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Desenvolver o Vale do Paraíba com sustentabilidade

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       Trem de alta velocidade, porto de São Sebastião, gestão ambiental, recursos hídricos, agricultura e agropecuária, TV digital, empreendedorismo, soberania alimentar e diversos outros temas de interesse regional e nacional estiveram na pauta do 1º Seminário “Cresce Brasil + Engenharia + Desenvolvimento – Edição Vale do Paraíba”.
      Promovido pelo SEESP, por intermédio de suas delegacias sindicais na localidade, e pelo Conselho Tecnológico do Vale, sob coordenação de Celso Renato de Souza, o evento foi realizado de 17 a 19 de novembro, na Univap (Universidade do Vale do Paraíba), na cidade de São José dos Campos. Ao longo dos três dias, reuniu cerca de 500 participantes, entre estudantes, profissionais da área tecnológica, dirigentes sindicais e autoridades locais, estaduais e nacionais.
      Na abertura, o presidente do SEESP e da FNE (Federação Nacional dos Engenheiros), Murilo Celso de Campos Pinheiro, convidou todos os presentes a se engajarem no projeto “Cresce Brasil”. O coordenador da iniciativa, Fernando Palmezan Neto, lembrou que seu início se deu em 2006. “A primeira etapa foram as proposições para o País, seguidas das para os estados e finalmente para as regiões.” Nessa última, conforme destacou ele, foram utilizados como ferramentas os conselhos tecnológicos, constituídos no bojo desse processo, e o seminário no Vale é resultado de um deles. Para Allen Habert, coordenador do Conselho Tecnológico Estadual, que congrega os 19 fóruns implantados até o momento em território paulista, a região tem condições de ser um dos lugares mais desenvolvidos da América. E o “Cresce Brasil” tem sido “essa força para impulsionar o Executivo e o Legislativo e unir os segmentos interessados em desenvolvimento e inclusão social”. Ao encontro disso, a busca, a partir de diagnósticos, por soluções ao crescimento com sustentabilidade do Vale do Paraíba, tema central desse seminário.
       De grande interesse regional, a ampliação do porto de São Sebastião foi abordada por Frederico Bussinger, presidente da Companhia Docas de São Sebastião. Segundo ele, o porto, localizado em frente à Ilhabela, tem duplo acesso e reúne três condições importantes e raras de se encontrar simultaneamente: abrigado, não-estuarino e águas profundas. O canal tem 550m de largura, 25m de profundidade e 30km de extensão. Apesar do potencial, afirmou, “tem instalações muito limitadas, pequenas”. Daí, o projeto de ampliação, que depois de ser executado trará como oportunidades a exportação de etanol e a movimentação de contêineres, além do petróleo na Bacia de Santos. Ainda de acordo com Bussinger, está previsto novo acesso ao porto, livre do tráfego local. “Caminhões não circularão por dentro das cidades.”

