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16/03/2020

Preservação de áreas verdes e poda correta exigem profissional qualificado

Deborah Moreira
Comunicação SEESP*

 

Desde 13 de janeiro último estão autorizadas podas e remoções de árvores nas calçadas de São Paulo, em caráter emergencial, sem a vistoria de um engenheiro agrônomo da Prefeitura. A regra está prevista na Lei nº 17.267, o que pode levar a um aumento de remoções. “Basta protocolar solicitação com laudo técnico assinado por qualquer engenheiro agrônomo, florestal ou biólogo, esperar dez dias e fazer o serviço. A lei permite realizar o procedimento sem a visita do técnico da Prefeitura”, alerta o agrônomo Alexandre Luiz Valdez, da Unidade de Áreas Verdes da Mooca.

 

Ele conta que recebeu denúncia de morador sobre o corte irregular de uma palmeira no início de fevereiro. “Esse tipo de ocorrência deve aumentar, porque a população pode entender que está tudo liberado”, enfatiza.

 

Isso ameaça a cobertura vegetal da capital paulista, considerada já baixa por especialistas ouvidos. A terceira reportagem especial da série “A Engenharia e a Cidade” reúne os problemas e soluções para as áreas verdes, que nos últimos anos vêm apresentando deficiências na manutenção em decorrência, entre outros problemas, da falta de engenheiros agrônomos para a poda e remoção de árvores e vegetação.

 

 

àrvore Poda cidadeA engenheira agrônoma Ivone Marques, da Subprefeitura da Mooca, coordena três equipes em mutirão de poda e remoção no Brás. Na foto, buracos no calçamento do Parque Trianon. Foto: Beatriz Arruda.

 

Hoje, 132 desses profissionais atuam, incluindo os locados nas subprefeituras. A administração municipal informa que um concurso está em andamento, sem, contudo, detalhar quantidade de vagas abertas e data de admissão.

 

Enquanto isso, a cidade enfrenta graves problemas, como o grande número de árvores que caem, principalmente em temporais. Nas fortes chuvas de 10 de fevereiro último foram 219 quedas. A principal causa são os fungos, que surgem por conta da umidade. “Quando aparece na parte externa é porque já está bem deteriorado por dentro. E quando essa madeira está bem apodrecida, aí aparece o cupim para consumir tudo”, explica a agrônoma Fernanda Soliga Voltam, da Secretaria Municipal do Verde e Meio Ambiente de São Paulo (SVMA).

 

Como não é permitido tratar com defensivos agrícolas por risco à saúde de transeuntes, o melhor é prevenir. “É preciso podar o mínimo possível”, pondera a agrônoma Priscila Cerqueira, diretora da Divisão de Arborização Urbana da SVMA.

 

A fila de pedidos para corte e poda há anos é grande. Em 2018, 48.841 solicitações deixaram de ser atendidas. Em 2019, o número baixou para 14.090.

 

Privatização e desigualdade

Sem equipes adequadas e alegando falta de recursos, a Prefeitura apresenta como saída a privatização de 11 dos 107 parques municipais até final deste ano, incluindo o Ibirapuera (em julho próximo).  “Estamos concedendo a gestão para serviços como alimentação, estacionamento e eventos. As áreas que demandam mais recursos estão sendo concedidas. Com isso, conseguiremos remanejar verba para os outros parques”, justifica a arquiteta Tamires Carla de Oliveira, coordenadora de Gestão de Parques e Biodiversidade da SVMA.

 

Os parques estaduais na Capital somam oito, incluindo o Pomar Urbano, na margem do Rio Pinheiros, com 40 mil árvores. Nas calçadas, são 652 mil espécies (dados de 2015).

 

A soma das áreas verdes (194.139.000m²) dividida por habitantes (12 milhões) resulta em 15,94m²/habitante, coeficiente superior a 12m² – mínimo recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS). “Mas ainda é pouco, desigual e de difícil acesso”, explica o arquiteto e urbanista Fabio Mariz Gonçalves, professor do Departamento de Projeto da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da Universidade de São Paulo (USP).

 

De fato, enquanto a média da zona sul é de 23,9m²/hab., a Subprefeitura de Cidade Ademar, na mesma região, tem 0,8m²/hab.. Já a de Pinheiros possui 6,3m²/hab. e a de Itaim Paulista (na zona leste), 2,1m²/hab.. Essa desigualdade leva à formação das ilhas de calor, fenômeno causado pela grande quantidade de superfícies escuras e reflexivas que retêm o calor, como asfalto e cimento. A diferença entre regiões pode chegar a 8°C.

 

Para Gonçalves, a solução é o plantio urgente de árvores para “diminuir a temperatura, com mais sombras, e reter as águas das chuvas”. Alguns locais sugeridos por ele são estacionamentos e leitos das ruas, junto à calçada, onde há carros estacionados: “Essa prática é antiga e está sendo retomada em cidades na Bélgica, Holanda e Portugal. Assim, a árvore não disputa espaço com fiação e pedestre.”

 

Para junho de 2020, a SVMA anunciou o Plano Municipal de Arborização Urbana. Também neste ano deve sair mapeamento das copas de todas as árvores. Com isso, será possível saber onde é preciso plantar mais.

 

Em relação à privatização, Gonçalves observa que “deveríamos nos preocupar em manter inclusivos e democráticos os poucos parques que existem”. “O Ibirapuera, hoje, reúne uma diversidade de público e atrações. A privatização não vai nesse sentido. Todas as experiências desse tipo tendem a ter uma gestão mais seletiva, inclusive, no perfil do público”, adverte.

 

Entrevistas e mais informações sobre poda em  https://bit.ly/32uNzlE.

 

 

 

 

 

*matéria publicada no Jornal do Engenheiro (JE) edição março/2020.

 

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