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AMBIENTE - Reutilizar água na produção de etanol

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Soraya Misleh

       Na busca por sustentabilidade no setor agroindustrial sucro­energético, tem havido incentivo à pesquisa e desenvol­vimento de novas tecnologias destinadas ao reúso de água. O segmento, segundo o engenheiro e diretor do SEESP em Pira­cicaba, André Elia Neto, já tem cultivado essa prática nos últi­mos 20 anos, em função da implantação do sistema de cobrança do recurso hídrico e das exigências de cumpri­mento da legis­lação ambiental, além de sua visibilidade perante o mundo.
       Assim, hoje tem grande índice de reapro­veitamento, “chegando a 90% das suas ne­cessidades”. Apenas 10% de sua demanda seria suprida mediante captação nova. Atualmente, conforme Elia, para a indús­tria de transformação de açúcar e etanol, é preciso muita água – 22m3 por tonelada de cana-de-açúcar – e são reti­ra­dos dos rios somente cerca de 2m3, volume que pode vir a ser ainda inferior. “Com a enge­nharia básica aplicada, chegamos num li­mite em que se teria 1m3, mas dá para avan­çar ainda mais, com redução para 0,5m3, mediante a adoção de novas técni­cas”, atesta o en­genheiro. “Futuramente, pode-se chegar a até zero e mesmo à au­tossuficiência, por­que a própria cana traz uma quantidade de água, a qual poderia ser reutilizada, com tratamento.” Ademais, na média, não se lança nada no rio. 
        A preocupação com o tema demandou a publicação – pelo CTC (Centro de Tecnologia Canavieira), Unica (União da Indústria da Cana-de-Açúcar), Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo) e ANA (Agência Nacional de Águas) – do “Ma­nual da Conservação e Reúso da Água na Agroindústria Sucroenergética”, do qual Elia é coordenador técnico e um dos au­to­res. Além dele, outros cinco, a maioria engenheiros – entre os quais o sócio do SEESP Alberto Shintaku –, participaram da elaboração do material. Disponível nos sites das organizações para download, reúne em 288 páginas e oito capítulos uma série de informações sobre o assunto, in­cluindo boas práticas industriais no uso da água, com estratégia do setor para atingir captação mínima e geração zero de efluen­te. Além disso, ressalta Elia, aponta algu­mas tendências de produção mais limpa.

 

Tecnologias
       Entre elas, a limpeza a seco da cana-de--açúcar, desenvolvida inicialmente pelo CTC, que ganha espaço com a proibição das queimadas. “Com isso, na lavagem, perde-se mais açúcar.” Com a nova tecnolo­gia, não deve ser usada água, mas um sis­tema de sopradores de alta potência para arrastar as impurezas vegetais da cana picada e separar palha e outros materiais que podem vir a ser reutilizados. De acordo com Elia, já há algumas plantas demonstra­tivas em usinas no Brasil, e o próximo passo é a implantação operacional.
       Além dessa inovação, o uso de água gelada para fermentação da cana também integra o rol das iniciativas em prol de pro­dução mais limpa. Trata-se de sistema de resfriamento das dornas (grandes vasilhas) que promete melhorar o rendimento nesse processo e minorar o consumo interno de energia. Além da otimização em tal fase industrial, como resultado, deve-se obter redução da vinhaça em até aproximada­mente 50%, estima o engenheiro. “Existe inclusive usina piloto para estudar essa utilização”, complementa.
       Outro projeto é relativo à concentração da vinhaça por evaporação, cujo objetivo, segundo explica Elia, é a retirada da água desse resíduo para reúso. “Assim, tem-se diminuição no seu custo de trans­porte para o campo, em que é utilizado como fertilizante.”
       Ele acredita que nos próximos três ou quatro anos essas tendências se consoli­dem. Até porque, a despeito de, na sua opinião, rei­nar a cultura do desperdício no Brasil – dada sua condição vantajosa em relação ao mundo, de contar com 12% a 15% de toda a água doce disponível –, no setor agroindustrial sucroenergético boas práticas são fundamentais para a conquista e ampliação do mercado externo, sobretudo pelo etanol. Estatísticas da Unica relativas à safra 2008/2009 dão conta de que a produção brasileira no pe­ríodo foi superior a 18 bilhões de litros, sendo pouco mais de 4,5 bilhões destinados à exportação. Se barreiras comerciais fo­rem quebradas, esse volume, crescente nos últimos anos, deve se elevar ainda mais.

 

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