional, Sofia Esteves abrilhanta, mais uma vez, o trabalho da área Oportunidades na Engenharia, do SEESP, nesse compromisso em garantir ambientes de trabalho mais inclusivos e democráticos com relação às ideias e opções pessoais e para termos um Brasil com oportunidades de emprego e carreira de forma mais igualitária e com equidade.

 

Como tem observado situações de exclusão em processos seletivos, e que deveriam mudar?
Talvez seja a primeira pessoa que lutou por tirar esses pré-requisitos. Há 30 anos, quando comecei a selecionar jovens, só tinham três empresas, no País, que faziam programas de trainee, sendo que estas e que só aceitavam jovens de alguns cursos e de cinco faculdades do Brasil inteiro e com inglês absolutamente fluente. Eu perguntava para essas empresas porque estavam me contratando para fazer esses processos de seleção. A resposta era que me consideravam muito competente e um talento. Aí eu falava que não tinha feito faculdade considerada de primeira linha, que era formada em psicologia, que não era um dos cursos que eles queriam, e que não falava inglês fluente.

 

Mostrava a incoerência deles com isso. Eles me consideravam um talento, mas, segundo as regras deles, nunca seria contratada. Depois de quase 10 anos, a Cia de Talentos está tirando o inglês dos pré-requisitos.

 

O idioma deve ser exigido para a posição na qual será imediatamente utilizado. E isso não ocorre, obrigatoriamente, num programa de estágio ou de trainee

 

Mas como ir atrás desse aprendizado?
É fato que, hoje, o mundo exige saber o inglês. Para fazer uma viagem internacional, ler um livro ou artigo. Se, por algum motivo, a pessoa não conseguiu fazer o curso; entendemos que, em dois ou três anos na empresa, esse jovem consiga superar esse gap. Ou seja, esse requisito não deve ser exigido no processo seletivo, porque há tempo de estudar depois.

 

Você tem algumas dicas, nesse sentido?
Atualmente, existem muitos cursos de inglês online com preço mais acessível ou mesmo gratuitos. Muitas entidades oferecem esse estudo de graça. A KPMG tem um programa gratuito para formação de jovens na língua. Outro projeto interessante é o Lift, um consórcio de 14 grandes empresas, que oferece bolsas de estudos para universitários de baixa renda. As possibilidades são enormes.

 

Outra dica é o grande evento Afropresença, que acontece nos dias 30 de setembro e 1º e 2 de outubro, para universitários pretos e pardos do Brasil inteiro. Na oportunidade, serão oferecidos cursos gratuitos de desenvolvimento e distribuídas duas mil bolsas gratuitas para curso de inglês. Todos os estudantes são bem-vindos, incluindo os de Engenharia.

 

Aproveito, ainda, para falar de outro projeto social da Cia de Talentos para os jovens, o Jornada para o Futuro. Temos muitos engenheiros participando, inclusive. São oito oficinas de desenvolvimento, autoconhecimento, cultura e valores, e mindset ágil. Se possível explicar mais aqui sobre o que é o mindset ágil. É totalmente gratuito e virtual. Mais de 24 mil jovens estão fazendo essa jornada.

 

Agora vamos falar sobre os profissionais com mais de 50 anos (50+) que buscam recolocação no mercado de trabalho. Quais suas orientações?
Estar atualizado é a primeira delas. Ter uma mente jovem. O que vem se levando em conta não é mais apenas o RG [Carteira de Identidade], a idade física. O importante é vigor mental, não ser uma pessoa que ‘congelou’ no tempo, que parou de aprender ou que acha que é o dono da verdade ou que sabe tudo. Tenho 58 anos e estou no auge da minha energia profissional.

 

O profissional 50+ tem todas as possibilidades [de recolocação] sim. Não vou mentir e dizer que é fácil e que todas as empresas aceitam. Mas estamos muito melhores do que era no passado. A minha dica é que esse profissional mantenha o “brilho nos olhos”. As competências buscadas no profissional 50+ são as mesmas para alguém que está no começo de carreira.

Importante é saber lidar com tecnologia, pacote Office, internet, com pesquisa online.

 

Em algumas entrevistas, você diz que ouviu muito de duas pessoas muito experientes, os seus pais, a frase “Faça por merecer”. O que significa essa frase para a Sofia Esteves ainda hoje e como ela ajudou a chegar até aqui?
Lutei, desde menina, por pequenas conquistas. Por exemplo, se eu quisesse uma lata de leite condensado – que adoro até hoje!!! –, tinha de fazer algumas coisas por merecer, por exemplo, arrumar a cama, lavar o quintal ou meu prato. Quando fui crescendo essa complexidade foi aumentando e o “faça por merecer” virou uma resposta ou obediência minha. A frase dos meus pais me desafiou muito e me fez ter a garra e a determinação que tenho hoje. Quando aparece qualquer obstáculo penso “faça por merecer”.

Isso também remete ao autoconhecimento?
Muito, muito! Só podemos superar algo quando nos autoconhecemos. O “faça por merecer” me fez, de alguma maneira, desenvolver essas habilidades. Se o seu pai e sua mãe não lhe derem um “faça por merecer”, você mesmo precisa se colocar metas e desafios. É como um jogo de videogame: você precisa ficar muito bom para passar para a outra fase. No videogame, tem alguns que erram e começam o jogo de novo, mas na vida não é assim, não tem botão para isso. Não tem o game over para começar tudo outra vez. Aquilo que você fizer vai ficar uma marca em você. Então, coloque na sua vida o autoconhecimento.

 

Com tudo o que aconteceu por causa da pandemia, você considera 2020 um ano perdido?
Não foi um ano perdido! Mas foi sim um ano de muita dor, medo e ansiedade, porém também de muitos aprendizados. Aprendemos mais de nós mesmos em seis meses do que em dez anos. Ficamos mais próximos da nossa família e redefinimos alguns valores. Todo mundo fez uma entrada em si mesmo para saber o que estava passando. Aprendemos a trabalhar remotamente e a sermos mais solidários e simpáticos.

 

Sou muito otimista quanto ao futuro, porque a gente realmente quebrou vários paradigmas. Isso vai abrir uma nova fronteira. Acredito que vamos passar para outro nível de relação e ambiente de trabalho. As empresas que não entenderem isso vão ficar para trás.

 

Você poderia nos indicar livros e filmes que lhe inspiram?
O filme “Ao mestre com carinho”, para os jovens que ainda não assistiram, recomendo. Outro [filme] antigo é o “Sociedade dos poetas mortos” e tem também “Senhor estagiário”, o documentário sobre o Bill Gates e o filme sobre a vida do Steve Jobs. Já os livros indico: “Mindset: A nova psicologia do Sucesso”, da Carol S. Dweck; “A coragem de ser imperfeito”, da Bené Brown; “Minha história”, de Michelle Obama. Gosto muito das autobiografias, para aprender com os acertos e os erros das pessoas. Outros livros importantes são “Gestão do Amanhã: Tudo o que você precisa saber sobre gestão, inovação e liderança para vencer na 4ª Revolução Industrial” e “O novo código da cultura: vida ou morte na era exponencial”, ambos de Sandro Magaldi e José Salibi Neto.

 

>> Primeira parte da entrevista: “Trabalhamos na era da ‘Liga da Justiça’: todos têm força e se complementam”, diz Sofia Esteves

 

 

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