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09/04/2012

Copa 2014 terá obras concluídas no prazo, diz consultor da FNE

Artur Araújo, consultor da FNE (Federação Nacional dos Engenheiros), diz que as obras para a Copa do Mundo de 2014 estarão prontas a tempo, embora possam ficar mais caras quanto mais perto dos jogos. Leia, a seguir, entrevista de Araújo ao jornal “A Crítica”, de Manaus.

A Crítica - Com praticamente todas as obras previstas para a Copa de 2014 atrasadas, os governos locais já falam em decretar feriado nos dias de jogos. O Brasil abriu mão do chamado legado da Copa?
Artur Araújo -
Em primeiro lugar essa história de que as obras estão atrasadas não é um fato. Isso não é verdade. A grande maioria dos estádios cumprirá seus cronogramas, assim como os aeroportos, os projetos de comunicações e de Segurança Pública. O que há são dúvidas em algumas cidades em torno das obras de mobilidade urbana. Se criou uma ideia que não é verdadeira. Se você vai ao concreto dos fatos, verá que as obras não estão todas atrasadas.

AC - Mas o Ipea (Instituto de Pesquisas Econômica Aplicada) divulgou recentemente um estudo afirmando que, por exemplo, os aeroportos, em sua grande maioria, não estarão prontos até a Copa de 2014...
Artur Araújo -
Esse estudo do Ipea é absolutamente questionável. O problema é que o assunto deixou de ser técnico e virou opinião. Na nossa opinião, a única área que exige cuidados porque houve atrasos na definição da alternativa adotada, é a questão de mobilidade. Vários municípios atrasaram a definição... se seria veículo leve sobre trilhos, BRT, metrô. Naquilo que é de conjunto do país, vamos cumprir: estádio, aeroportos, comunicações e Segurança Pública.

AC - Então, na avaliação da Federação Nacional dos Engenheiros, as obras de mobilidade urbana não são prioridade?
Artur Araújo -
Veja bem. Fundamental para uma copa do mundo é estádio. Porque sem estádio não tem Copa. Sem aeroporto, as pessoas não chegam nem vão embora. Sem segurança, você pode ter crise séria. A mobilidade urbana é um caso que muito menos que a necessidade em si para a copa, ela seria um dos bons legados que o evento poderia deixar. A verdade é a seguinte: você consegue resolver o problema de mobilidade urbana durante os jogos. As cidades brasileiras sabem o que fazer em dia de jogo. Em nenhuma cidade haverá um estádio que exceda enormemente o fluxo de pessoas em uma determinada área. É claro que poderíamos ter um nível maior de conforto e é aí que poderíamos ter o legado. Os gestores poderiam usar o momento da copa e criar um clima propício às grandes obras. Porque obra de mobilidade urbana só é boa depois que ela está pronta. Durante os anos em que ela está sendo feita, as cidades viram um inferno. Dentro dessa perspectiva, as obras de mobilidade urbana não nos preocupam.

AC - Então, é possível que o Brasil acabe sem esse legado?
Artur Araújo -
Eu não diria que não vamos ter. Vamos ter, mas pode vir numa dimensão inferior à que se esperava e que se podia ter. Veja o caso de Barcelona e Atlanta, onde houve Olimpíadas. Elas mudaram a forma como as pessoas se deslocavam por conta do evento. Se nós não nos mobilizarmos, vamos perder uma oportunidade importante para as nossas cidades.

AC - Mas faltando tão pouco tempo para a realização da Copa do Mundo, ainda dá tempo?
Artur Araújo -
Sim. O principio básico do cronograma de qualquer obra é a função entre dinheiro e vontade de realizar. Qualquer dos projetos que estão em discussão tem condição de execução. Quanto mais você se aproxima do prazo, vai sair mais caro, obviamente. Se tivéssemos feito antes, provavelmente, sairia mais barato, mas ainda não chegamos a um ponto crítico em nenhum projeto.

AC - Os projetos do monotrilho e do BRT em Manaus já são dados como obras que não irão estar concluídas até a Copa de 2014. O senhor acha que ainda dá tempo?
Artur Araújo -
Eu sempre tenho pé atrás quando me dizem que em dois anos não dá tempo de fazer. Como eu disse, se houver dinheiro e vontade de fazer, vão fazer. Você pode colocar gente trabalhando 24 horas, por exemplo. Tem momentos, porém, que não adianta, porque nem colocando uma multidão trabalhando não daria tempo.

