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Os impactos da pandemia no ensino de engenharia

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Rosângela Ribeiro Gil

 

Lucas dos Santos Azevedo: desafio além do comum. Foto: Acervo pessoalA pandemia de Covid-19 trouxe mudanças radicais no formato do ensino também para os estudantes de engenharia. Para Lucas dos Santos Azevedo, presidente da seção estudantil da Associação Brasileira de Educação em Engenharia (Abenge), a necessária transição do modelo presencial para o remoto a partir de março de 2020, quando se instalou a crise sanitária no País, “trouxe um desafio além do comum” na vida desses discentes.

 

No total, são 80 mil matriculados nos cursos da área, segundo o Censo da Educação Superior 2019 do Ministério da Educação. Desse universo, informa Azevedo, “aproximadamente 42.737 em âmbito público e 36.780, no privado”.

 

Graduando do sexto semestre de Engenharia Física da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), ele informa que a Abenge Estudantil está acompanhando as alterações e atenta aos riscos e oportunidades que surgem neste momento.

 

Simone Ramires: impactos com falta de convivência e isolamento. Foto: Acervo pessoalNa sua opinião, a pandemia antecipou a necessidade de empreender esforços para alcançar o cenário proposto nas novas Diretrizes Curriculares Nacionais (DCNs), de 2019, como o estímulo às atividades práticas para o exercício da criatividade e do espírito de inovação, a adoção de metodologias de aprendizagem ativa, a diversificação dos instrumentos de avaliação, dentre outros. “Essas ferramentas de tecnologias de ensino e aprendizagem são necessárias para que o engenheiro do futuro comece a tomar corpo”, acredita.

 

Todavia, admite Azevedo, não está sendo um caminho tranquilo. “Estamos identificando problemas que afetam mais os extremos dos cursos, calouros e formandos. Os primeiros porque chegam em um ambiente completamente novo e desconhecido, podendo afetar a motivação do aluno. Já os formandos sofrem essa ruptura, após anos vivendo e se preparando para o final do curso, que pode acarretar um desempenho inferior por impossibilidade de acessar locais e obter dados para pesquisa”, avalia.


Os efeitos também são sentidos pelo corpo docente, como relata a professora Simone Ramires, no Departamento de Engenharia Mecânica da Escola de Engenharia da UFRGS e coordenadora do Núcleo de Ações Discentes da Escola de Engenharia (Nadi/EE) da instituição. “A falta de convivência foi impactante, ficar isolado, adaptar-se ao meio virtual para reuniões, fóruns, capacitação para plataformas, tantas mudanças e rápidas. No início foi complicado, mas somos seres que nos adaptamos. O que fica mesmo é a saudade dos colegas, da equipe, dos discentes, do contato e das conversas de corredores”, diz. Na UFRGS, os estudantes da área totalizam 4.927 em 13 cursos.

 

Marcelo Nitz: perdas passageiras e aprimoramento de competências. Foto: Divulgação/IMTComo salienta o pró-reitor do Instituto Mauá de Tecnologia (IMT), Marcello Nitz, toda a sociedade está sofrendo privações em razão da gravidade da pandemia, não é diferente com os estudantes de engenharia. A despeito disso, ele está otimista que será uma perda passageira e recuperável, “porque logo retomaremos as aulas de laboratório presenciais e todos poderão voltar a se encontrar pessoalmente, com as devidas cautelas”. Para ele, se deixam-se de desenvolver algumas competências socioemocionais pela redução do convívio social presencial, outras são aprimoradas, como a resiliência e a autonomia.

 

 

Adaptação compulsória

  

Nitz frisa: “Todos tiveram de se adaptar, alunos, professores e pessoal técnico-administrativo.” O IMT, afirma ele, já operava recursos e plataformas de ambiente virtual, mas como apoio aos cursos presenciais, o que, não obstante, facilitou a migração para o ensino remoto dos 2.400 discentes dos nove cursos de engenharia. Todavia, acrescenta, “as aulas têm uma dinâmica diferente quando mediadas por tecnologia e exigem técnicas especiais para promover o engajamento dos estudantes".

 

Essa também era a realidade na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), informa a pró-reitora de graduação e professora Eliana Martorano Amaral. Por essa razão, acredita que foi possível realizar rapidamente, a partir de 12 de março do ano passado, a transferência dos 6.200 alunos de engenharia da universidade, organizados em 17 cursos, assim como de toda a instituição para o ensino remoto emergencial. Na sua visão, a mudança em meio à pandemia acelerou preocupação já existente com "estratégias educacionais mais modernas" na instituição.

 

Não obstante, Amaral reconhece que é diferente mudar para aulas síncronas [em que a interação docente-aluno ocorre em tempo real] e passar de uma sala de aula com 140 alunos para um espaço virtual de uma hora para outra. Para dar conta do desafio, a instituição criou grupos de trabalho nas áreas pedagógica e tecnológica, com treinamentos, assessoria e apoio para todo o universo acadêmico – docentes, discentes e quadro administrativo.

 

A principal adaptação foi feita para as práticas de laboratório, atestam os representantes do IMT e da Unicamp. “No primeiro semestre de 2020, algumas dessas práticas eram transmitidas pelos professores, outras eram substituídas por atividades de análise e interpretação de dados e outras eram realizadas a distância, por meio de sistemas desenvolvidos para que os alunos pudessem operar equipamentos reais remotamente, o que chamamos de weblabs [laboratórios de acesso remoto]”, descreve Nitz.

