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23/06/2020

Profissional da engenharia: como lidar com as pessoas, valores e necessidades pós-pandemia

Desafios também estão na criação de um ambiente onde sejam valorizados a indústria nacional, a ciência, a educação e o meio ambiente.

 

Rosângela Ribeiro Gil
Oportunidades na Engenharia

 

O professor Leopoldo Yoshioka, do Departamento de Engenharia de Sistemas Eletrônicos da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (Poli-USP) e do Grupo de Eletrônica Automotiva e Mobilidade Inteligente da instituição, nesta entrevista, mostra como a pandemia trouxe lições duras, mas importantes, de que o País precisa reestruturar o processo produtivo nacional em todos os níveis da atividade econômica para ficar “menos dependente das importações” e para valorizar sua mão de obra qualificada, como a engenharia.

 

Superar todos os problemas, como aponta o especialista, demanda criar um ambiente onde industrialização, ciência, novas tecnologias, desenvolvimento sustentável, valorização da educação tenham absoluta relevância. “Não faltam dados para comprovar que temos material humano qualificado em quantidade e qualidade necessários para demonstrar a competência e base técnica para produzir bens de maior valor agregado e eliminar essa dependência total de importações de produtos mais sofisticados”, ressalta Yoshioka.

 

Para ele, a humanidade não será mais a mesma daqui para a frente. “Todas as transformações que estamos vivendo agora como a mudança na forma de trabalhar, estudar e conviver não retornarão totalmente à situação anterior”, avalia. A consequência disso, salienta, é que os papéis e as formas de atuação dos engenheiros também mudarão.

 

300 Leopoldo PoliProfessor Leopoldo Yoshioka acredita que cenário pós-pandemia vai demandar muito trabalho da engenharia. Crédito: Arquivo pessoal.Nos primeiros dias de Covid-19, o País não tinha protetores básicos suficientes, como as máscaras, nem para a área de saúde. Outro problema foi a falta de respiradores e até de álcool gel. O Brasil ficou dependente de importações.
Leopoldo Yoshioka A desindustrialização foi um processo que ocorreu no Brasil e no mundo a partir da década de 1990. Trata-se de um fenômeno conhecido como globalização que, em certo momento, foi visto como algo que traria prosperidade para todos. Foi uma corrida, onde todos tinham uma preocupação única de reduzir o custo de produção. Muitas fábricas se mudaram para os países da Ásia, em sua maioria para a China. Muitos produtos, como componentes de automóveis, aparelhos elétricos e eletrônicos, brinquedos, vestuários e máquinas, entre outros, deixaram de ser fabricados no Brasil.

 

Naturalmente, algumas fábricas continuaram produzindo por aqui, mas é importante ressaltar que quando uma grande fábrica se muda para outro país, muitos dos fornecedores também se mudam junto. Então, a desindustrialização é danosa, porque reduz a capacidade produtiva interna, perdem-se a competência e o conhecimento acumulado ao longo de muitos anos, e os bons profissionais, como engenheiros experientes, vão embora ou mudam de profissão, além de desestimular os jovens a seguirem a carreira na área industrial.

 

Qual lição disso?
A pandemia trouxe à luz o fato de que o preço não deve ser o único parâmetro a ser considerado na escolha do local de produção. Equipamentos de proteção individual (EPIs) como máscaras e escudos protetores (face shields) não são produtos de alta tecnologia e têm baixo valor agregado, mas a sua falta causa um risco imenso aos profissionais de saúde e à população.

 

Numa situação inédita como essa, com o mundo inteiro à procura dos mesmos produtos, a escassez é muito grande e estamos vendo o tamanho da dificuldade para concretizar as importações.

 

No caso dos respiradores, temos fabricantes nacionais como Magnamed e Intermed, entre outros. Mas eles não têm capacidade para suprir a demanda atual. Muitos governos estaduais estão recorrendo às importações dos respiradores, mas estão enfrentando problemas de preço elevado e de qualidade dos equipamentos recebidos.

 

Há a possibilidade de mudar esse cenário daqui para a frente?
A mudança terá que vir do reconhecimento de que o modelo da globalização, que privilegia o preço e a escala de produção, não poderá ser o único preponderante. O governo, as indústrias e a sociedade precisam construir um novo pensamento, no sentido de reestruturar o processo produtivo nacional. Nem tudo poderá ser produzido no Brasil. Mas devemos elencar os produtos estratégicos, no caso de pandemias, crises econômicas, conflitos, intempéries e outras situações que são previsíveis. Devemos também repensar o próprio processo de produção.

