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Excelência, inclusão e diálogo com a sociedade

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Rita Casaro

 

Reitor Carlos Carlotti 12 22 Foto Cecília Bastos USP Imagem 50Carlos Gilberto Carlotti: “Se o País quiser melhorar seu Índice de Desenvolvimento Humano, precisa saber onde investir seu dinheiro.” Foto: Cecília Bastos/USPCarlos Gilberto Carlotti Junior assumiu o comando da Universidade de São Paulo, mais importante instituição de ensino superior e pesquisa do País, em 25 de janeiro com um programa de trabalho assentado no tripé: inovação, sustentabilidade e inclusão. No balanço dos primeiros seis meses como reitor, ele defende o esforço de ampliar a diversidade entre estudantes e professores e assegurar bem-estar à comunidade acadêmica como forma de contribuir com a manutenção da excelência que é marca da USP. Para concretizar os projetos nessa área, foi criada a Pró-reitoria de Inclusão e Pertencimento, cujas tarefas incluem buscar recursos para bolsas que assegurem a permanência dos alunos. 

 

Outro programa em andamento são os “Eixos Temáticos”, que visam ampliar e institucionalizar a colaboração entre a universidade e agentes externos, fazendo com que a produção de conhecimento possa se transformar em políticas públicas e desenvolvimento. Objetivo semelhante tem a nova Pró-reitoria de Inovação, adjunta à de Pesquisa. “A universidade precisa conversar mais com a sociedade, mostrar que colabora com a qualidade de vida das pessoas”, afirma. 

 

Nesta entrevista ao Jornal do Engenheiro, ele fala ainda sobre o impacto da redução do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Prestação de Serviços (ICMS), do qual sai o custeio da USP, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e parte dos recursos da Fundação de Amparo à Pesquisa de São Paulo (Fapesp). Pró-reitor de pós-graduação da USP até 2021, ele também lamenta as turbulências financeiras pelas quais vêm passando a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). “Você não consegue ter uma política, isso vai desarticulando o sistema, as pessoas vão desacreditando da pós-graduação, da carreira científica, isso compromete a longo prazo”, critica. 

 

Professor e ex-diretor da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto e do Hospital das Clínicas da cidade, Carlotti destaca o papel das universidades no combate à pandemia da Covid-19, ressaltando os estudos clínicos que possibilitaram a administração no Brasil da vacina Coronavac produzida no Instituto Butantan, além de outros esforços, como os respiradores desenvolvidos pela Escola Politécnica da USP. “O investimento na educação e na ciência não é um luxo, é uma necessidade para manter qualidade de vida”, defende. Confira a seguir e no vídeo ao final.

 

