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25/03/2026

O conflito entre a alta performance e a saúde mental no mercado tecnológico

Carlos Magno Corrêa Dias

 

Imagem: FreepikAtualmente a fronteira entre o físico e o digital não é apenas tênue; é praticamente inexistente. Vive-se a era da Inteligência Artificial (IA) generativa, onde a produtividade é medida por algoritmos e as relações humanas são mediadas por telas.

 

Contudo, a correspondente evolução tecnológica traz consigo paradoxos profundos: ao mesmo tempo em que o homem dispõe de ferramentas neurocientíficas para otimizar o cérebro, a humanidade enfrenta uma epidemia de produtividade tóxica e desafios éticos e legais sem precedentes, como, por exemplo, o avanço vertiginoso do cyberbullying e a pressão estética das redes sociais.

 

Pode-se dizer que o cenário contemporâneo é definido por uma convergência sem precedentes entre os avanços da neurociência, a onipresença da IA e transformações profundas nas relações de trabalho. À medida que se navega nos fatos, torna-se essencial compreender como as atuais forças moldam não apenas a produtividade, mas também o bem-estar psíquico e a estrutura das futuras gerações.

 

A neurociência atual oferece ferramentas valiosas para a compreensão dos processos humanos cognitivos e tomada de decisão. Ao identificar padrões comportamentais, é possível otimizar rotinas e gerenciar recursos mentais de forma estratégica. Entretanto, enfrentam-se dois grandes obstáculos: a desinformação e a produtividade tóxica.

 

O mercado contemporâneo é saturado de promessas de Biohacking e fórmulas mágicas de eficiência que carecem de rigor científico. O caminho para uma performance sustentável exige o filtro de profissionais de referência.

 

Entrar no mundo do Biohacking é como caminhar por um conflito: de um lado, existem cientistas sérios oferecendo o resultado de trabalho árduo realizado para otimizar a biologia dos seres humanos; de outro, os “mágicos” (os “alquimistas” modernos) fazendo de tudo para vender fórmulas ilusionistas em embalagens minimalistas.

 

O Biohacking, também conhecido como “biologia faça você mesmo”, é a prática de otimizar o corpo e a mente por intermédio de mudanças no estilo de vida, dieta, suplementação e tecnologias, visando maximizar o desempenho, a longevidade e a saúde.

 

Semelhante abordagem abrange desde hábitos simples, como ajustes no sono, jejum, meditação e nutrição estratégica, até métodos intermediários que utilizam nootrópicos, banhos de gelo e dispositivos de monitoramento de Biofeedback. Em níveis mais avançados, o Biohacking envolve intervenções complexas, como implantes tecnológicos, rastreamento genético e monitoramento de biomarcadores.

 

Embora os praticantes do Biohacking busquem alcançar o máximo potencial humano e foco cognitivo, a prática exige cautela e orientação médica, uma vez que procedimentos não supervisionados podem causar deficiências nutricionais, dependência de substâncias e efeitos colaterais graves.

 

No correspondente imbróglio formado, o grande problema não é o desejo de melhorar, mas a pressa em pular etapas fundamentais usando atalhos que a ciência ainda não validou (e que muito tempo levará até serem totalmente refutados ou desencadearem série de questionamentos associados).

 

As promessas de eficiência extrema costumam cativar bastante, mas falham, inevitavelmente, devido à conjunção dos seguintes motivos principais: reducionismo biológico; efeito placebo e anedotas; e marketing de escassez. 

 

Esquece-se que o corpo humano não é um computador e, portanto, não há como se instalar um driver (um suplemento) para se ganhar mais velocidade ou potência.

 

No Biohacking o relato pessoal substitui o grupo de controle. Se alguém diz que se sente um gênio após tomar um nootrópico sem comprovação, isso é evidência anedótica, não rigor científico. Muitas das fórmulas são vendidas como “segredos do Vale do Silício”, criando um senso de urgência que ignora a segurança a longo prazo. Assim, geralmente, quando o rigor científico é deixado de lado, o risco migra do bolso para a saúde.

 

Todavia, a busca obsessiva pela produtividade ininterrupta compromete a saúde mental, levando ao esgotamento. A neurociência sugere que o cérebro necessita de períodos de repouso e desconexão para consolidar o aprendizado e manter a criatividade.

 

A busca pela produtividade ininterrupta é o que muitos especialistas chamam de “toxicidade da performance”. É a ideia de que o valor de um ser humano é medido exclusivamente pelo seu output (sua entrega), transformando o descanso em culpa e o lazer em perda de tempo.