 

Os recentes avanços tecnológicos, como impressão 3D, Internet das Coisas (IoT), permitem construir rapidamente as soluções alternativas e testar o seu funcionamento. Ou seja, considero que é possível recuperarmos a nossa competência para o desenvolvimento de produtos industrializáveis, que viemos perdendo ao longo das últimas décadas. Temos que tomar como lição essa crise para iniciar a mudança dessa situação, de quase total dependência por importações. 

 

Temos competência e base técnicas para mudar essa dependência?
Sim. O Brasil possui uma população superior a 200 milhões de pessoas. Formamos anualmente cerca de 30 mil engenheiros em diferentes especializações. Temos excelentes escolas de engenharias, cursos superiores de tecnologias, escolas técnicas e cursos profissionalizantes. Não faltam dados para comprovar que temos material humano qualificado em quantidade e qualidade necessárias para demonstrar a competência e base técnica para produzir bens de maior valor agregado e eliminar essa dependência total de importações de produtos mais sofisticados.

 

O ponto que considero importante é que a competência e a habilidade técnica precisam ser exercitadas constantemente, ou seja, sem enfrentar desafios de projetos e a ferocidade dos concorrentes internacionais diuturnamente. As competências e as habilidades, quando não são desenvolvidas, com o tempo tornam-se ineficazes e obsoletas.

 

Como a engenharia entra com protagonismo nesse caminho?
A engenharia tem um papel fundamental para ajudar no enfrentamento desse quadro que, podemos dizer, é catastrófico. Darei alguns exemplos, dentro do meu conhecimento, que mostram a importância do papel do engenheiro. Inúmeras iniciativas, em todo o Brasil, estão sendo realizadas por cientistas e engenheiros para o desenvolvimento de solução e implementação para produção de EPIs, como máscaras, protetores faciais, aventais, óculos de proteção etc.. Dezenas de iniciativas de universidades, em parceria com empresas, têm sido feitas no desenvolvimento e certificação de respiradores de baixo custo. Inúmeros laboratórios de indústrias desenvolveram novas técnicas para a produção de álcool gel em pequenas e em grandes escalas.

 

Engenheiros de transporte estão estudando processos de programação de linhas de ônibus, trens e metros para reduzir aglomerações de pessoas. Engenheiros de telecomunicações estão desenvolvendo soluções de processamento de dados de telefones celulares para medir o índice de isolamento social. Engenheiros de softwares estão desenvolvendo inúmeros aplicativos para auxiliar a localização de insumos e pessoas interessadas em colaborar na prestação de ajuda aos necessitados. Engenheiros mecatrônicos, em cooperação com engenheiros eletricistas, estão desenvolvendo plataformas robóticas para transporte hospitalar de exames e medicamentos. Engenheiros agrimensores e cartográficos estão usando ferramentas de Informações Geográficas (GIS) para cruzar dados de mapas e de GPS para extrair dados e informações de propagação e penetração do coronavírus nos municípios do Estado de São Paulo. Descobertas importantes como a correlação do avanço do vírus com as rodovias e vicinais estão sendo reveladas por meio das análises feitas pelos engenheiros. Essas informações são fundamentais para que os tomadores de decisão no níveis municipal e estadual possam definir as estratégias de combate, seja restringindo ou não o acesso de veículos de forasteiros.

 

São muitas as ações em cursos com a participação de engenheiros. Mas acredito que existe uma assimetria nessas ações. Ou seja, alguns engenheiros estão se dedicando 18 horas por dia, como no caso dos que estão projetando e testando o respirador de baixo custo “Inspire”, outros estão à margem dessas ações, a maioria por falta de opções, diga-se de passagem.

 

Como resolver isso?
Considero que uma articulação para que mais engenheiros possam se envolver nas ações de enfrentamento do coronavírus seria muito bem-vinda. Daqui a alguns anos, muitos de nós recordaremos o momento atual como um acontecimento do passado, mas espero que os muitos engenheiros que leem esta reportagem escolham deixar de lado a assimetria e se lembrem de suas ações e das dos seus companheiros que ajudaram a amenizar o sofrimento das pessoas. 

