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Evento discute ações para garantir sustentabilidade a Marília e região

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      O desenvolvimento socioeconômico e ambiental da localidade esteve em pauta durante o 1º Seminário “Cresce Brasil + Engenharia + Desenvolvimento – Edição Marília e região”. Promovido pelo SEESP, por intermédio de sua delegacia sindical em Marília, juntamente com o Conselho Tecnológico Regional, a FNE (Federação Nacional dos Engenheiros) e a CNTU (Confederação Nacional dos Trabalhadores Liberais Universitários Regulamentados), o evento foi realizado no dia 5 de maio, na Unimar (Universidade de Marília), nessa cidade. 
      Um público aproximado de 500 pessoas, em sua maioria formado por estudantes, lotou o auditório. Na abertura, o presidente do SEESP, Murilo Celso de Campos Pinheiro, destacou que os futuros engenheiros representam a esperança de continuidade na luta por um país melhor. E convidou a jovem plateia a se engajar ao movimento “Cresce Brasil” – projeto lançado pela FNE em 2006 que propugna por uma plataforma nacional de desenvolvimento sustentável com inclusão social, discussão que vem sendo descentralizada para as regiões e municípios por intermédio dos Conselhos Tecnológicos Regionais. Até o momento, há 19 implantados, em locais nos quais o sindicato conta com delegacias. Nessa linha, a iniciativa culminou com a “Carta de Marília”, a qual reúne conclusões ao desenvolvimento local (veja quadro).
      Prestigiaram o seminário diversas autoridades. Entre elas, além do vereador da cidade Sydney Gobetti (PCdoB), representando o presidente da Câmara Municipal, Eduardo Duarte do Nascimento, e do pró-reitor de graduação da Unimar, José Roberto Marques de Castro, os prefeitos de Marília, Mário Bulgareli, e de Pompéia, Oscar Yasuda, e os secretários adjuntos do Estado de São Paulo Flávio Brízida (Esporte, Lazer e Turismo) e Antonio Júlio Junqueira de Queiroz (Agricultura e Abastecimento).
      Abordando o tema “Agronegócio”, este último apontou que em 2008 a dotação a sua pasta foi de R$ 150 milhões e neste ano estão previstos R$ 80 milhões, dado o contingenciamento. “Esperamos uma suplementação.” À área, já chegaram a ser destinados no passado 3% do Orçamento Geral do Estado; hoje são apenas 0,66%.
      Ele apresentou o panorama do setor no território paulista – que responde por 20% de tudo o que é produzido “da porteira para dentro” no Brasil e é líder na exportação de insumos –, bem como os programas da secretaria. Entre eles, o “Pró-trator”, para aquisição do equipamento a juro zero ao pequeno e médio produtor rural, com renda bruta anual até R$ 400 mil; o “Melhor caminho”, para recuperação de estradas e vicinais; e o investimento em pesquisa e desenvolvimento, o que inclui a recuperação e melhoria de laboratórios. “Nos últimos dois anos, investimos R$ 30 milhões nisso e para este ano dispomos de mais R$ 18 milhões”, afirmou Junqueira. Além disso, como forma de desenvolver as regiões, o Governo do Estado pretende incentivar o turismo rural. 
      François Régis Guillaumon, presidente da Cooperativa dos Cafeicultores da Região de Marília, enfatizou, contudo, que as demandas na cidade ainda são muitas. E que as instituições locais não têm financiado trator a juro zero, conforme o programa instituído pelo Governo do Estado, aos cafeicultores. “Estranhamos isso, pois esses respondem por 25 mil hectares na região, só perdem para a pecuária. Além disso, eles não conseguem fazer seguro, a não ser da safra. Numa chuva de granizo, por exemplo, garantiriam a colheita, mas perderiam a lavoura.” Segundo ele, o melancieiro também tem tido dificuldades nisso. Já Antonio Jorge Favoreto, secretário da Agricultura do município, observou que a rede de pesquisa não tem contemplado a localidade e que seria importante a reativação do pólo Apta (Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios) em Marília ou mais técnicos para a região. Além disso, ele reivindicou ao Governo do Estado linha de crédito específica, de longo prazo e a juros subsidiados, à conservação do solo. “Precisamos agregar valor às nossas atividades.”
       Sobre o não-cumprimento do programa “Pró-trator”, Junqueira asseverou: “Não é para acontecer isso”, prometendo providências mediante informações precisas. Quanto ao seguro rural, ele admitiu que ainda é pouco utilizado – por apenas 3,37% das UPAs (Unidades de Produção Agropecuária), que totalizam mais de 324 mil no Estado, sendo 4.648 delas em Marília. Mas, informou, já deu para melhorar a cobertura a produtores de frutas muito sensíveis, como uva, caqui. E concluiu: “Todas as demandas estão anotadas, vamos ver o que é possível fazer.”

