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Profissão – Futuros engenheiros criticam superexploração do mercado e apostam no potencial brasileiro

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A engenharia assumiu papel de destaque nos debates nacionais por conta da nova fase do País. O censo do ensino superior do ano de 2012, do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), confirma essa tendência, mostrando que as matrículas nos cursos da área foram as que mais cresceram – 16,6% ante 2011.

Para o presidente do SEESP, Murilo Celso de Campos Pinheiro, o País está diante do desafio de ampliar esse contingente e garantir-lhe formação de qualidade. “É vital à nação dispor de mão de obra qualificada e apta a enfrentar as tarefas ligadas aos avanços necessários na infraestrutura e indústria nacionais”, afirma. Por isso, o JE conversou com alguns formandos de 2013 para saber quais as suas expectativas em relação ao mercado de trabalho e como eles veem a profissão no Brasil de hoje.

Um traço comum aos entrevistados é que todos dizem que escolheram o curso por afinidade com as ciências exatas, o raciocínio lógico e por gostarem de saber como “as coisas funcionam”. “Sempre fui uma criança curiosa. Ao longo do tempo, vi que os meus pais nem sempre poderiam tirar minhas dúvidas, e que eu mesmo precisaria começar a procurar as respostas”, sintetiza Rodrigo da Silva Benevides, aluno do quinto ano de engenharia física da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). Ele faz questão de dizer que estudou em escola pública e que veio de uma família humilde na qual graduação era algo raro.

Na avaliação do professor Cláudio Antônio Cardoso, do Departamento de Física da UFSCar, a questão salarial e a empregabilidade também contam nessa decisão pela carreira. Benevides já tem uma ideia desse mercado, que considera exigente demais. “Disputas para vagas de estágio ou trainee em grandes empresas são concorridíssimas e, mesmo para quem passa, não é um mar de rosas”, diz. Ele critica que muitos engenheiros – e às vezes até estagiários – trabalham dez, 12 horas por dia, com pressão e prazos apertados. “Além disso, mesmo dizendo que haverá job rotation e um aprendizado individualizado para trainees e estagiários, muitas empresas acabam exigindo que estes façam trabalhos de funcionários já efetivos, mas com menor salário e direitos.”

Tiago Santiago, que tinha curiosidade de saber como as coisas funcionavam, que montava e desmontava brinquedos, hoje, aos 23 anos, está prestes a ser um novo engenheiro físico do País, também pela UFSCar, mas já tem uma visão crítica do que vem pela frente. “Creio que a engenharia brasileira está um tanto desvalorizada. Muitos vão para a área de finanças e de gestão devido aos melhores salários”, opina, e mostra que já conhece os direitos da categoria, citando a importância da lei federal (4.950-A/66) que estabelece o piso salarial do profissional. Ele reclama das empresas que exigem experiência sem dar chance aos recém-formados e que contratam o engenheiro como analista, “para fugir do piso”.

O aluno de mecatrônica da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (Poli-USP), Fábio Seiti Aguchiku, 23 anos, reforça a crítica e afirma que a maioria das empresas quer um engenheiro qualificado, mas não paga uma remuneração condizente com a formação do profissional e ainda utiliza a jogada de contratar como analista. E é categórico: “Mão de obra experiente e boa não falta no Brasil.”


Engajamento

Na outra ponta está Túlio Benetom, graduando em agronomia pela Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo (Esalq/USP), de Piracicaba. Ele optou pelo curso por gostar de plantas e animais e quer trabalhar na área de fitotecnia (produção vegetal). Aos 21 anos, chegará ao mercado com vontade de “fazer a diferença”. “Entrei pensando apenas em contribuir para a produção de alimentos, reduzindo a fome no mundo”, lembra. Depois de cinco anos, vê a sua carreira como uma “missão”: “Temos de usar todas as tecnologias e habilidades desenvolvidas durante a formação acadêmica para atuarmos na cadeia produtiva de alimentos, agroenergia (etanol), fibras (roupas) e plantas medicinais, respeitando o meio ambiente e atendendo as necessidades da sociedade em relação à qualidade e à viabilidade econômica.”

Ele tem uma opinião positiva sobre a engenharia brasileira. Acredita que os profissionais são “reconhecidos no mercado pela rápida capacidade de raciocínio e tomada de decisão, além da grande habilidade em liderança”. Ao mesmo tempo, Benetom aconselha que os estudantes da área prezem por uma formação de excelência “para contribuir de forma marcante na busca por melhorias e desenvolvimento do nosso país”. Santiago, que pretende atuar na área de pesquisa e desenvolvimento, também quer desenvolver tecnologias novas visando o bem comum. “Isso me traria uma grande realização profissional”, garante.


Risco de evasão

Para o consultor acadêmico do Instituto Superior de Inovação e Tecnologia (Isitec), José Marques Póvoa – que, por 35 anos, lecionou na UFSCar e foi coordenador do Departamento de Engenharia Física da instituição –, é importante observar o aluno que entra no curso e o profissional que sai. Póvoa cita quase um “rito de passagem” do jovem, quase menino, que passa no vestibular e se torna adulto dentro da faculdade. Ele distingue entre esses os de período noturno e os da carga integral. Os primeiros, explica, são mais maduros e têm o perfil da pessoa que já sabe o que quer, “estão na faculdade para melhorar de vida”. Já os jovens de 17 e 18 anos de idade, que estudam o dia todo, têm uma bagagem ainda do estudante de colégio, habituado ao apoio do professor. “Com o tempo, ele vai perceber que no curso de engenharia o estudo deve ser diário, por um tempo de cinco a seis horas, e sozinho.”