 

Quais outras frentes vemos a ação do profissional de engenharia?
Um dos impactos importantes do choque da pandemia foi a antecipação em pelo menos dez anos da adoção massiva de tecnologias baseadas em plataformas digitais. O exemplo mais evidente é a realização de várias reuniões diárias por meio de videoconferências. Depois de quase dois meses do início da quarentena, ferramentas com nomes como Zoom, Meet, Teams e Skype não nos assustam mais. Depois de um certo tempo trabalhando em home office, estamos descobrindo que perdemos muita coisa em função do isolamento social continuado, mas por outro lado coisas que eram difíceis de se fazer estão se tornando algo comum. Um exemplo é a cooperação com os profissionais de diversas áreas, independentemente da distância. Profissionais de São Paulo que falavam com colegas do Rio de Janeiro uma vez por mês estão se falando semanalmente, ou até mesmo diariamente, por conta da utilização das ferramentas de videoconferência terem se tornado simplesmente um hábito, em pouquíssimo tempo, para a maioria dos profissionais do conhecimento.

 

Como está a busca pela mão de obra da engenharia?
Dados de redes sociais de profissionais como LinkedIn e plataformas de recrutamento, como a Revelo, indicam que algumas empresas tradicionais – outrora consideradas da velha economia – estão contratando times inteiros e engenheiros que estavam trabalhando em startups e empresas de tecnologia para impulsionar a transformação digital das empresas. Neste momento de crise, as empresas tradicionais, com histórico de lucros consistentes ao longo de muitos anos, estão se mostrando mais resistentes à situação atual e possuem capacidade de investir na implantação de tecnologias e reengenharia do seu negócio. Cito como exemplos a Via Varejo e o Grupo Guararapes (das lojas Riachuelo) que estão reforçando o seu time de engenheiros e cientistas de dados para alavancarem os negócios nas vendas online e fortalecimento do relacionamento com os clientes e consumidores.

 

Como seguimos daqui para a frente no pós-pandemia?
Todas as transformações que estamos vivendo agora, como a mudança na forma de trabalhar, estudar e conviver, não retornarão totalmente à situação anterior, depois de suplantarmos os efeitos da pandemia.

 

Os novos hábitos adquiridos e descobertas ocorridas durante o período with corona não serão esquecidos. Muito pelo contrário, serão incorporados definitivamente no nosso modus vivendi. A consequência disso é que o papéis e as formas de atuação dos engenheiros também mudarão, pois o mundo pós-corona será habitado por seres humanos com diferenças significativas, principalmente no seu modo de pensar, valores e interação com as pessoas e com o mundo.

 

E quais serão essas diferenças?
Serão muitas, sendo que não sabemos ainda de todas elas, pois estão em curso ainda. Citarei algumnas: 1) Acessos: sem-toque: encostar dedos em leitores de biometria, digitar senhas e apertar botão do elevador serão substituídos por leitores e reconhecedores faciais, comandos de voz e cartões sem-contato (contactless), celulares NFC (near field communication) e controle por aplicativos de dispositivos móveis; 2) Renda mínima vitalícia para toda a população: o governo e a sociedade precisarão repensar o sistema de rede de proteção social; 3) Políticas de redução de circulação: aumento da proporção do tempo de trabalho em home office, aprendizado por ensino a distância (EAD) e compras online como forma padrão e consumo e intensificação dos serviços de delivery, inclusive feitos por robôs de entrega (delivery robots); 4) Six feet office (espaço de escritório de dois metros): escritórios e espaços de trabalhos com novo layout e estrutura funcional modificada, garantindo que as pessoas mantenham o distanciamento mínimo de dois metros, por concepção, no ambiente de trabalho; 5) Inovação como método de trabalho: o engenheiro na era pós-Covid terá como função maior a realização de atividades criativas e menos as rotineiras. Cada um dos itens mereceria comentários um pouco mais aprofundados, mas gostaria de fazê-los em outra ocasião, e deixarei que os leitores exercitem um pouco a imaginação, pois isso será fundamental no futuro próximo. 

 

 

 

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Comentários   

# ParabénsAtsushi Shiino 02-07-2020 14:19
Parabéns.
Gostei da entrevista.

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