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Entrevista – Um brasileiro à frente do movimento sindical internacional

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Pela primeira vez, a Confederação Sindical Internacional (CSI) será presidida por um latino-americano, o brasileiro João Felício. Ex-presidente da Central Única dos Trabalhadores (CUT) e seu atual secretário de relações internacionais, ele foi eleito por unanimidade no Conselho escolhido pelos 1.500 delegados de 161 países durante o III Congresso daquela entidade, em Berlim, capital da Alemanha. Sua posse se deu ao encerramento do evento, no dia 23 de maio. Com mandato até 2018, ele terá o desafio de tocar uma série de campanhas junto às mais de 300 centrais sindicais de diversas partes do mundo filiadas à organização, que representam juntas cerca de 180 milhões de trabalhadores – entre elas, além da CUT, as também brasileiras Força Sindical e União Geral dos Trabalhadores (UGT). Nesta entrevista ao Jornal do Engenheiro, Felício fala sobre as ações a que terá que fazer frente e o porquê de o País ter sido indicado para o comando da CSI.


Por que foi eleito um brasileiro para o comando da CSI?

A CSI tem um sistema de rodízio. A cada mandato, estatutariamente, o presidente é de um continente, esta vez seria a das Américas. Houve um debate tanto dentro da nossa central, como de outras brasileiras com a CSA, que é a nossa Confederação Sindical das Américas, de que o Brasil e a CUT deveriam pleitear esse cargo. A partir desse momento, começamos uma campanha mundial para que o presidente fosse um latino-americano do sul, até para abrir a possibilidade de se estabelecer uma relação melhor entre norte e sul, que, como organização mundial, nas suas instâncias de poder estivessem representados outros povos, culturas, continentes, e no congresso acabei sendo eleito por unanimidade. Eu acho que foi um enorme avanço, porque a CSI se consolida como a maior organização sindical mundial e se diversificou um pouco mais a representação. Como vices, temos a Maria Fernanda Carvalho Francisco, que é de Angola, país que também nunca teve um membro na direção nacional e o sueco Karl-Petter Thorwaldsson. Isso garante uma unidade interna maior, inclusive para que possamos solucionar e apresentar uma agenda que dê conta dos desafios mundiais que estamos vivendo hoje. Não consigo vislumbrar depois da Segunda Guerra Mundial um período tão difícil como esse. A maioria dos governos, sobretudo na Europa, estabelece aliança com o capital para reduzir direitos, fazendo reformas trabalhistas. O Brasil é um dos países onde isso não tem ocorrido. Há necessidade de uma organização sindical internacional cada vez mais ousada, mais unida internamente e preocupada em estabelecer ações concretas, envolver as suas filiadas em grandes mobilizações de massas. A única forma de nos contrapormos a essas reformas é construir um sindicalismo de luta, de massa, bastante expressivo e com representatividade, esse é um dos grandes desafios que temos. Aumentar o nosso poder de mobilização, articulação e pressão política é fundamental para quem quer construir um sindicalismo que dê conta das necessidades atuais.


Dentro das Américas, na sua opinião, a escolha do Brasil se deu também porque o País está melhor colocado ou tem maior potencial diante da crise internacional?

Tem a ver com a ousadia da CUT desde sua fundação, mas também com o momento político positivo que estamos vivendo hoje. O Brasil não é mais um espectador do mundo, é protagonista. Seu papel de destaque no cenário internacional acabou favorecendo as centrais brasileiras. As conquistas que tivemos nos últimos dez anos, como valorização do salário mínimo, participação política muito maior de movimentos sociais, negociação coletiva, aumento real para a maioria das categorias profissionais, galvanizaram interesse e admiração pelo movimento sindical brasileiro.


Quais ações concretas estão sendo pensadas por essa nova gestão?

Primeiro, vamos fazer uma grande campanha mundial junto a todas as centrais sindicais para aumentar a sua representação, no sentido de organizarmos grandes campanhas de abrangência internacional, de taxação da riqueza, pelo trabalho decente. Outro desafio é ter um mundo com um projeto alternativo que leve em consideração o meio ambiente, e desenvolvimento sustentável pressupõe também garantia de direitos. Questão ainda é aumentar o poder das mulheres nas organizações sindicais e ao mesmo tempo resolver um gravíssimo problema que existe na maioria dos países, em que elas exercem as mesmas funções que os homens, mas recebem salário menor. É necessário também promovermos formas criativas de participação da juventude na organização sindical. Além disso, valorizar a democracia. Tem outra luta importante que é contra essa globalização nefasta, em que as grandes potências impõem seu projeto via tratados de livre comércio, influenciam governos. Queremos relações comerciais, mas também sociais, garantia de direitos, troca de experiências, senão não vamos construir um país justo e uma sociedade justa. Todas as campanhas da CSI têm que ser abraçadas pelo movimento sindical internacional, servir de referencial importante na luta política.


Qual a primeira iniciativa?

As duas campanhas imediatas são pela taxação da riqueza e contra a realização da Copa no Qatar (em 2022), porque vemos que está tendo trabalho escravo nas obras. 


Por Soraya Misleh


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