 

O problema central é que se está tentando rodar um software de alta performance (a mente humana moderna) em um hardware que não mudou muito nos últimos milhares de anos (o cérebro biológico).

 

Quando se ignoram os limites biológicos em nome da eficiência, entra-se em um ciclo perigoso que a ciência já descreveu muito bem, pois o cérebro humano possui duas redes principais: a de foco (Executive Network) e a de repouso (Default Mode Network). Quando se força o foco sem interrupções, bloqueia-se a rede de repouso, que é justamente onde ocorre a criatividade e a consolidação da memória.

 

Ao se tentar ser produtivo em várias frentes simultaneamente, não se economiza tempo; na verdade, gera o que se denomina “custo de troca”. O cérebro gasta energia extra para reorientar a atenção, levando à fadiga mental precoce.

 

A correspondente obsessão mantém o corpo em estado de alerta constante. O cortisol elevado por longos períodos degrada o sistema imunológico e prejudica o sono, criando um efeito dominó que culmina no Burnout.

 

Então é importante diferenciar a dedicação saudável da obsessão autodestrutiva que causa distúrbios como: (1) o lazer gera ansiedade; (2) o sono passa a ser visto como luxo; (3) a autoestima depende inteiramente da lista de tarefas cumpridas no final do dia.

 

Claro que o antídoto não é a pura e simples inatividade, mas o rigor com a recuperação. Assim como um atleta de elite sabe que o músculo cresce no descanso e não no treino, a mente só atinge o ápice se tiver períodos de desconexão total.

 

Por isso, existem estratégias de defesa mental, tais como: (a) ócio criativo: reserva de momentos nos quais o objetivo é “não ter objetivo”; o que permite que o cérebro processe informações de forma subconsciente; (b) limites digitais: estabelecimento de horários de “apagão digital” nos quais não se permite o uso das tecnologias usuais; (c) foco no processo: valorizar o aprendizado e a execução, em vez de apenas mirar no resultado.

 

Alerta-se para o fato que a maior ironia da produtividade obsessiva é que ela é contraproducente. Uma mente esgotada produz menos, erra mais e perde a capacidade de julgamento crítico. Estar ocupado não é o mesmo que ser útil.

 

Entretanto, a lógica é, inevitavelmente, aliada poderosa contra o Biohacking, dado que pode funcionar como um filtro para identificar falácias em promessas vazias. Assim, é dito que para se desconstruir as falsas promessas de eficiência, pode-se aplicar o rigor da análise lógica sobre o discurso do Biohacking e da produtividade tóxica.

 

A desconstrução de promessas de produtividade absoluta revela falácias lógicas fundamentais, como a confusão entre condições necessárias e suficientes, ao sugerir que substâncias isoladas garantiriam alta performance cognitiva. Como a inteligência e o foco são multifatoriais, o erro da simplificação excessiva ignora que estar desperto é apenas um pré-requisito, não a garantia de eficiência.

 

Da mesma forma, a proposta de aumentar a produção reduzindo o descanso constitui uma contradição biológica, visto que a restauração neural é o input essencial para o output cognitivo. Pelo método da reductio ad absurdum, conclui-se que a premissa da produtividade ininterrupta é falsa, pois o limite lógico de tal sistema seria o trabalho perpétuo, o que levaria inevitavelmente ao colapso de qualquer organismo biológico finito.

 

Em contrapartida, a estruturação de um projeto sob a ótica da sustentabilidade mental exige que a entrega seja submetida à viabilidade do executor, substituindo listas infinitas pela aplicação do “Princípio de Pareto”. Ao identificar os 20% de esforços que geram 80% dos resultados e limitar o foco a três marcos críticos diários, estabelece-se um escopo realista.

 

Essa abordagem é reforçada pela criação de blocos de trabalho profundo seguidos de desconexão total, permitindo que o cérebro processe informações em períodos de baixa entropia. Nesse modelo, o descanso deixa de ser uma concessão e passa a ser tratado como uma tarefa obrigatória e uma variável dependente da produtividade a longo prazo, uma vez que a ausência de recuperação reduz a eficiência futura a zero.

 

Para garantir a continuidade desse equilíbrio, a gestão do desempenho deve integrar indicadores de saúde, como a qualidade do sono e a capacidade de desconexão, aos tradicionais indicadores de progresso. O raciocínio lógico-sustentável estabelece que se a clareza mental é necessária para a tomada de decisão eficaz e o esgotamento elimina essa clareza, evitar o Burnout torna-se um requisito lógico para a manutenção da eficácia. Portanto, ao aplicar essa conclusão na prática, o descanso é ressignificado de uma suposta perda de tempo para um componente estratégico e indispensável da eficiência operacional.