Esse “choque” de realidade pode fazer o jovem desistir. Todavia, outros elementos compõem o cenário da evasão escolar, segundo o professor Cardoso, para quem os cursos superiores brasileiros são muito “arrastados”, sequenciais e abstratos, “enquanto nossos alunos são acelerados, multitarefas e gostam do trabalho prático”. No geral, indica ele, os responsáveis pelo abandono dos cursos de engenharia são: conteúdos e metodologias obsoletos, distanciamento entre aulas e práticas profissionais e falta de orientação e conversa com o discente. “Este último item é importante. O aluno é exposto a disciplinas difíceis, que exigem muita dedicação, e muitas vezes não sabe a importância disso. Se você é exposto a uma rotina dura que não tem sentido, é natural que você se pergunte se fez a escolha certa e se isso vale a pena. Está aberta a porta da evasão.”

Amanda Martins da Silva, 22 anos, que faz engenharia de produção no Instituto Mauá de Tecnologia (IMT), no campus de São Caetano do Sul, concorda que o curso é muito puxado. Por isso, avalia, “mais ou menos 50% desistem porque não conseguem acompanhar o ritmo das aulas”.  Por outro lado, destaca, quem conclui a faculdade sai muito valorizado. “As matérias que são dadas no curso preparam você para um mercado muito amplo, que vai além até da engenharia”, observa.


Não é bem assim

Aguchiku relata que quando entrou na Poli-USP pensou que isso lhe proporcionaria um leque imenso de opções, com várias empresas lhe procurando. Além de admitir que é um pensamento “bem prepotente”, o formando percebe agora que a realidade não é bem assim. “É verdade que por estar na Poli recebi vários anúncios de vagas, mas não passa disso, durante o processo seletivo pouco importa, ou é até pior, devido à expectativa criada pelos selecionadores.” Atualmente, Aguchiku está fazendo estágio numa empresa de softwares.

Póvoa também fala da “síndrome” do mercado disponível. “Muitas vezes, o aluno acha que ao terminar o curso, o mundo vai bater à sua porta para contratá-lo. Aí, nas primeiras entrevistas de grandes empresas, ele vai enfrentar processos seletivos com mais de 10 mil candidatos até. Ele vai ver que tudo o que ele não fez nos primeiros anos de estudo vai pesar naquela hora.” Por isso, orienta o consultor acadêmico, esse aluno precisa entender que o aprendizado é contínuo. “No Isitec, vamos preparar um curso top para que o profissional seja solicitado praticamente à porta da universidade. A nossa proposta é um curso em que haja atividades de manhã à noite. Queremos incentivar o estudante a ficar dentro da faculdade para que ele adquira o hábito de estudar fora do horário de aula.”

A complexidade do aprendizado de engenharia, todavia, não foi obstáculo para Sabrina Barotto, 33 anos, do quinto ano de engenharia civil da Universidade Santa Cecília (Unisanta), de Santos. “A formação acadêmica se inicia com um turbilhão de informações novas e complexas. E é nesse universo que professores de diversas opiniões, indagações e áreas de conhecimento começam a ‘plantar’ a semente do futuro em cada um de nós.” Para ela, o Brasil mudou e acorda para a engenharia civil.  “Estamos vivendo um momento não mais de evolução, mas de revolução tecnológica em todos os setores.”

Barotto discorre sobre sua impressão em relação à profissão hoje no País, passados os anos de ostracismo, quando boas cabeças de engenharia foram parar em outras áreas. “Com o tempo, a criação de outras opções acadêmicas, a maior abertura política, a globalização e o crescimento tecnológico, isso foi mudando”, analisa e projeta, ainda, um futuro promissor com possibilidades de atuação em telefonia, na indústria do petróleo ou de alimentos, no setor naval, na aviação e na medicina.


Insuficiência de profissionais

A recente polêmica de que o Brasil carece de engenheiros também é discutida pelos formandos. Aguchiku diz que acompanhou o tema ouvindo a opinião de professores e lendo jornais. Para ele, o problema reside no fato de o País ter preferido comprar tecnologia de fora em detrimento de desenvolver algo em território nacional. “Então, ficamos um tempo sem investir na área técnica, por isso talvez tenhamos falta de profissionais experientes nessa área.” Barotto acredita que a situação vai melhorar à medida que existam mais investimentos em infraestrutura, pesquisa e tecnologia.

Benevides relaciona o descompasso entre demanda e oferta à própria formação econômica brasileira. “Passamos muitos séculos sendo considerados um país atrasado em termos de tecnologia, que só exportava matéria-prima e importava produto manufaturado.” No entanto, ela vê com bons olhos as últimas duas décadas, quando se começou a ter “uma maior preocupação em produzir tecnologia nacional”.

Santiago avalia que essa polêmica é antiga e que “sempre se ouviu falar na falta de engenheiros”. O grande problema, para ele, é que a maioria das empresas exige experiência e não investe no profissional recém-formado. “Deveria ter mais incentivo ao treinamento nas indústrias e, para isso, seria interessante uma maior aproximação entre a universidade e o mercado de trabalho”, reconhece.

Benevides, que não sabia muito bem o que ia cursar – “a minha ideia de engenheiro físico era próxima daquela apresentada em ‘O mundo de Beakman’” –, resume a trajetória de tantos jovens que entram no universo da engenharia, citando o físico alemão Albert Einstein (1879-1955): “Uma mente que se abre a uma nova ideia jamais volta ao seu tamanho original.”



Por Rosângela Ribeiro Gil

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