Segurança alimentar e água
     
Relacionado à produção agrícola, foi objeto da apresentação de Elisabete Salay, professora livre-docente do Departamento de Alimentos e Nutrição da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), o tema “Segurança alimentar”. Segundo ela, a disponibilidade energética per capita no Brasil é suficiente, entre 3 mil e 3,2 mil kcal/dia. Não obstante, no País, entre 5% e 20% de sua população sofre de desnutrição. E esse índice já foi pior: entre crianças de zero a cinco anos, por exemplo, em 1996 era praticamente o dobro, 13,5%, ante 6,8% atuais. Ainda conforme sua explanação, dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) mostram que, entre os adultos, as mulheres são mais atingidas, principalmente em regiões mais pobres. Para Salay, é fundamental trabalhar tanto para garantir a disponibilidade de alimentos quanto o acesso. O que inclui o incentivo à produção, muito embora o problema de desnutrição no Brasil não seja por insuficiência nesse campo, mas devido à desigualdade social. Tanto que começa a mudar esse quadro, mediante a melhora da renda da população, com a aplicação do Programa Bolsa Família. Este atende 11,1 milhões de famílias brasileiras, sendo que em Marília são beneficiadas quase 5.800. Outra iniciativa importante, que deve ter continuidade, mas ser melhorada, na sua visão, é o PNAE (Programa Nacional de Alimentação Escolar). Implantada em 1955, assegurou merenda escolar a 34,6 milhões de crianças em 2008.
      Conforme a professora, se por um lado começa a diminuir a desnutrição, por outro ganha importância no Brasil a deficiência de micronutrientes. “Mais de 40% da população tem anemia. A carência de ferro é um problema muito grande, assim como de vitamina A.” E devido à má alimentação, tem crescido o número de casos de doenças crônicas não transmissíveis e de obesidade. 
      Presidente da Adima (Associação das Indústrias de Alimentos de Marília), Alexandre Martins falou sobre a contribuição da cidade para garantir segurança alimentar. Segundo ele, o município, conhecido como “capital nacional dos alimentos”, produz mensalmente 32 mil toneladas desses e 200 mil embalagens, vendidas para todos os estados brasileiros e os cinco continentes. As indústrias do setor empregam diretamente 7.500 pessoas e indiretamente mais de 20 mil. Além disso, Marília congrega diversas instituições de ensino e pesquisa que permitem a formação na área. Na sua concepção, a busca agora é para se assegurar hábitos de consumo mais saudáveis junto à população. “O brasileiro está comendo mal. Temos que ter o compromisso de mudar isso através da educação”, concorda Écio Vidotti Filho, gerente industrial da Marilan Alimentos.

