Carlos Magno Corrêa Dias
O Paraná, o Brasil e o mundo perderam em 5 de outubro de 2026 o grande artista José Waldetaro Moura e Dias (1935-2026), um homem cuja existência extraordinária e multifacetada deixou marcas indeléveis no patrimônio histórico, artístico, cultural e humano da sociedade.
A trajetória de José Waldetaro Moura e Dias como pintor e artista plástico centrou-se em sua paixão inata, em uma perspicácia observacional sem igual e em um estudo autodidata profundo e disciplinado, pilares que pavimentaram solidamente seu caminho para a maestria artística. Sua história transcende a mera biografia, servindo como um verdadeiro e exemplar estudo de caso sobre a formação de um artista genuíno, impulsionado do início ao fim pela curiosidade insaciável e pela dedicação pessoal absoluta.
Desde cedo, a arte se manifestou em sua vida como uma atração irresistível e avassaladora. A admiração pelas pinturas nas paredes das casas de parentes demonstrou, desde a mais tenra idade, que seu olhar atento na infância não era de forma alguma passivo, mas sim uma forma precoce e aguçada de análise, decomposição cromática e absorção visual.
A formalização do seu interesse pela arte veio por intermédio de encontros imensamente significativos com grandes mestres da história da arte mundial. A lição inicial ocorreu na cidade de Poços de Caldas (MG), onde recebeu ensinamentos fundamentais de pintura que lhe forneceram o ponto de partida prático essencial, transformando aquela admiração contemplativa em ação criativa consciente. Mais tarde, na efervescente cidade de São Paulo, teve contato com a pulsante movimentação artística do Parque Ibirapuera, local onde obteve um aprofundamento notável sobre a linguagem e a história da arte. Filiou-se ao Museu de Arte de São Paulo (Masp) e passou a realizar um rigoroso estudo de obras imperdíveis de mestres de envergadura internacional como o espanhol Pablo Picasso (1881-1973), o holandês Rembrandt (1606-1669) e o francês Henri de Toulouse-Lautrec (1864-1901), mediante ricas correspondências, lâminas técnicas e cartões-postais detalhados.

Compilado de obras produzidas pelo artista José Waldetaro Moura e Dias, também retratado. Imagem criada por IA
A releitura e o estudo minucioso de obras clássicas e modernas funcionaram como sua principal Escola de Belas Artes pessoal, permitindo-lhe absorver técnicas complexas, jogos de luz e sombra, composições anatômicas e estruturas formais de maneira introspectiva, analítica e aplicada. A escolha daqueles mestres de diferentes períodos da arte ocidental não foi fruto do acaso: interessavam-lhe, em particular, a dramaticidade e o claro-escuro do Barroco de Rembrandt, a expressividade e a síntese do Pós-Impressionismo de Toulouse-Lautrec, e a desconstrução formal e espacial do Cubismo de Picasso.
O apogeu dessa fase inicial de aprendizado ocorreu quando passou a adquirir material profissional de pintura no emblemático Empório Michelangelo, utilizando os recursos financeiros obtidos com a venda de suas próprias telas iniciais (um ato de profunda autonomia que selou em definitivo sua transição de jovem admirador para produtor artístico maduro e consciente). Ao adquirir espátulas de precisão, pincéis de cerdas variadas, paletas de mistura e um cavalete portátil, assumiu seriamente seu compromisso incondicional com a criação. Essas ferramentas, que na época representavam um investimento financeiro altíssimo, simbolizaram uma escolha sem volta que o acompanharia ao longo de toda a vida.
Contam os mais idosos e testemunhas da época que o seu primeiro quadro, pintado rigorosamente em segredo, provocou inicial surpresa e ceticismo por parte de seus pais. Contudo, a dúvida familiar foi rapidamente superada quando o talento fulgurante de José Waldetaro se mostrou inquestionável, gerando admiração inconteste e, subsequentemente, diversas encomendas procedentes não apenas do Paraná, mas de diversos outros estados do Brasil. Essas solicitações formaram o primeiro reconhecimento público de sua habilidade impressionante, versátil e profundamente multifacetada.
Os pedidos de quadros dos mais variados estilos, técnicas e dimensões consolidaram-no definitivamente como artista plástico de destaque em Jacarezinho (PR) e em todas as regiões circunvizinhas. Os citadinos que viveram aquela época áurea relatam que Waldetaro era uma verdadeira celebridade local e regional, e que todas as famílias de destaque desejavam adquirir suas obras. Seus quadros estavam presentes nas residências dos mais importantes políticos, empresários e intelectuais da época. Sua dedicação era evidenciada e amplamente elogiada pelo engajamento genuíno com o mundo da arte, bem como por sua perspicácia, sensibilidade e investigação incessante em produzir arte de altíssima qualidade, capaz de agradar e comover públicos dos mais diversos perfis.
