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19/03/2026

Engenheiras na linha de frente das soluções ambientais

CONTEÚDO ESPECIAL

 

Rita Casaro – Comunicação SEESP

 

Profissionais que atuam em diferentes áreas da engenharia e da pesquisa ambiental destacam desafios e avanços na participação feminina e apontam o papel das mulheres na construção de soluções de mitigação e adaptação, assim como para a busca de novos modelos de desenvolvimento e organização urbana.

 

Tabela EngGeneroA presença feminina nas áreas técnicas relacionadas ao meio ambiente tem crescido nas últimas décadas, o que se notabiliza não exclusivamente, mas também pela participação das mulheres nas engenharias ambientais, que atinge 43%. No conjunto das modalidades, para se ter uma ideia, elas representam apenas 20% do total de profissionais registrados no Sistema Confea/Creas.

 

Embora ainda existam vários obstáculos relacionados à questão de gênero, as engenheiras e pesquisadoras têm assumido papel cada vez mais relevante na agenda ambiental. A atuação se dá em várias frentes, inclusive no crescente campo da consultoria a empresas que precisam ser posicionar adequadamente no mercado, na produção científica, na formulação de políticas públicas ou na atuação direta em projetos de mitigação e adaptação.

 

Com isso, as profissionais têm tido a oportunidade de dar sua contribuição efetiva ao enfrentamento de um dos grandes desafios da humanidade, a crise climática que ameaça a vida humana no planeta.

 

Para marcar o Mês Internacional da Mulher e o Dia Nacional da Conscientização sobre as Mudanças Climáticas (16/3), o SEESP convidou engenheiras, incluindo três dirigentes da entidade, que atuam nesse tema, a partir de diferentes experiências e formação, para falarem sobre as possibilidades e os desafios da inserção feminina na construção de soluções ambientais.

 

As trajetórias e reflexões dessas profissionais mostram que ampliar a presença feminina na engenharia e nas áreas tecnológicas em geral não é apenas uma questão de igualdade. Trata-se também de fortalecer a capacidade da sociedade de construir respostas mais diversas e eficazes para garantir prosperidade com sustentabilidade e justiça social. Confira!

 

 

 

Silvana GuarnieriSilvana Guarnieri
Engenheira civil com especialização em saneamento básico. Diretora do SEESP, coordenadora do Núcleo da Mulher Engenheira (NME) da entidade, conselheira do Conselho Regional de Engenharia e Agronomia de São Paulo (Crea-SP) e ex-vice-prefeita de Diadema.

 

Tenho visto mais mulheres atuando na área de resíduos sólidos, principalmente em planejamento, gestão e monitoramento. Na operação direta dos aterros ainda é mais difícil, mas aos poucos esse espaço também vem se ampliando.  

 

Na logística da coleta, por exemplo, já vemos mulheres dirigindo caminhões de lixo. Nas cooperativas de reciclagem também há presença feminina significativa, muitas vezes em condições difíceis de trabalho. 

 

Para ampliar a presença das engenheiras nos espaços de decisão, é essencial participar do processo político. Quem define as políticas públicas está nas prefeituras e nos governos.

 

Quando comecei a faculdade, éramos cerca de 5% de mulheres. Hoje esse número já chega a 20% ou 25% e tende a crescer ainda mais.”

 

Suzana KahnSuzana Kahn Ribeiro
Engenheira mecânica, é diretora do Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Coppe/UFRJ). Participando desde 2007 da elaboração dos relatórios do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC), integrou naquele ano o grupo de cientistas agraciado com o Nobel da Paz pela dedicação a estudos sobre mudanças do clima e o aquecimento global. Entre 2008 e 2015 foi vice-presidente da instituição.

 

A presença de mulheres na engenharia tem aumentado, principalmente no ambiente acadêmico e de pesquisa. Na própria diretoria da Coppe temos várias mulheres. Isso tende a crescer naturalmente, porque cada vez mais mulheres ingressam nas universidades. Hoje, inclusive, o número de mulheres no ensino superior já supera o de homens, não na engenharia, mas em várias áreas.

 

Onde ainda há mais dificuldade é no setor privado. Muitas vezes as pessoas tendem a contratar quem se parece com elas. Se o ambiente é majoritariamente masculino, essa lógica acaba reproduzindo o mesmo perfil e o ciclo não se rompe.