Recursos hídricos
      A produção de alimentos depende de recursos hídricos, tema da apresentação de Lourdes Cristina Pena Peloggia, diretora técnica da Quimbiol. Ela abordou especificamente a necessidade de preservação das águas subterrâneas, sobretudo do Aquífero Guarani, transfronteiriço e uma das maiores reservas brasileiras, de grande importância para toda a região. “Marília tem que cuidar dos seus aquíferos. Aqui são três que fornecem água. O Guarani é de difícil recarga, confinado, há mais de mil metros de profundidade. O Bauru é menos suscetível. Esses são fatores de desenvolvimento local, condicionam a questão socioeconômica”, pondera Emílio Carlos Prandi, geólogo da Diretoria da Bacia do Peixe Paranapanema do Daee (Departamento de Águas e Energia Elétrica).
      Ele alerta ainda para o problema do uso inadequado do solo, que faz com que os recursos hídricos na região sofram com fortíssimo assoreamento. Na ótica do engenheiro Luiz Eduardo Nardi, diretor da Delegacia Sindical do SEESP em Marília, é fundamental fortalecer o Daee como órgão gestor de recursos hídricos no Estado, além de ter planejamento nessa área. Formar competências para garantir que não haja utilização das águas subterrâneas de modo desregrado e desenfreado é igualmente crucial, considera ele.

Mais engenheiros
     
Esses profissionais são imprescindíveis a que o desenvolvimento da região – em curso – ocorra de forma sustentável e com inclusão social. “O novo mapa do mundo mostra áreas totalmente alijadas desse processo e da evolução tecnológica. E desse conhecimento depende a melhoria da qualidade de vida”, afirmou João Sergio Cordeiro, professor adjunto da UFSCar (Universidade Federal de São Carlos) e presidente da Abenge (Associação Brasileira de Ensino de Engenharia). O Brasil está atrasado: aplica apenas 1% do PIB (Produto Interno Bruto) em pesquisa e desenvolvimento, enquanto na Comunidade Europeia o percentual é de 2% a 3%. Na região, como ressaltou ele, setores-chave como agronegócio, industrial e de saúde podem ter grande ganho com maior investimento nisso. E com a valorização do relacionamento universidade--empresa para a garantia de inovação. Além disso, Cordeiro enfatizou que, com a velocidade do conhecimento, é imprescindível a educação continuada. “Não se pode mais imaginar o curso de graduação como terminal”, atestou José Roberto Cardoso, vice-diretor da Escola Politécnica da USP (Universidade de São Paulo) e coordenador do Conselho Tecnológico Estadual do SEESP.
      Mais ainda: é preciso dobrar o número de graduados na área, como propugna o “Cresce Brasil”. “Em 2008, o País formou 35 mil engenheiros; a Coréia do Sul, 80 mil. Não se tem inovação e qualidade de vida sem esse profissional.” Na sua ótica, a situação nacional é consequência da opção feita pelo ensino médio nacional, o qual “não tem viés tecnológico, é humanista”. Assim, 76% da graduação é em ciências humanas e sociais; apenas 8% é em engenharia. “Não podemos deixar de investir na profissão, que não vem sendo utilizada como deveria.” Isso implica ainda formar mais doutores e aproveitar essa mão de obra na indústria, e não apenas na academia. “No Brasil, são 4,4 doutores para cada 100 mil habitantes. E 80% deles ficam na universidade.” Para Cardoso, é fundamental ao País dar um salto tecnológico e isso depende da quebra desse paradigma.

Conclusões
     
Ao final do 1º Seminário “Cresce Brasil + Engenharia + Desenvolvimento – Edição Marília e região”, o presidente do SEESP, Murilo Celso de Campos Pinheiro, leu a “Carta de Marília”. Essa apresentou algumas conclusões e propostas de ação ao desenvolvimento socioeconômico e ambiental da localidade, tais como: a necessidade de um plano diretor para a agricultura, que aponte as políticas públicas necessárias à cidade e região; de estímulo ao turismo rural e ecológico; de incremento na educação alimentar; de planejamento e uso sustentável dos aquíferos; de incentivo à qualificação e requalificação profissional, bem como à ciência e tecnologia, com sua popularização e utilização voltada ao desenvolvimento regional.


Soraya Misleh
 

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