Mais engenharia
       Com estações previstas no Vale do Paraíba – em Taubaté e em São José dos Campos –, o trem de alta velocidade que ligará as regiões metropolitanas de São Paulo, Campinas e Rio de Janeiro foi outro projeto apresentado na ocasião, este pelo consultor José Henrique Zioni Verroni. Com início previsto para 2010 e prazo de conclusão de pelo menos quatro anos, o custo estimado da obra é de US$ 15 bilhões. Entre os fatores de risco do negócio, ele apontou a disparidade na avaliação de demanda nas diversos estudos feitos, questões ambientais e atrasos nos cronogramas de obras. À região em particular, Verroni concordou que aos municípios em que não haverá paradas os únicos ganhos serão as medidas socioambientais mitigatórias e compensatórias a serem cumpridas pelo empreendedor.
       Quanto aos recursos hídricos, Edílson de Paula Andrade, secretário executivo do CBH-PS (Comitê de Bacias Hidrográficas do Paraíba do Sul), destacou que esse comitê foi pioneiro na implantação da cobrança pelo uso da água, no ano de 2006. Com esse instrumento federal, garantiu ele, a arrecadação anual girou em torno de R$ 10 milhões, recurso que está sendo usado como contrapartida para projetos maiores do sistema de recursos hídricos. E de modo complementar, em algumas ações de saneamento. “A estratégia é dotar os 13 municípios da região com projetos de esgoto.”
       No que concerne a águas subterrâneas, Mario Pero Tinoco, engenheiro da Sabesp (Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo) em São José dos Campos, destacou que o aqüífero na região é o Taubaté. “É formado por muito sedimento, aflora às vezes e tem limitação através de rochas, argila. No Vale inteiro, há probabilidade de água, mas por vezes não na quantidade necessária.” Para um melhor aproveitamento e eficiência, é preciso profissionalismo. Tinoco ressaltou que há aí enorme campo de trabalho aos engenheiros.
       A agricultura e a agropecuária também estiveram na pauta. Diretor do Departamento de Agricultura da Prefeitura Municipal de Pindamonhangaba, José Luiz Hungria defendeu a recuperação da região como maior produtora de leite do Estado. “Essa posição se degradou”, lamentou. Ele apresentou os problemas encontrados no Vale em especial com a pecuária extensiva e o plano de melhoramento leiteiro que vem sendo desenvolvido em seu município como exemplo a ser seguido. Segundo sua explanação, em toda a região, que tem boa estrutura de comercialização e grande potencial de crescimento, o mercado consumidor é de cerca de 2,2 milhões de habitantes. “Se somarmos todas as cooperativas, deve dar uns 350 mil litros”, estimou. Para Hungria, a atividade é ideal à pequena propriedade familiar. Todavia, há problemas a serem enfrentados pelo produtor, tais como o gerenciamento e a falta de capital. “É preciso incentivá-lo.” Em Pindamonhangaba, em que, contou ele, 230 produtores garantem 10 milhões de litros de leite por ano – e há aqueles que estão aproveitando áreas abandonadas para combinar, expandir e diversificar o plantio agrícola –, a Prefeitura tem investido nessa cadeia. E nos próximos quatro anos vai remunerar o proprietário rural que preservar o meio ambiente em suas terras. Além disso, vem garantindo assistência técnica e treinamento de pessoal.
       Danilo Amorim, diretor do Centro Regional do DEPRN (Departamento Estadual de Proteção de Recursos Naturais), salientou a importância de se ter projetos com a ótica da sustentabilidade, que sejam consistentes e tenham licenciamento ambiental devido. “E que tenha um grupo de engenheiros que acompanhe sua implantação, do início ao fim da obra”, completou. Essa é, como garantiu ele, a receita para que o empreendedor ou o produtor não tenham problemas com os agentes fiscais.
       Tão importante quanto ter o engenheiro acompanhando todas as atividades é garantir sua qualificação e requalificação profissional. Isso porque, como destacou Ricardo Figueiredo Terra, gerente regional do Senai-SP (Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial), hoje, “as competências mudam a todo instante”. Além da necessidade constante de atualização, problema que se verifica é a falta de engenheiros. Ele concluiu: “Precisamos formar mais pessoas com esse conjunto de competências e ampliar ofertas nessas áreas, através de parcerias. Em cidades como Guaratinguetá, Caraguatatuba, Jacareí, São José dos Campos e São Sebastião já estão sendo firmadas, com o poder público e a iniciativa privada.” Para Luiz Eugenio Veneziani Pasin, professor da Unitau (Universidade de Taubaté), é ainda crucial desenvolver nas pessoas a “cultura do empreendedorismo”.

Um projeto para o País
       Pró-reitor de extensão e assuntos comunitários da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), Mohamed Habib, vai além: “Um país que garante espaço na universidade para apenas 10% de seus jovens não é justo.” Na sua opinião, programas sociais são importantes, mas, para o Brasil avançar da septuagésima posição no IDH (Índice de Desenvolvimento Humano), é preciso um projeto educacional. Segundo o gerente de engenharia da TV Vanguarda, Sandro Sereno, a TV digital pode ajudar nesse sentido, mas não será a solução para todos os problemas. “É necessário um projeto por trás”, ratificou. É essencial ainda um plano nacional de desenvolvimento econômico e políticas sustentáveis, inclusive à área agrícola, acredita Habib.
       Segundo sua fala, o modelo de desenvolvimento global hoje é suicida. “O mundo está dividido entre 20% de ricos e 80% de pobres. Os primeiros consomem 80% da riqueza do planeta, detêm 95% do acesso à informação e 99,4% das patentes. Essa é a causa da miséria, da exclusão. Enquanto continuar a doença de apropriação do conhecimento, o mundo vai continuar nessa situação.” O Brasil reproduz esse cenário: enquanto 1% da população é dona de 53% das riquezas, 10% não tem absolutamente nada. “É preciso aproximar os extremos.” Para ele, iniciativas como o “Cresce Brasil” apontam um caminho nessa direção. “A conscientização coletiva é fundamental e depende do diálogo, desse exercício que estamos fazendo aqui. Temos que nos engajar.”
       Abordando o tema do meio ambiente e mudanças climáticas, Jojhy Sakuragi, professor da Univap, foi categórico: “Com o modo de vida atual, estamos acabando com os recursos naturais. É imprescindível sustentabilidade, senão não tem volta.” Coordenadora do curso de engenharia ambiental dessa universidade, Maria Regina de Aquino Silva deu o recado: “É preciso ‘engenheirar’ para todos.” Alcançar o desenvolvimento preconizado, para a coordenadora do curso de gestão ambiental da escola, Ana Catarina Farah Perrella, depende, entre outras coisas, de planejamento e do investimento em novas tecnologias.
        Desenvolvimento urbano e memória da engenharia e da arquitetura foi o tema da palestra de Edson Aparecida de Araújo Querido Oliveira, professor-doutor da Unitau, que lembrou essa trajetória desde os tempos das cavernas até os dias atuais. Para ele, não se pode prescindir de conhecer o passado e os desafios enfrentados para poder evoluir.
        Ao final do evento, Clovis Nascimento Filho, representando o presidente do Confea (Conselho Federal de Engenharia, Arquitetura e Agronomia), Marcos Túlio de Melo, apresentou ao público o Sistema Confea/Creas, ao qual cabe habilitar os profissionais da área tecnológica a exercerem sua função.


Soraya Misleh

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