 

Para além da questão de gênero, é importante estimular a diversidade. Ambientes mais diversos trazem diferentes visões e experiências e tendem a produzir soluções mais completas e mais bem fundamentadas.”

 

 

Marcellie DessimoniMarcellie Dessimoni Giratola
Engenheira ambiental e sanitária, consultora em ESG, vice-presidente do SEESP e diretora de Valorização Profissional do Conselho Regional de Engenharia e Agronomia de São Paulo (Crea-SP).

 

Tem muito espaço para as mulheres atuarem. A área da crise climática abre um campo enorme de trabalho. Existem políticas públicas, programas e linhas de financiamento voltadas a projetos ambientais e de sustentabilidade.

O reconhecimento profissional vem pela qualificação. Quando você demonstra domínio técnico, passa a ter respeito e espaço para atuar. E é uma área com muitas mulheres. Acredito que nós estamos muito mais ligadas a essas questões, vivemos mais as realidades com as comunidades. Então eu sinto que, por este motivo, muitas mulheres escolhem fazer engenharia ambiental e sanitária.

 

Mas é óbvio que temos questões de gênero nos processos de seleção para contratação. Eu já participei de entrevistas em que a pergunta era: ‘você quer ter filhos?’ Então, é uma coisa que existe, ela é real.”

 

Fran Paula 2Franciléia Paula de Castro (Fran Paula)
Engenheira agrônoma, doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais em Desenvolvimento, Agricultura e Sociedade da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ). Pesquisa os impactos dos agrotóxicos na saúde e no ambiente, agriculturas ancestrais e racismo nos sistemas agroalimentares. Integra a Coordenação Nacional das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (Conaq). 

 

Eu sou uma mulher negra, quilombola e engenheira. São várias camadas sociais que atravessam a minha atuação.

 

Nos territórios quilombolas, as mulheres têm desenvolvido estratégias de sobrevivência, de resistência e de incidência política sobre a agenda socioambiental. A maioria dos coletivos e associações ligados à agricultura ou à luta por direitos é liderada por mulheres.

 

Essa luta não se faz sozinha. Eu mesma, enquanto pesquisadora e engenheira, preciso de redes de apoio e de processos coletivos. Ainda vivemos em um país marcado por racismo estrutural e profundas desigualdades sociais.

 

Ao mesmo tempo, vejo um movimento de mudança. Cada vez mais mulheres estão produzindo soluções ambientais e transformando a conjuntura social. Existe um campo enorme a ser fortalecido e acredito que, a partir das nossas ações locais, podemos ir mudando a realidade em nível nacional.”

 

Fatima BlockwitzFátima Blockwitz

Engenheira civil, atua na Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp). É presidente da Subsede do SEESP em Sorocaba, coordenadora da Câmara de Planejamento do Comitê de Bacia do Alto Paranapanema e conselheira do Conselho Regional de Engenharia e Agronomia de São Paulo (Crea-SP).

 

As mulheres têm uma relação muito forte com a questão da água. No Brasil, quem mais sofre com a falta de água e de saneamento são justamente as mulheres, especialmente as mais pobres e negras. Acredito que isso contribui para uma maior sensibilidade ambiental.

 

Durante muito tempo, eu mesma não percebia certas formas de discriminação. Foi a partir de conversas com minha filha que comecei a observar, por exemplo, quantas vezes mulheres são interrompidas quando estão falando. Hoje percebo que estamos sendo mais respeitadas e que também passamos a nos posicionar com mais firmeza.

 

Na área ambiental e de saneamento, acredito que as mulheres têm uma contribuição muito importante a oferecer.”

 

 

Jussara CarvalhoJussara Carvalho
Engenheira química com mestrado e doutorado em Políticas Públicas pela Universidade de São Paulo (USP). Coordenadora da Câmara Temática Nacional de Adaptação e Infraestrutura Verde do Fórum Brasileiro de Mudança Climática. 

 

A participação das mulheres tem melhorado, mas ainda há muito a avançar. Vivemos em ambientes bastante machistas, em que muitos cargos de comando continuam ocupados por homens.

 

A política, por exemplo, ainda é um espaço onde a violência de gênero acontece com muita intensidade. É um ambiente difícil. Por isso é fundamental que as mulheres se apoiem e caminhem juntas.

 

Mas não basta ser mulher. É preciso também ter sensibilidade para compreender essas questões e incorporá-las nas decisões. Experiências de gestão com liderança feminina têm mostrado resultados positivos em políticas de sustentabilidade.”

 

 

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