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Há 13 anos, o Fórum Social Mundial (FSM) foi criado como contraponto ao Fórum Mundial Econômico, em Davos, na Suíça, que neste ano ocorre entre 22 e 25 de janeiro. Já o Fórum Social Temático (FST) estende sua programação até o domingo próximo (26/01). Naquela primeira edição do FSM, Lula ainda não havia sido eleito e o neoliberalismo se espalhava pelo mundo, em especial na América Latina, que lutava contra a consolidação da Alca (Área de Livre Comércio das Américas).

A ALCA não se confirmou, apesar de diversos tratados de livre comércio (TLCs) terem sido firmados desde então. Muitos governos com visões mais progressistas foram eleitos. No Brasil, elegemos o primeiro presidente metalúrgico e hoje temos a primeira mulher eleita, que disputará seu segundo mandato neste ano. Alguns analistas atribuem essas vitórias ao próprio processo de intercâmbio e debate entre os movimentos, que gerou uma agenda de mobilização permanente.

Dilma Rousseff deu continuidade ao programa pretendido pela esquerda, mas, com limitações. Para conseguir apoio à eleição, algumas alianças foram refeitas e outras novas surgiram, com outras legendas, principalmente o PMDB, que governa o país sem precisar sentar na cadeira presidencial. Isso nos custou o adiamento de diversos projetos e políticas sociais importantes para avançar efetivamente nas mudanças. O fato que talvez mais simbolize essa limitação foi a nomeação do deputado federal Marco Feliciano (PSC-SP), da base evangélica, para a presidência da Comissão de Direitos Humanos da Câmara, em 2013.

Neste ano, apesar de ter nos livrado da gestão Feliciano na Comissão da Câmara, onde muitas organizações sociais ainda avaliam os retrocessos causados, diversos políticos ainda confundem poder, política e democracia, gerando bizarrices como o projeto de lei que instituiu recentemente o “Programa de resgate de valores morais, sociais, éticos e espirituais”, sancionado pelo ainda governador do Rio de Janeiro Sérgio Cabral, na quinta-feira (16/1). O PL é da deputada estadual Myrian Rios (PSD), e, pasmem, tem a finalidade de “promover o resgate da cidadania, o fortalecimento das relações humanas e a valorização da família, da escola e da comunidade como um todo”. Qualquer semelhança com a TFP é mera coincidência.

Em 2014, Dilma ainda não confirmou se estará em Porto Alegre. Mas já disse que vai à Davos. Muitas leituras podem ser feitas sobre a primeira visita da presidenta brasileira ao Fórum Econômico Mundial, mas a principal delas é a de que seu governo quer deixar claro (eleitoralmente falando) que continuará comprometido com o capital, com ricos e poderosos empresários, além de priorizar a responsabilidade fiscal.

Para compensar, muitos movimentos sociais ligados ao PT e aos demais partidos da base do governo estarão presentes no FST 2014. É a pluralidade e diversidade, defendidas na Carta de Princípios do FSM, que garante a presença de todos os movimentos, inclusive os que se opõem ao governo ou são mais críticos ao mesmo. O Fórum “é um espaço plural e diversificado, não confessional, não governamental e não partidário, que articula de forma descentralizada, em rede, entidades e movimentos engajados em ações concretas, do nível local ao internacional, pela construção de um outro mundo” diz um trecho da carta.

No ano passado, a poucos dias do evento começar, organizações ligadas ao processo do FSM (como Marcha Mundial das Mulheres, CUT e MST) retiraram seu apoio justamente pela presença de entidades descoladas da pauta anticapitalista, como o Sindicado dos Médicos do Rio Grande do Sul (Simers), o Sindicato de Hotelaria e Gastronomia (Sindpoa) e Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM).

Neste ano, as entidades estão de volta. Pelo visto as arestas foram aparadas. Um sinal de que tudo caminha bem entre elas é o tema do evento escolhido para este ano: “Crise capitalista, Democracia, Justiça Social e Ambiental”. A crise do capital foi o tema defendido pelas organizações que deixaram o Fórum em 2013, que acabou adotando o tema “Democracia, Cidades e Desenvolvimento Sustentável” - ainda presente na temática de 2014.

Outra ação que contribuiu para o racha entre as entidades foi o projeto de lei, do Executivo municipal, aprovado em novembro de 2012, que instituiu a Semana do Fórum Social Mundial, na última semana de janeiro de cada ano, o que fere claramente a Carta de Princípios. Além disso, não há nenhuma obrigatoriedade do Fórum ocorrer em Porto Alegre. Tradicionalmente, o FST ocorre nos anos pares, quando não há o Fórum Social Mundial centralizado.

