Economia

Trajetória e apuros da classe média

Rita Casaro

 

Apesar da insistência das equipes que se sucedem no governo em manter uma política cuja ortodoxia e obsessão em controlar a taxa inflacionária inviabiliza crescimento significativo, será difícil encontrar quem duvide da importância da expansão econômica para o desenvolvimento do País. Se a estagnação é um mal geral para a população, seu estrato social intermediário acusa o golpe mais diretamente que os demais. O diagnóstico está no primeiro volume do “Atlas da nova estratificação social no Brasil”, cujo tema é “Classe média – desenvolvimento e crise”.

Publicado em março último pela Cortez Editora, o livro tem como organizadores Alexandre Guerra, Marcio Pochmann, Ricardo Amorim e Ronnie Silva. O objetivo da série de pesquisas, de acordo com a apresentação da publicação, “é mapear, do ponto de vista econômico, a nova composição, papéis e aspirações dos diferentes grupos que formam a sociedade brasileira. É uma tentativa de avançar na compreensão das mudanças sofridas desde os anos 90, quando políticas econômicas de corte neoliberal deram o tom e, para o bem ou para o mal, forçaram o País a construir, sobre novas bases, sua produção, suas trocas e sua distribuição”. Outros quatro estratos sociais serão abordados nos volumes seguintes: “Trabalhadores urbanos – ocupação e queda na renda”, “Proprietários – concentração e continuidade”, “Agregados sociais – exploração e exclusão social” e “Trabalhadores rurais – trabalho e transformação”.

 

Percurso
O estudo que foca a classe média faz um retrospecto desse grupo social no País. Praticamente inexistente no Brasil-colônia, entre 1870 e 1930, essa parcela caracterizou-se pela pequena propriedade, sobretudo rural. A partir de 1930, com o avanço do projeto de industrialização, com ênfase na urbanização, surge a classe média assalariada. “Os antigos profissionais liberais (advogados, engenheiros e médicos) foram se transferindo para os grandes empreendimentos tendo em vista a dominação e a maior profissionalização dos serviços em maiores escalas. De certa forma, no interior do setor público, a universalização dos serviços como saúde, educação e assistência social terminaram por absorver grande parte dos antigos profissionais liberais na forma de empregados assalariados.”

Tal processo teria se estendido até a emergência da chamada sociedade pós-industrial, quando registraram-se importantes transformações: o enxugamento do emprego no setor industrial, concentração de postos no terciário, o surgimento do chamado analista simbólico, ou o sujeito social ligado à tecnoestrutura, e as novas relações de poder que derivam desse novo sujeito, nas quais a classe média tem lugar privilegiado.

Os efeitos dessas mudanças fizeram-se sentir especialmente a partir dos anos 90, quando a privatização, a terceirização e a desindustrialização avançou fortemente no País. “Entretanto, não foram atingidas, em maiores dimensões, as ocupações referentes à camada média baixa e à camada média alta. O ajuste concentrou-se nos cargos e funções da média camada média, recaindo sobre ela a maior carga das reestruturações do emprego.” O resultado foi o empobrecimento desse nível intermediário. Enquanto isso, os mais ricos desse estrato tiraram proveito da financeirização da economia, com a qual puderam lucrar enquanto era abandonado o projeto produtivista.

 

Contradição
Assim, a publicação da Cortez acusa também a contradição intrínseca à classe média. Por um lado, vê seu encolhimento e a redução de suas oportunidades, que dependeriam de expansão econômica, da prestação de serviços públicos e da diversificação na produção. Por outro, uma nova parcela desse grupo aproxima-se das elites na renda e alto padrão de consumo, eximindo-se de qualquer compromisso com um projeto de desenvolvimento nacional. Para os autores, a razão para tal comportamento é evidente: “A efetivação dessas potencialidades (de crescimento) implicaria a contenção e o controle do seu modo de vida transnacionalizado e essencialmente anti-republicano.”

Pelo mesmo motivo, a classe média tenderia ao conservadorismo e seria uma aliada da classe dominante na manutenção do status quo quanto à alta concentração de renda no Brasil.

Considerando-se que um projeto real de avanço terá de incluir distribuição dos ganhos, elevando o nível de escolaridade, saúde, consciência social e até auto-estima dos mais pobres, esses passariam a disputar com a classe média espaço nas escolas e no trabalho. Além disso, a mudança encareceria as tarefas tradicionalmente desempenhadas por essas pessoas, deixando a classe média sem condições de ter, por exemplo, empregados domésticos. “De um lado, o sonho de modernidade, de progresso, de competência, de sucesso; de outro, o favor, o contato, o apadrinhamento, os serviçais, a aparência”, resume o livro.

 

Quem é e onde está
Segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), em 2000, data do último censo demográfico, havia 15,4 milhões de famílias de classe média ou 57,8 milhões de indivíduos nesse estrato social. Esses eram os que tinham renda familiar naquele ano entre R$ 985,00 e R$ 10.982,00. Em valores de novembro de 2005, chega-se ao piso de R$ 1.556,30 e ao teto de R$ 17.351,56.

Na região Sudeste, estão 57,2% das famílias de classe média, 33% delas apenas em São Paulo. No Sul, estão 18,3%; no Nordeste, 12,5%; no Centro-Oeste, 7,3%; e no Norte, 4,7%. A maioria dos chefes de famílias de classe média são homens (81,4%), brancos (68,2%), que freqüentaram escolas (92,3%), chegando ao nível superior de ensino (48%). A maior parte ainda é empregada com carteira de trabalho assinada (34%), seguida pelos que trabalham por conta própria (24,2%).

 

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