Todavia, esse dom extraordinário e essa versatilidade de estilos foram testados e provados de forma determinante quando ele começou a auxiliar o já consagrado artista plástico modernista Eugênio de Proença Sigaud (1899-1979) na pintura dos monumentais painéis sacros da Catedral Diocesana de Nossa Senhora da Conceição de Jacarezinho, no norte pioneiro do Paraná. O acervo histórico, espiritual e cultural da Catedral Imaculada Conceição, cuja edificação foi inaugurada em 8 de outubro de 1949, tendo sua pedra fundamental assentada em 17 de julho de 1942, abriga obras de arte de valor inestimável.
Atualmente, a Catedral Diocesana de Jacarezinho é tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). O ato de tombamento abrange integralmente o seu acervo artístico interno, destacando-se as pinturas murais que cobrem cerca de 600 metros quadrados, reconhecidas como um dos mais importantes conjuntos artísticos e arquitetônicos de arte sacra do Paraná e do Brasil. A data oficial do tombamento é 14 de dezembro de 1990, com inscrição de número 08 no histórico Livro do Tombo das Belas Artes.
A Catedral é, por si só, um tesouro que encanta a todos pela grandiosidade, imponência e rara beleza estrutural. Possui 67 metros de comprimento e 22 metros de largura, construída no majestoso formato de basílica com pilares em forma de cruz. O Patrimônio Artístico Tombado é de valor incalculável, com painéis gigantescos pintados à mão apresentando murais que atingem até 15 metros de altura em relação ao solo e figuras humanas que chegam a três metros de altura, capazes de cativar instantaneamente qualquer observador.
Abre-se aqui um detalhe cronológico fascinante: o dia do tombamento (14 de dezembro de 1990) ocorreu exatamente na véspera do aniversário de José Waldetaro, nascido em Botelhos (MG), em 15 de dezembro de 1935. Tratava-se do homem sem o qual não existiriam as obras de arte em referência na forma e riqueza como hoje são conhecidas. Considerando a diferença de apenas um dia entre o aniversário do artista e a data oficial do tombamento, estabelece-se uma bela coincidência poética e uma justa reverência, como se o ato legal de preservação do patrimônio público estivesse intrinsecamente entrelaçado à celebração do 55º aniversário daquele que contribuiu de maneira direta e crucial para a existência daquela obra monumental.
A memória comunitária de Jacarezinho aponta categoricamente que o mineiro radicado no Paraná trabalhou árdua e diretamente na pintura dos incríveis murais do templo. Ele auxiliou de forma definitiva em distintos aspectos, atuando na execução prática, na preparação técnica e em diversas sugestões conceituais que levaram à conclusão bem-sucedida daquela grande empreitada. Para a história cultural paranaense, ter um morador local imortalizado nas próprias obras que ajudou a criar é algo sem precedentes.
A presença física, intelectual e espiritual de Waldetaro nas pinturas murais é parte viva da história oral e visual da Catedral. Ele não apenas ajudou na execução diária, mas também emprestou sua própria imagem como modelo vivo e seu vasto conhecimento religioso. O tombamento do conjunto executado entre 1954 e 1957 consagra o que é considerado um dos maiores e mais ousados acervos de arte sacra modernista do País. O artista atuou como colaborador direto na execução, posou como modelo vivo emprestando sua silhueta e feições a diversas figuras retratadas nas cenas bíblicas, e contribuiu ativamente com sugestões iconográficas embasadas em seu profundo conhecimento da fé católica.
Reconhecer essa contribuição, além de enriquecer a compreensão da história da Catedral, valoriza os protagonistas locais e abre espaço fundamental para pesquisas acadêmicas e iniciativas formais de resgate histórico. Para consolidar documentalmente essa narrativa, recorre-se aos arquivos da Diocese de Jacarezinho, aos jornais locais da década de 1950, aos depoimentos dos moradores antigos e aos estudos acadêmicos sobre a arte sacra no Paraná. Fato é que ele deixou sua marca pessoal indelével como executor, modelo vivo e conselheiro iconográfico, permanecendo eterno na memória cultural da cidade.
Sua aproximação da Catedral ocorreu também em função de laços institucionais e afetuosos com o clero local. Eugênio de Proença Sigaud era irmão do Bispo da Diocese de Jacarezinho, Dom Geraldo de Proença Sigaud (1909-1999). Dom Geraldo conhecia muito bem o jovem morador, que havia sido aluno no respeitado Colégio Cristo Rei, reconhecendo nele qualidades artísticas excepcionais aliadas a uma sólida formação na história e teologia católica.