AC - Essa incompetência gerencial não vai causar um gasto desnecessário?
Artur Araújo -
Provavelmente (as obras) vão custar mais do que se tivessem feitas no prazo. Mas eu não chamaria isso de incompetência gerencial. Existe autonomia dos municípios do Brasil. Não somos um Estado unitário, em que se baixa uma regra e todos os Estados e municípios são obrigados a cumprir. Somos uma federação. Os municípios tem disponibilidade de recursos, mas o processo decisório dos municípios, têm um problema de natureza política. Passa pelo que cada prefeito vê como prioridade. Do nosso ponto de vista todas as cidades que usassem a copa como gancho para realizar suas obras de infraestrutura teriam feito um belíssimo trabalho. É um momento em que dinheiro e vontade aparecem. Eu atribuo menos a uma incompetência geral e mais a uma definição política.

AC - Em sua opinião, Manaus está perdendo essa chance?
Artur Araújo -
Até o momento, sim.

AC - Quando a Copa foi anunciada para o Brasil, o governo falava que a maior parte das obras seria feita por parcerias público-privadas. No entanto, hoje o Estado é o principal investidor da Copa. O que deu errado com as PPPs?
Artur Araújo -
Falta de interesse empresarial. As taxas de retorno não foram convidativas, ou os empresários esperavam subsídios que não vieram e resultou em poucos interessados. Mas isso variou bastante. Veja que em São Paulo choveu candidato para fazer Estádios. Na questão dos aeroportos. A privatização foi um sucesso. De resto, nos parece que não se construíram modelos com taxa de retorno atrativa para a iniciativa privada. Em muitos lugares as arenas só se viabilizarão se forem multiuso. E aí precisa ver se essa cidade teria vocação para isso. Se a iniciativa privada não se convence disso, ela não investe.

AC - Na África do Sul, onde a última Copa foi realizada, há pelo menos duas ou três arenas que se transformaram em elefantes brancos. Esse será o destino de algumas arenas como as de Manaus, Natal e Cuiabá?
Artur Araújo -
Se elas não desenvolverem projetos de adaptação física e marketing, sim.

AC - Mas a partir de quanto esse planejamento deveria começar a ser feito?
Artur Araújo -
Deveria ter sido pensado sempre, agora, há uma flexibilidade. Você pode salvar um projeto desses posteriormente. Agora, as arenas nessas três cidades vão ter mais dificuldade. O nível de atividade esportiva não mantém uma arena desse tamanho. Por isso que é preciso viabilizar essa arenas depois da Copa.

AC - Tanto o Ministério dos Esportes quanto o comitê organizador da Copa (COL) têm sido cargos ocupados por políticos. Esse perfil pode ajudar a explicar porque o projeto Copa vem sofrendo tantas críticas interna e externamente?
Artur Araújo -
Não vejo qualquer associação entre uma coisa e outra. Primeiro porque todo ministro é um político. Seria novidade se não fosse. Todos os ministros de todos os ministérios em qualquer lugar do mundo são políticos. Ele pode ou não ter competência técnica associada a isso. Isso para mim não pode implicar ou não em ter dificultado o projeto da copa. O projeto pode ser bem sucedido ou mal sucedido e eu não vejo o cenário da copa como um cenário a caminho de problemas. Não é nossa avaliação o Brasil vai conseguir fazer uma copa bastante boa.

AC - Boa comparada a que? Ao que foi feito na África do Sul?
Artur Araújo -
Particularmente em relação à África do Sul e sem deixar nada a perder para Alemanha, Japão e Coreia. O problema é que o legado está perto de ser menor do que o esperado. Em relação à realização do evento especificamente, o processo brasileiro é absolutamente idêntico. Teve envolvimento dos governos, das federações e debaixo disso se montou uma estrutura de profissionais contratados.

AC - O Governo Federal se acovardou ao deixar a decisão sobre o consumo de bebidas alcoólicas nos Estádios para que cada Estado defina?
Artur Araújo -
É um acordo político. A legislação sobre os estádios não é nacional. O estatuto do torcedor foi alterado. Do ponto de vista do Governo Federal, está liberada. Agora, cada Estado tem sua legislação e como cada estado vai fazer, isso vai depender de cada realidade.

Para ler a entrevista na íntegra clique aqui.

 

Imprensa – SEESP
* Informações da FNE

 

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