 

Todavia, os desafios digitais (como o cyberbullying) comprometem a saúde mental, gerando problemas que exigem resposta multidisciplinar nos campos do Direito, Psicologia e Educação.

 

No Brasil, a Lei 14.811/2024 estabelece que o bullying e o cyberbullying, tipificados no Código Penal, são passíveis de penas de prisão para agressores virtuais e responsabiliza administradores de comunidades digitais. Países como China e EUA já avançam na obrigação de as plataformas implementarem mecanismos de detecção precoce de ataques.

 

A Psicologia é vital para mitigar transtornos como ansiedade, depressão e ideação suicida em vítimas que frequentemente sofrem em silêncio. Educadores e responsáveis devem estar atentos a sinais como o isolamento social e mudanças bruscas de humor, bem como dificuldade em formar laços ou recusa escolar injustificada.

 

Mas as tendências do mercado de trabalho contemporâneo estão intrinsecamente atreladas à evolução das culturas organizacionais e aos acelerados desenvolvimentos tecnológicos. Esse binômio, que redefine constantemente as relações de produção, caminha em convergência com a adoção de benefícios criativos e políticas de bem-estar, ferramentas essenciais para mitigar as tensões inerentes ao ambiente laboral e promover a saúde mental dos colaboradores. Num cenário em evolução, as tecnologias deixam de ser apenas um suporte operacional para se tornar o alicerce de modelos de gestão mais flexíveis e humanizados.

 

A experiência disruptiva da pandemia de Covid-19 consolidou o regime de trabalho remoto e híbrido como divisores de águas na gestão de pessoas. Invariavelmente, essa transição impôs alterações profundas nas estratégias de retenção de talentos, uma vez que o conceito de pertencimento foi desvinculado do espaço físico. Atualmente a capacidade de uma empresa em manter seus especialistas depende da sua habilidade em equilibrar a eficiência técnica com uma cultura que valorize a autonomia, a flexibilidade e o propósito, transformando o home office em um pilar estratégico da sustentabilidade corporativa.

 

A revolução da IA foi também um fenômeno que promoveu mudanças (disrupções) profundas na forma de trabalho. A IA deixou de ser uma promessa para se tornar um requisito básico, sendo, frequentemente, a partir do lançamento do ChatGPT, exigido conhecimento sobre o manuseio de ferramentas de Inteligência Artificial. A IA possibilitou que fossem criadas interfaces (homem-máquina) mais naturais e intuitivas.

 

Entendimentos como a necessidade de melhorar a acessibilidade de forma a ocorrer redução de custos, permitindo a adoção por indivíduos e pequenas empresas, foco em proteger sistemas de contra-ataques cibernéticos complexos, bem como o uso de IA para filtrar talentos e automatizar candidaturas (Rage Applying), transformaram em muito o mundo do trabalho atual.

 

Mas, em um mercado de trabalho hipercompetitivo, o branding pessoal (a construção estratégica da imagem e de diferenciais) tornou-se essencial para quem busca liderança. Diferente do marketing pessoal (que foca na divulgação), o branding pessoal trata da essência e consistência da identidade profissional.

 

A gestão da trajetória profissional contemporânea exige uma compreensão sofisticada da dualidade entre o branding pessoal e o marketing pessoal, conceitos que, embora intrinsecamente ligados, operam em dimensões distintas da identidade e da visibilidade. O branding pessoal constitui a camada estratégica e profunda, assemelhando-se à fundação de uma estrutura intelectual. Ele se dedica à construção da promessa de valor, fundamentada na autenticidade, nos princípios éticos e na singularidade técnica que o indivíduo cultiva ao longo de sua vida. É, em essência, a gestão da percepção e do legado, respondendo à pergunta fundamental sobre quem o profissional é e qual a marca indelével que ele deixa em sua área de atuação, independentemente das oscilações conjunturais do mercado.

 

Em contrapartida, o marketing pessoal atua como o braço tático e comunicativo dessa identidade, focando na promoção e na visibilidade das competências em contextos específicos. Enquanto o branding é sobre o “ser” e a substância, o marketing é sobre o “aparecer” e a forma, utilizando ferramentas como a oratória, o networking, a presença digital e a apresentação pessoal para garantir que o valor interno seja devidamente percebido pelo público-alvo. O marketing pessoal transforma o potencial silencioso do branding em uma mensagem ativa e atraente, capaz de gerar oportunidades imediatas e abrir portas em ambientes altamente competitivos, funcionando como o veículo que transporta a reputação até o seu destino.