Nunca foi preciso uma lei para que o Fórum acontecesse. Os governos progressistas sempre destinaram recursos para a infraestrutura e viabilização de eventos. Neste ano, a prefeitura disponibilizou cerca de R$ 1 milhão, sendo R$ 650 mil gastos em infraestrutura – principalmente na Usina do Gasômetro, Parque Harmonia e Largo Zumbi dos Palmares; divulgação do evento (R$ 100 mil) e outros R$ 200 mil para as despesas com passagens e hospedagem de personalidades convidadas, cujos nomes foram definidos pelo Comitê Organizador, formado por representantes de Associação Brasileira de Organizações Não-Governamentais (Abong), Ação Educativa, Central Única dos Trabalhadores (CUT), Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB), Força Sindical, União Brasileira de Mulheres (UBM) e União Geral dos Trabalhadores (UGT). O governo federal também destinou R$ 1 milhão.

A participação dos governos sempre foi delimitada à Marcha de Abertura e a eventos paralelos, como fóruns parlamentares, e assim deve continuar sendo. Partidos e organizações militares não podem participar. Somente governantes e parlamentares, atendendo a convites pessoais e que assumam os compromissos do evento.

Desde a internacionalização do FSM, Porto Alegre deixou de ser o centro dos debates. Mas nunca perdeu o charme de ser o berço do megaevento, já tendo recebido as três primeiras edições centralizadas (2001, 2002 e 2003) e a quinta, em 2005, quando retornou à cidade (ultrapassando 150 mil participantes inscritos). Desde 2010, acolhe o Fórum Social Temático em anos pares.

Até a segunda-feira (20/1), a capital gaúcha ainda não registrava a movimentação típica de anos anteriores. Dez, 20, 30 mil participantes previstos? É certo que as edições temáticas atraem menos gente. E quantidade nunca foi sinônimo de qualidade. O importante é não perder de vista os princípios norteadores do FSM, nem que para isso precisemos repensar ou, melhor dizendo, ‘descolonizar’ os espaços de discussão.

Uma oficina chamada “Descolonizando o FSM”, bastante concorrida no FSM da Tunísia, no dia 28 de março de 2013, fez os seguintes questionamentos: quem produz conhecimento sobre o FSM e para quem são produzidos? E quais as consequências da europeização do evento? Transferindo esses questões para o FSTemático, podemos refletir sobre de que forma está se dando atualmente a estruturação das atividades e como elas estão refletindo os temas atuais, quais saberes estão sendo debatidos e quais ainda estão marginalizados.

Como bem sublinhou Hilde Stephansen de Goldsmiths, da Universidade de Londres, uma das organizadoras da oficina, o FSM foi um importante instrumento para a troca do conhecimento entre os movimentos sociais, “mas é importante reconhecer a história da colonização europeia e seus efeitos, que impôs um sistema de conhecimento e nossas práticas políticas, produtoras de hierarquias, como o racismo, o machismo, que também existem dentro do Fórum". Como acontece no dia a dia, internalizamos alguns processos e, depois, acabamos por reproduzi-los sem reflexão. Poucas são as atividades dentro do Fórum que permitem pensar os nossos problemas sob a ótica de outros saberes, outras culturas, como a indígena, a africana, a árabe, a dos povos da floresta, entre outros. Não perder o foco durante o FST 2014 inclui sobretudo questões como essa. Iinclui pessoas. Por isso, não vá se perder por aí.

Leia mais sobre a atividade Descolonizando o FSM aqui. (Deborah Moreira)


 

Fonte: CNTU








Às vésperas do badalado encontro mundial das finanças que se realiza em Davos –  mas deveria ser em um lugar chamado Tômovos – a Oxfam anunciou, ao mesmo tempo em que foi apresentado o relatório anual da OIT [Organização Internacional do Trabalho], que 85 ricaços do mundo abocanham a renda equivalente a 3,5 bilhões de pessoas, metade da população do planeta. São detentores de 1,7 trilhão de dólares.

Números aterradores e quaisquer que sejam as motivações da Oxfam, sua revelação escancara o perigoso desequilíbrio social em que vivemos e as desigualdades que se agravaram depois da crise de 2008, com raras exceções.

“Todos os países de alta renda do G20, exceto a Coreia do Sul, estão vivendo aumento de desigualdade, enquanto que Brasil, México e Argentina estão vivendo um declínio nos níveis de desigualdade”, diz o documento.

A Oxfam é uma ong inglesa que atua em mais de 100 países buscando soluções para os problemas da fome e da injustiça. Foi fundada em 1942, em plena guerra mundial, pelo Cônego Theodore Richard Milford e por religiosos quakers, acadêmicos e ativistas sociais e se envolveu em inúmeros episódios de “intervenção humanitária” na Grécia e em toda Península Balcânica, já sob a lógica da guerra fria.

Não podemos desviar nossa atenção e por isso o repito, do dado clamoroso e alucinante: 85 pessoas pesam economicamente o mesmo que 3,5 bilhões.

Tal concentração mundial de riqueza, escandalosa, se dá em prejuízo da vida de milhões e milhões de trabalhadores, de homens e mulheres, de crianças e velhos e de desempregados (como revela o relatório da OIT) e pesa como uma hipoteca sobre a democracia, os direitos humanos, e a própria integridade das nações.

Espero que a delegação governamental brasileira em Davos leia com atenção o documento da Oxfam e o relatório da OIT.