Além da recomendação entusiasta do Bispo, houve a intervenção decisiva do Padre Magno Sauter (1908-1959), influente professor de Matemática e Desenho do Ginásio Cristo Rei e seu diretor por diversas gestões. O Padre Magno, conhecido por ser austero, exigente e de extrema competência, já havia identificado no jovem aluno a precisão cirúrgica e a qualidade nos detalhes dos desenhos que executava. Tanto Dom Geraldo quanto o Padre Magno acreditavam firmemente que a associação entre o dom artístico de Waldetaro e seus conhecimentos litúrgicos seria essencial para contrabalançar o fato de Eugênio de Proença Sigaud declarar-se ateu convicto e possuir pouca familiaridade com os ritos católicos.
O resultado dessa aliança não poderia ter sido diferente: a obra resultante ficou monumental, exuberante e profundamente significativa. José Waldetaro atuou como um verdadeiro filtro e consultor religioso, garantindo que as passagens bíblicas fossem retratadas com a fidelidade teológica adequada a um templo católico. Uma das características mais audaciosas e inovadoras dos murais foi a representação de cidadãos comuns de Jacarezinho como personagens das narrativas sagradas (ideia humanista que partiu diretamente de sugestões do artista mineiro Waldetaro).
Ao escolher moradores locais cujos biotipos se assemelhavam às figuras sacras clássicas, ele exerceu um papel social e antropológico divisor de águas: aproximou o sagrado do cotidiano popular e transformou as paredes do templo em um documento visual dos costumes e fisionomias da população paranaense dos anos 1950. A inserção da comunidade nos painéis permite que, ainda hoje, famílias inteiras identifiquem seus antepassados nas cenas sagradas, criando um elo afetivo e espiritual entre a sociedade e a basílica.
Além de sua contribuição teológica e composicional, o artista serviu como modelo vivo para Sigaud. Em diversas composições, como no imponente mural do Sermão da Montanha, a silhueta, o perfil e as feições de José Waldetaro estão nitidamente imortalizados. Essa participação física demonstra que sua entrega à obra foi total, indo além da técnica para se transformar em um ato de doação pessoal. Mais do que um auxiliar técnico, ele foi coautor iconográfico, agente de aproximação comunitária e inspiração viva.
O processo de criação dos 43 murais (que cobrem o pórtico, o nártex, a nave principal, as naves secundárias, o transepto, as capelas e o altar-mor) ocorreu sob condições físicas e ambientais extremamente adversas. Enfrentando as altas temperaturas e o clima abafado do Norte do Paraná, os dois artistas trabalhavam sobre andaimes de madeira arcaicos e instáveis, suspensos a cerca de 15 metros do chão. Frequentemente, precisavam pintar deitados de costas para alcançar o teto e as partes mais altas das paredes rústicas, enquanto as missas e cerimônias religiosas aconteciam normalmente no piso térreo.
Dom Geraldo de Proença Sigaud relatou certa vez, com tom bem-humorado, que de tempos em tempos os paroquianos reclamavam porque gotas de tinta ou de suor dos artistas caíam sobre eles lá de cima. Dessa rotina exaustiva de jornadas diárias de dez a 12 horas (que frequentemente se estendiam pela madrugada, quando não havia mais paroquianos embaixo), nasceu uma amizade profunda e um respeito mútuo inabalável entre o jovem católico de 19 anos e o maduro pintor de 55. Anos mais tarde, Eugênio Sigaud declararia com emoção que o mineiro Waldetaro fora o seu único e verdadeiro pupilo em toda a sua vida.
O acervo de Jacarezinho guarda também mistérios e simbolismos tocantes. Entre as dezenas de painéis acabados, existe um enorme espaço emoldurado que permaneceu inteiramente em branco. Especula-se que o local fora reservado para a cena da Ressurreição de Cristo, cuja pintura não se concretizou devido a um desentendimento posterior entre os irmãos Sigaud. Em diversas ocasiões ao longo das décadas seguintes, José Waldetaro foi formalmente convidado por autoridades eclesiásticas a concluir a pintura do painel em branco. Contudo, demonstrando uma ética exemplar e lealdade incondicional ao seu mestre, recusou categoricamente todas as propostas, mantendo o espaço exatamente como Eugênio o deixara. Por outro lado, os ornamentos estilizados espalhados pelas paredes (peixes, estrelas de Davi, ramos de palmeira, flores-de-lis e os marcantes ramos de café que homenageavam a cafeicultura regional) foram sugeridos pelo Padre Magno Sauter e prontamente endossados e aplicados por Waldetaro.