 

A eficácia plena de um profissional reside, portanto, na sinergia harmônica entre estas duas esferas, evitando o descompasso que ocorre quando há promoção sem substância ou competência sem visibilidade. Um branding pessoal sólido sem o suporte do marketing pessoal resulta em um talento anônimo, cuja autoridade fica restrita a círculos limitados. Por outro lado, o marketing pessoal desprovido de uma estratégia de branding sólida cria uma imagem frágil e efêmera, que sucumbe diante da primeira análise técnica mais rigorosa. A excelência na carreira é alcançada quando a promoção externa é o reflexo exato da identidade interna, estabelecendo uma relação de confiança e credibilidade que sustenta o crescimento contínuo e o reconhecimento pelos pares e pela sociedade.

 

Não se poderia, em se tratando de elencar estratégias sobre a atuação profissional, deixar de se apresentar comentários sobre as chamadas habilidades em alta (tech, green & soft skills) e sobre sucessão geracional.

 

O mercado de trabalho contemporâneo atravessa uma metamorfose profunda, onde a valorização das competências técnicas em dados e sustentabilidade, embora essenciais, já não garante a longevidade de uma carreira de liderança. No topo da pirâmide corporativa, o verdadeiro diferencial reside em soft skills, especificamente na inteligência emocional e na gestão estratégica do tempo.

 

Enquanto as hard skills fornecem a base operacional para lidar com a complexidade tecnológica, são as habilidades interpessoais que permitem a mediação de conflitos e a manutenção da coesão em equipes híbridas e multiculturais. Nesse cenário, o conceito de Lifelong Learning deixa de ser um diferencial competitivo para se tornar uma regra de sobrevivência, exigindo que o profissional se mantenha em um estado de aprendizado contínuo para não ser atropelado pela obsolescência funcional.

 

Contudo, a dinâmica de constante atualização ocorre em meio a um visível choque de gerações. Atualmente observa-se um conflito entre gestores tradicionais e a Geração Z, frequentemente rotulada como menos engajada por priorizar o equilíbrio entre vida pessoal e profissional.

 

Dados de pesquisas revelam uma realidade distinta: os jovens da Geração Z são altamente motivados por valores éticos e sofrem com uma insegurança financeira real, fruto de um custo de vida elevado que não afligiu as gerações anteriores da mesma forma. O que muitos interpretam como falta de compromisso é, na verdade, uma busca por propósito e uma reação pragmática à instabilidade econômica global.

 

No futuro imediato começa-se a receber a Geração Beta, que já viverá em um ecossistema onde a IA é normal (e invisível). Para os novos indivíduos (especialmente para os profissionais), o transumanismo (o aprimoramento das capacidades humanas via tecnologias) será encarado com total naturalidade, eliminando as barreiras entre o biológico e o digital.

 

A nova geração deverá consolidar, também, uma nova tendência de consumo voltada para bens etéreos e não materiais, priorizando a simplicidade e a sustentabilidade diante dos limites climáticos severos que o planeta impõe. A posse de objetos cederá lugar ao acesso e à experiência, moldando um mercado focado no impacto e na regeneração ambiental.

 

Como resposta ao esgotamento dos ambientes desafiadores, surge a filosofia do Quiet Thriving (ou prosperidade silenciosa). Diferente do Quiet Quitting, onde o colaborador se limita ao mínimo necessário, o Quiet Thriving propõe que o profissional tome as rédeas de sua própria jornada, moldando suas atividades e estabelecendo limites saudáveis que protejam sua saúde mental.

 

Ao cultivar amizades e encontrar (micro) propósitos no cotidiano, o profissional conseguirá se desenvolver mesmo em estruturas rígidas. O futuro exigirá um mindset digital apurado, mas o novo modelo nunca deverá se sobrepor à empatia.

 

As tecnologias deverão ser ferramentas de suporte à experiência humana, garantindo que o progresso técnico nunca caminhará isolado do cuidado com o bem-estar coletivo.

 

Carlos Magno Corrêa Dias é professor, pesquisador, conselheiro consultivo do Conselho das Mil Cabeças da Confederação Nacional dos Trabalhadores Liberais Universitários (CNTU), conselheiro sênior do então Conselho Paranaense de Cidadania Empresarial (CPCE) do Sistema Fiep (atual Conselho de Responsabilidade Social do Sistema Fiep), líder/fundador do Grupo de Pesquisa em Desenvolvimento Tecnológico e Científico em Engenharia e na Indústria (GPDTCEI) do CNPq, líder/fundador do Grupo de Pesquisa em Lógica e Filosofia da Ciência (GPLFC) do CNPq, personalidade empreendedora do Estado do Paraná pela Assembleia Legislativa do Estado do Paraná (Alep)

 

 

 

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