* por João Guilherme Vargas Netto, consultor sindical







MundodentroNeste ano, cerca de 2.500 líderes globais de empresas, governos e ONGs se reunirão em Davos para mais uma edição do Fórum Econômico Mundial (FEM). Entre as pautas, assuntos costumeiros como segurança internacional e recessão econômica. No entanto, outro tema de igual importância parece estar finalmente recebendo a atenção merecida: as mudanças climáticas.

Cerca de 30 reuniões, ou 15% do programa do FEM, tratarão sobre as mudanças climáticas e assuntos relacionados, como resiliência ambiental, segurança alimentar e manejo de recursos naturais.

Não é para menos. Com os recentes acontecimentos de eventos climáticos extremos, como as secas e o furacão Sandy nos UEA, as secas e altas temperaturas na Austrália, e o derretimento recorde no Ártico e seus impactos na economia mundial, fica cada vez mais difícil negar as mudanças climáticas e seus efeitos não apenas no meio ambiente, mas também na vida do ser humano.

Para se ter uma ideia da gravidade da situação, um relatório lançado pelo fórum há duas semanas, baseado em uma pesquisa de mais de 1.000 especialistas da indústria, analisou 50 riscos globais em termos de impactos, probabilidade e interconexões, e classificou o aumento das emissões de gases do efeito estufa como o 3º maior risco global enfrentado atualmente.

O documento afirma que os eventos climáticos extremos, aliados às difíceis condições financeiras, representam uma combinação “cada vez mais perigosa” para a economia mundial.

“Na frente econômica, a resiliência global está sendo testada por políticas fiscais austeras. Na frente ambiental, a resiliência da Terra está sendo testada pelo aumento das temperaturas globais e eventos climáticos extremos que provavelmente se tornarão mais frequentes e severos. Um colapso grande e repentino em uma frente certamente prejudica a chance da outra de desenvolver uma solução efetiva e em longo prazo”, diz o texto.

Para lidar com esse impasse, John Drzik, diretor executivo do FEM, pediu que os criadores de políticas tomem medidas urgentes para combater os riscos ambientais e econômicos e sua relação.

“Duas tempestades – ambiental e econômica – estão a caminho de uma colisão. Se não alocarmos os recursos necessários para mitigar o crescente risco de eventos climáticos severos, a prosperidade global para futuras gerações pode ser ameaçada. Líderes políticos, líderes empresariais e cientistas precisam se unir para administrar esses riscos complexos”, comentou Drzik.

Nesse sentido, outro relatório, divulgado nesta segunda-feira (21) em Davos, declara que os US$ 5 trilhões anuais investidos em infraestrutura devem se tornar mais sustentáveis, a fim de estimular um desenvolvimento econômico ‘verde’.

De acordo com o documento, tornar a infraestrutura mais sustentável é incentivar, por exemplo, outras formas de geração de energia, como a solar e a eólica, e promover a eficiência energética em setores como a construção, a geração de energia, a indústria e os transportes. Isso, além de contribuir para um meio ambiente mais limpo, contribuiria também para um crescimento econômico maior e mais igualitário.

O texto indica que há alguns sinais positivos de mudanças, como o fato de que o investimento mundial em energias renováveis bateu um novo recorde em 2011, chegando a US$ 257 bilhões – uma alta de 17% em relação a 2010 – e que o investimento na mitigação e adaptação das mudanças climáticas chegou a US$ 268 bilhões no setor privado e US$ 96 bilhões no setor público em 2011, uma alta de 93% com relação a 2007.

No entanto, o relatório sugere que o que está sendo feito é pouco, e que ainda há muito investimento sendo feito em tecnologias e projetos poluentes e ineficientes. “Ainda há dinheiro do setor privado indo para a destruição climática”, lamentou Jake Schmidt, diretor internacional de políticas climáticas do Conselho Nacional de Defesa dos Recursos de Washington.

O documento mostra que, se uma pequena parcela dos investimentos vier do setor público, isso estimulará o setor privado a investir uma quantia muito maior. “Há muitos casos de sucesso no qual os governos orientam estrategicamente seus fundos públicos para mobilizar somas significativas de investimento privado para infraestrutura verde. É hora de ampliar essas soluções”, observou Thomas Kerr, diretor de Iniciativas de Mudanças Climáticas do FEM.

Por exemplo, o texto aponta que, se os atuais US$ 90 bilhões em gastos públicos globais contra as mudanças climáticas fossem aumentados em US$ 36 bilhões, chegando a US$ 126 bilhões, eles poderiam levar a um investimento privado de até US$ 570 bilhões anuais.

Além dos relatórios apresentados pelo FEM, documentos anteriores lançados por outros órgãos também estão sendo discutidos, como um texto do PNUMA que afirma que o planeta está a caminho de um aquecimento de 4ºC até 2100.

Outros assuntos, como a resposta do setor de seguros às mudanças climáticas, a segurança alimentar, e a necessidade de se investir em energias limpas para controlar o aquecimento global, também estão sendo abordados.

 

Imprensa – SEESP
Notícia do site Instituto Carbono Brasil



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