O senhor assumiu a reitoria da USP em janeiro com uma proposta de trabalho que se assenta no tripé inovação, sustentabilidade e inclusão. Qual o balanço desses seis meses à frente da universidade e qual a meta até o final do mandato?
Toda a nossa ação visa a excelência da universidade, buscamos excelência no ensino, na pesquisa, na extensão. A universidade fez um grande processo de inclusão que começou lá em 2010; em 2017 estabelecemos as cotas: 50% vêm de escola pública e, desses, 37,5% são pretos, pardos e indígenas. Essa forte inclusão tem que ser agora acompanhada de um processo de permanência estudantil, de pertencimento à universidade. Esse é um grande desafio desta gestão. Criamos uma Pró-reitoria de Inclusão e 557EntrevistaDestaques1Pertencimento para tratar desses assuntos, mas também da saúde mental e da qualidade de vida. O momento exige, a sociedade mudou e a universidade precisa cuidar dos seus alunos, professores e servidores de uma forma especial, qualificada. A pró-reitoria já está tratando de temas variados, por exemplo, busca de novas fontes de financiamento para as bolsas de permanência, fazendo programas de saúde mental, de esportes. Essa preocupação com a qualidade de vida das pessoas influencia a excelência da universidade. As melhores universidades do mundo também criaram pró-reitorias ou escritórios focados na qualidade de vida. Temos que deixar de ter somente os alunos com as melhores notas da Fuvest (vestibular para ingresso na USP) para ter aqueles com maior potencial de desenvolvimento dentro da sociedade. Mesmo que não tenha o ensino médio que deveria, o que é uma pena, que ele possa, dentro da universidade, desenvolver todo o seu potencial e chegar ao fim do seu curso de graduação ou pós-graduação em condições de excelência para colaborar com o desenvolvimento da sociedade. Esse é um trabalho que fala dos nossos tempos e precisa ser realizado. Outra preocupação é a questão de gênero. As mulheres ocupam boa posição na graduação e na pós, mas na docência o número já diminui e no final da carreira, entre professores titulares, a porcentagem é muito pequena. Todos esses itens precisam ser olhados para que possamos ter uma universidade de qualidade onde todos se sintam representados e o resultado seja de excelência. [Sobre] a inovação, a universidade cria muitas ideias, conceitos, produtos, mas tem dificuldade em transferir todo esse conhecimento para a sociedade. Criamos uma Pró-reitoria adjunta de Inovação, juntamente com a tradicional de Pesquisa, para estudar políticas de maior transferência para a sociedade, sejam empresas privadas ou setor público. A universidade precisa conversar mais com a sociedade, [mostrar] que colabora com a qualidade de vida das pessoas. Pretendemos ter esse tipo de ação não só no campus da Capital, mas também nos campi do interior.

 

Qual a expectativa com o Programa “Eixos temáticos”, lançado em abril?
Nós escolhemos alguns que eu acredito que a USP tenha bastante expertise naqueles assuntos. Escolhemos alguns professores para coordenar esses trabalhos e fizemos o edital para escolha de pós-doc para participar desse programa. Quando tiver o tema, o professor e o pós-doc escolhido, vamos apresentar à Assembleia Legislativa, ao Governo do Estado e às Prefeituras temas que eles gostariam de estudar conosco. Por exemplo, a USP tem expertise sobre destinação de resíduos sólidos, então vamos conversar com esses atores externos sobre qual tema [nessa área] eles gostariam de estudar para transformar numa política pública. Provavelmente, até meio de setembro já teremos condições de apresentar quais serão os temas escolhidos, qual a cooperação, qual o nosso potencial. É muito comum vários professores terem contato com agentes externos, a USP já faz muita colaboração, mas esse programa tem o objetivo de organizar e institucionalizar essa colaboração e intensificar os contatos.

 

