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Opinião – Os riscos oclusos

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Roberto Pereira D’Araújo


O setor elétrico brasileiro, um dos mais vantajosos no planeta pela disponibilidade de recursos naturais, por incrível que pareça, está em crise. Desde 1995, quando o País resolveu seguir a moda da década e achar que, mesmo com tantas diferenças físicas, poderia mimetizar o sistema inglês, a regulamentação não tem estabilidade. A cada mês, novas regras são editadas, tornando as leis do setor um verdadeiro labirinto. Essa é a pior situação que pode ser imaginada quando se depende de capitais privados para garantir um suprimento adequado para uma nação em evolução.

A origem do problema é uma espécie de colonização de mentes que tomou conta dos empresários, de parte dos técnicos e da mídia. No fundo, todos sabem que o sistema brasileiro é absolutamente singular. Aqui, somos interligados de norte a sul e, brevemente, de leste a oeste sobre distâncias de mais de 4 mil km. Somos os líderes absolutos dos recursos hídricos, temos diversidades climáticas entre regiões e somos um país tropical. A nossa capacidade de reservar água, apesar de decrescente em relação às nossas necessidades, ainda é recorde no planeta. Somos capazes de “guardar” o equivalente a 220TWh nos nossos reservatórios. Quantos sistemas contam com esse estoque?

No entanto, essa imensa vantagem está no centro dos problemas que enfrentamos, chegando a ser demonizada por alguns. Tudo isso porque resolvemos adotar uma imitação de um sistema térmico. Nesses, com pequenas diferenças, uma usina vende o kWh real­mente produzido. Se seu preço é alto, ela não gera e não comercializa energia.

Aqui, justamente pelo fato de termos uma reserva compartilhada, para melhor geri-la, o operador nacional adota as mais diversas e variáveis configurações de geração. Assim, não se sabe quanto cada usina vai produzir e para quem está vendendo. A geração de uma usina pode ir a zero e ela continuar a “vender” energia.

Evidentemente, quando se adota um modelo que fixa um valor único para cada usina, como se fosse uma capacidade de vender kWh, cria-se um enorme problema de fechamento de contas com o mundo real. O tamanho do texto me impede de explicar os mecanismos envolvidos, mas posso assegurar que nem na mecânica quântica há a complexidade que existe nessa contabilidade.

O problema da metodologia que emite esse “selo” chamado “garantia física” por usina é que ela supõe um futuro e um nível de segurança para a operação. Mas, seguidamente, a operação real mostra-se cada vez mais pessimista do que a hipótese embutida na emissão do selo. O resultado é que selos mais antigos estão estimados acima do que seriam se fossem reavaliados. Isso significa que estamos correndo riscos, pois faltam usinas.

O apagão do Nordeste tem óbvias relações com o fato de que, mesmo sob hidrologia ruim, adiou-se o despacho de térmicas, para “não estragar” o anúncio da medida provisória das tarifas em 11 de setembro de 2012. Estranhamente, logo após a declaração, as térmicas foram despachadas ao máximo. Evidentemente, esvaziaram-se os reservatórios do São Francisco e, quase um ano depois, não havia água suficiente para reagir ao evento de perda do suprimento do Sudeste.

Esse é o perigo que não é percebido pela maioria dos brasileiros.


Roberto Pereira D’Araújo é engenheiro eletricista e diretor do Instituto de Desenvolvimento Estratégico do Setor Elétrico (Ilumina)

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