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Engenharia – Satélite geoestacionário abre nova janela para a ciência e tecnologia

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Deborah Moreira


Em meio à turbulenta situação político-econômica por que passa o País, a notícia do lançamento do Satélite Geoestacionário de Defesa e Comunicações Estratégicas (SGDC), o primeiro controlado integralmente por empresas públicas brasileiras, em banda Ka (alta capacidade), merece ser comemorada. Trata-se de importante salto tecnológico em diversos segmentos.

Fruto de uma parceria entre os ministérios da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC) e da Defesa, a iniciativa trará segurança para o sistema de defesa nacional e para as comunicações estratégicas do governo e levará internet de alta capacidade para regiões remotas, como parte do Programa Nacional de Banda Larga. A medida promoverá a universalização de serviços públicos, como saúde, e possibilitará inúmeras aplicações, como conectar instituições de ensino superior em áreas afastadas, monitoramento de lavouras para o agronegócio, ampliando o uso de tecnologias de agricultura de precisão, e até mesmo interligar plataformas de petróleo e centros de pesquisa localizados na chamada Amazônia Azul.

A tecnologia de transmissão de dados via satélite existe há cerca de 60 anos. O geoestacionário é indicado para comunicações. Lançado por um foguete até uma órbita circular em torno da Terra, sua velocidade de rotação é a mesma do planeta, o que, para um observador, dá a impressão de que ele está parado (estacionado) em um determinado ponto no céu.

O SGDC vai operar em duas bandas diferentes: X e Ka, com capacidade de 60 gigabits por segundo. A primeira é uma faixa de frequência destinada ao uso das Forças Armadas, que corresponde a 30% da capacidade total do satélite. Já a outra, que representa os 70% restantes e será usada para ampliar a oferta de banda larga, é mais alta do que as usadas anteriormente (bandas C e Ku). Isso propicia tráfego de maior número de dados usando uma mesma largura de banda, o que resulta em maior velocidade e menor custo.

O satélite foi construído pela francesa Thales Alenia Space, em conjunto com o governo brasileiro, por meio da Telecomunicações Brasileiras S.A. (Telebras) e Empresa Brasileira de Aeronáutica (Embraer), que criaram uma joint-venture, a Visiona Tecnologia Espacial, para supervisionar os trabalhos. Mais de 100 profissionais brasileiros estiveram envolvidos, entre eles engenheiros da Agência Brasileira Espacial e do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), além da Visiona e da Telebras, de acordo com essa última companhia.

Um acordo bilateral firmado com a França proporcionou transferência tecnológica para apoio ao desenvolvimento do programa espacial brasileiro. Representantes da Visiona já deram declarações sobre a entrada do País nesse mercado futuramente. O professor da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (Poli-USP) e integrante do Conselho Tecnológico do SEESP Marcelo Zuffo lembra que o Brasil já tem capacidade e acúmulo científico: “Possui tecnologia de satélite. Pode ser que do ponto de vista de mercado seja interessante manter essa parceria com a França, que vem sendo um aliado estratégico, como na construção do submarino nuclear.”

Com peso de 5,8 toneladas e cinco metros de altura, o equipamento ficará posicionado a uma distância de 36 mil quilômetros da superfície do planeta, cobrindo todo o território nacional. Em terra, será operado por dois centros de controle, em Brasília e no Rio de Janeiro. Nessas duas capitais, em Florianópolis (SC), Campo Grande (MS) e Salvador (BA) há outros gateways (estações que fazem o tráfego de dados do satélite) instalados. O equipamento recebeu investimentos no valor de R$ 2,1 bilhões. O tempo de operação estimado é entre 15 e 18 anos.

“Pelo benefício que teremos, é um valor muito baixo. Um país com as dimensões do nosso precisa ter um satélite próprio. Com a privatização (das telecomunicações), perdeu-se o conceito de política pública nacional, porque não houve nenhuma obrigação imposta sobre a manutenção da cobertura nacional. Com isso, o único satélite que o Brasil possuía na ocasião ficou nas mãos de multinacional”, ressalta Zuffo. Ele destaca que mesmo com a chegada da fibra óptica e torres na Amazônia, o que proporcionou uma melhora nas comunicações em localidades isoladas, ainda assim é muito dispendioso levar os cabos ao meio da floresta.


Soberania e autonomia

Um aspecto importante é quanto à abrangência do equipamento, já que estará a uma distância de 36 mil quilômetros, o que, segundo o Ministério da Defesa, permitirá uma cobertura também de toda a América Central e do Sul, Atlântico Norte e Sul e costa oriental da África.  Até então, o tráfego de informações sigilosas vem ocorrendo por meio de satélites de empresas estrangeiras. Essa fragilidade foi trazida à tona em 2013, com as denúncias feitas por Edward Snowden, ex-técnico da agência de inteligência de vigilância NSA, dos Estados Unidos, sobre o vazamento de dados de membros do governo.

“Ele será utilizado para todo o controle do espaço aéreo brasileiro, garantindo soberania e autonomia”, disse Jarbas Valente, diretor técnico-operacional da Telebras. O lançamento seria feito no dia 21 de março último, no Centro Espacial de Kourou, na Guiana Francesa, pela Arianespace. Mas uma greve provocou o fechamento da estrada que leva ao local de lançamento. Este já foi adiado duas vezes. Até o fechamento desta edição, não havia nova data prevista.

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