Como a redução do ICMS sobre os combustíveis deve afetar o custeio e o trabalho das universidades paulistas?
O financiamento das três universidades paulistas, USP, Unicamp e Unesp, é baseado numa cota-parte do ICMS. Um pouco acima de 9% as três juntas, a USP fica ao redor de 5%. Esse valor depende da arrecadação do Estado. No ano passado, tivemos superávit em relação ao que estava programado vir para a universidade. A mesma coisa aconteceu nesses seis primeiros meses de 2022, [então] não vai haver comprometimento do orçamento, mas nos preocupam os anos vindouros. Quando o governo federal diminui um imposto estadual sem pensar muito nos seus reflexos, é uma situação complicada. O ideal seria que a Petrobras fizesse uma revisão na sua política de preços. Acho que foi uma medida sem muito planejamento, mas tenho certeza que o governo estadual encontrará alguma forma compensatória, porque isso não afeta só a universidade, afeta saúde, segurança. Minha expectativa é que o Estado de São Paulo, como tem feito desde 1989, reconheça esses problemas e encontre soluções para que não tenhamos diminuição de financiamento das nossas universidades. O mesmo com a Fapesp, que tem 1% de toda a arrecadação, não só ICMS. As universidades foram muito importantes no período da pandemia. Acho que a população nunca teve tanta percepção de que ciência, conhecimento e educação são importantes. As vacinas só puderam ser administradas no Brasil porque o Butantan tomou a frente dessa negociação, e os Hospitais das Clínicas de São Paulo e Ribeirão Preto fizeram os testes clínicos da Coronavac. 557EntrevistaDestaques2Produzimos mais de mil respiradores aqui na Politécnica com a colaboração de pesquisadores, ex-alunos, da Marinha. Se você olhar países europeus, asiáticos e norte-americanos, o financiamento da pesquisa é muito bem planejado. Se o Brasil entender que o ensino superior deva ser valorizado e a geração de conhecimento deva ser realizada, vamos ter um caminho bom para a nossa sociedade. Se ficarmos improvisando a cada momento, não vamos ter o país que gostaríamos. É importante que haja planejamento e estabilidade no sistema. Não podemos viver de períodos bons e períodos ruins. Isso tem sido muito frequente, principalmente [nas] instituições federais, CNPq e Capes, em que o orçamento varia muito. Essa estabilidade que as universidades paulistas conseguiram é um avanço e precisa ser mantida. Um país que não tem inovação sempre vai ficar dependente do conhecimento que é gerado externamente. Vou repetir uma palavra que o prof. Vahan [Agopyan] (engenheiro, ex-reitor da USP) sempre me ensinou: se nós compramos uma tecnologia do exterior, essa sempre será não atual. Nós temos no Brasil a falta de vários componentes, por exemplo, chips. Não é possível que continuemos nessa dependência em algumas coisas fundamentais para o desenvolvimento do País. O investimento na educação e na ciência não é um luxo, é uma necessidade para manter qualidade de vida. Não tenho nenhuma dúvida em defender ciência e educação como forma de resolver problema social.

 

Qual seria sua proposta para os governantes que iniciarão seus mandatos no início do ano que vem?

Primeiro, tomar uma decisão política: a educação e a ciência vão fazer parte do núcleo firme do governo ou serão colocadas numa posição secundária? E depois, tomada essa decisão, fazer uma política de acordo com essas perspectivas. Você deve ter acompanhado nos últimos anos o comprometimento das agências Capes e CNPq. A cada semana, vem uma notícia [segundo a qual] o fundo nacional será contingenciado, depois descontingenciado. Você não consegue ter uma política, isso vai desarticulando o sistema, as pessoas deixam de acreditar que ele funciona, vão desacreditando da pós-graduação, da carreira científica, isso compromete a longo prazo. Tanto a educação quando a ciência não são um sistema que você liga e desliga a qualquer momento, precisa ter tempo, estabilidade, instituições, laboratórios, parcerias. Cada vez que desliga o sistema, para readquirir as condições anteriores, demora muito tempo. Esse exemplo que São Paulo tem dado no financiamento na Fapesp e das três universidades coirmãs é importante, é um modelo factível desenvolvido aqui, nas condições brasileiras. Quando a USP ocupa posição de liderança no País e nos rankings internacionais, como foi no último QS World University Ranking, com a posição 115 entre 4 mil universidades mundiais, isso é fruto de trabalho, desse planejamento. Se o País quiser melhorar seu Índice de Desenvolvimento Humano, precisa saber onde investir seu dinheiro e não ficar décadas perdidas atrás de décadas perdidas. Sempre ficamos com a impressão de que o Brasil poderia estar melhor; é hora de tomar a decisão se queremos ou não desenvolvimento sustentável e qualidade de vida. E tem condições, a riqueza é muito grande, mesmo se pensar numa economia baseada em commodities é de valor agregado, nossa agricultura produz com muita tecnologia. Está na hora de nós tomarmos consciência e fazermos um acordo de políticas de Estado e não só de governo. Vamos investir em educação, no ensino fundamental, médio e superior. Isso com inclusão e participação de todos. Não vejo que isso seja utópico, é perfeitamente factível, só precisamos ir no caminho correto.

 

Assista ao vídeo da entrevista

 

 

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