A realização dos murais envolveu também uma complexa engenharia de materiais e de execução. Pintar a óleo sobre superfícies de reboco bruto em um edifício de grandes proporções exigiu conhecimentos profundos de química de materiais, taxas de diluição, aderência, resistência e homogeneidade do pigmento. Tanto Eugênio Sigaud, que era arquiteto de formação, quanto José Waldetaro, que por conta própria estudou resistência dos materiais e química aplicada à pintura, precisaram planejar minuciosamente a viabilidade estrutural da obra. Sem esse rigor metodológico e científico, as pinturas não teriam suportado a ação do tempo nem preservado sua vivacidade por mais de sete décadas.
Encerrados os trabalhos na Catedral em 1957, os caminhos dos dois artistas tomaram rumos distintos. Sigaud retornou ao Rio de Janeiro, dando sequência à sua carreira de pintor e professor. Já José Waldetaro Moura e Dias fixou residência definitiva em Curitiba, onde constituiu família e residiu até o seu falecimento em 5 de outubro de 2026, aos 90 anos de idade. Influenciado pelo Padre Magno Sauter, que identificara nele um talento notável para a manipulação dos números, concluiu o curso de Contabilidade ainda em Jacarezinho e seguiu uma carreira de grande prestígio como contador. Construiu uma sólida trajetória profissional no Banco do Estado do Paraná (Banestado) e na Associação dos Engenheiros Agrônomos do Estado do Paraná, aposentando-se na área contábil, profissão que exerceu com extrema paixão e rigor, sem jamais abandonar as artes plásticas e a literatura.
Longe de interromper sua criação artística, a aposentadoria e os anos seguintes em Curitiba representaram um período de intensa produção. Manteve o hábito de estudar profundamente as obras de grandes mestres como Candido Portinari (1903-1962), Almeida Júnior (1850-1899) e Castagneto (1851-1900). Produziu milhares de releituras e obras originais nas mais diversas linguagens: óleos sobre tela e madeira, afrescos, aquarelas, acrílicas sobre papel, desenhos em grafite, carvão e nanquim, esculturas tridimensionais, fotografias analógicas e montagens fotográficas. Estima-se que seu acervo total ultrapasse 5 mil obras, hoje presentes em coleções particulares, acervos públicos e galerias pelo Brasil e no exterior. Sua forte ligação com a Galeria de Artes do Banestado garantiu-lhe projeção destacada e a carinhosa alcunha institucional de "Artista do Banestado". Ele também participou ativamente do prestigiado Concurso Banco Real (Talentos da Maturidade), no qual foi recorrentemente premiado, tanto na categoria de Artes Plásticas quanto em Artes Literárias.
Nas letras, construiu uma obra poética vasta e profunda. Em 2003, publicou o livro de poesias “Pensamentos em palavras” (ISBN 85-88925-03-6), pertencente ao acervo da Biblioteca Nacional, obra na qual estabeleceu ricas conexões entre a poética da consciência e a celebração da vida comum. O livro oficializou em sua biografia a intersecção perfeita entre liberdade estilística, entusiasmo criador e reflexão filosófica sobre a existência cotidiana. A lírica de Waldetaro apresenta-se como uma síntese única entre a liberdade formal e a profundidade existencial. Além desse volume publicado, deixou um acervo inédito com centenas de poemas, cujo volume é suficiente para a edição de pelo menos dois ou três novos livros.
A trajetória de José Waldetaro Moura e Dias é extraordinária pela rara e harmoniosa confluência entre a precisão analítica da contabilidade, a sensibilidade expressiva das artes plásticas e a elevação filosófica da poesia. Autodidata por excelência nessas três frentes, construiu um legado centrado no talento e na capacidade de criar. Ele viveu a história de forma ativa e generosa, deixando um testemunho de vida que transcende a idade, os limites profissionais e o tempo.
Falar da História da Arte do Paraná e da Catedral de Jacarezinho sem ressaltar com justiça e riqueza de detalhes o nome e as contribuições de José Waldetaro Moura e Dias seria incorrer em uma grave omissão histórica. Sua memória, sua obra e seu exemplo permanecem vivos e eternos, inspirando as atuais e as futuras gerações.

Carlos Magno Corrêa Dias é professor, pesquisador, conselheiro consultivo do Conselho das Mil Cabeças da CNTU, conselheiro sênior do então Conselho Paranaense de Cidadania Empresarial (CPCE) do Sistema Fiep (atual Conselho de Responsabilidade Social do Sistema Fiep), líder/fundador do Grupo de Pesquisa em Desenvolvimento Tecnológico e Científico em Engenharia e na Indústria (GPDTCEI) do CNPq, líder/fundador do Grupo de Pesquisa em Lógica e Filosofia da Ciência (GPLFC) do CNPq, personalidade empreendedora do Estado do Paraná pela Assembleia Legislativa do Estado do Paraná (Alep)