 

Eliana Martorano Amaral: criação de estrutura pedagógica e tecnológica de apoio. Foto: Divulgação/UnicampNa Unicamp, exemplifica Amaral, “em alguns casos, como nos cursos de física e química, por exemplo, foram enviados kits de experimentos para as residências dos alunos ou utilizados laboratórios online. Ou mesmo os professores iam sozinhos ao laboratório e mostravam, em vídeo, todas as etapas do experimento, e os alunos tinham de interpretar os resultados e os dados coletados. Havia a valorização da capacidade de manipular e entender dados e conceitos”.

 

Mesmo com toda adaptação necessária, o coordenador do Grupo Gestor de Tecnologias Educacionais (GGTE) da universidade em Campinas, Marco Antonio Garcia de Carvalho frisa que “as atividades de ensino não foram paralisadas. Logo na sequência foi montado um conjunto de orientações, concentradas em uma página de apoio ao ensino digital, para que docentes pudessem continuar suas atividades remotamente”.

 

A migração compulsória vem trazendo descobertas inclusive para os professores, assevera ele, relatando experiências de docentes dos cursos de engenharia da Unicamp, que vêm da sala tradicional com quadro para escrever fórmulas e aulas expositivas. “Na aula remota, estão descobrindo a utilização de ferramentas, como gravar a aula expositiva e no momento síncrono discutir exercícios, experiências, debater mais com os alunos. É trazer um pouco a aula invertida, deixar de ser apenas um ensino de conteúdo.”

 

O presidente da Abenge Estudantil faz questão de diferenciar os formatos remoto e educação a distância (EAD). O primeiro, como afirma, “não é uma modalidade de ensino, mas sim uma solução rápida e acessível para momentos de necessidade como o atual ou para assuntos pontuais”. Ou seja, as aulas são síncronas, lecionadas em dias e horários específicos, com as mesmas turmas que haveria no modo presencial.

 

Já o EAD, explica Azevedo, “possui uma metodologia própria, baseada em concepções didático-pedagógicas que estruturam os conteúdos para que se tornem flexíveis e abrangentes para todas as atividades e com design específico para cada área do conhecimento”.

 

 

Ensino híbrido

 

José Roberto Cardoso: tendência no pós-pandemia é ensino híbrido. Foto: Beatriz Arruda/Acervo SEESPO formato híbrido – presencial e remoto –, acredita o professor da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (Poli-USP) e coordenador do Conselho Tecnológico do SEESP, José Roberto Cardoso, pode ser visto como uma adoção provável para os cursos de engenharia futuramente. “O ensino online, ao qual muitos eram refratários, ocupou espaço muito bom nessa pandemia. Desmistificou aquela forma de pensar de que se aprende apenas com o contato pessoal com o professor. No entanto, não creio que substituirá, em definitivo, o ensino presencial”, pondera.

 

Para ele, os alunos continuarão indo à universidade, não mais para assistir às aulas tradicionais e sim para fazer projetos, participar de atividades de laboratório, assistir palestras e encontrar com o professor em horários agendados para tirar dúvidas e pedir orientação. “Note que o papel do professor vai, a meu ver, mudar, deixando de ser um transmissor puro e simples de conhecimento para ser um tutor que orienta o estudante a encontrar o conhecimento onde ele estiver”, aposta.

 

Levantamento realizado pelo Nadi/EE com a participação de 245 discentes das engenharias da UFRGS, de todos os semestres, em março último, revela que 85,3% dos estudantes têm interesse em adotar algumas cadeiras em formato híbrido/remoto após o período de ensino emergencial. "Ou seja, identificamos potencial dentro da universidade em trazer uma educação híbrida, adaptada e moderna”, diz o aluno Giovanni Falcão Mendes, que integra esse núcleo.

 

Giovanni Falcão Mendes em aula: apenas um terço dos alunos se adaptou bem ao ensino remoto. Foto: Acervo pessoalA pesquisa, que trouxe esse elemento e buscou identificar as melhorias em geral a serem realizadas para tanto na unidade, focou informações sobre método de acesso às aulas, transporte e tempo gastos pelos alunos comparados ao ensino presencial, bem como satisfação dos estudantes quanto ao ensino remoto. Em relação a este último item, Mendes aponta que "33,4% relataram estar satisfeitos ou muito satisfeitos, 41,2%, neutros e 25,3%, insatisfeitos ou muito insatisfeitos”. O que significa que "somente 1/3 dos estudantes realmente se adaptou bem ao ensino remoto. O que é bastante preocupante para nós, já que é o segundo semestre nessa modalidade".

 

O levantamento, explica ele, também revelou as principais queixas dos discentes: aulas mais longas, aumento da carga de conteúdo e tarefas, mais atividades avaliativas, qualidade baixa de algumas aulas gravadas, pouco dinamismo e organização das aulas e descentralização de plataformas de ensino e vídeo, com a utilização do Moodle, Meets, Zoom, Microsoft Teams, entre outros.

 

 

Retorno sem previsão

 

As três instituições de ensino ainda não têm, contudo, data para o retorno das atividades presenciais, já que a pandemia não está sob controle. Nitz enfatiza que a prioridade é a saúde da população, por isso, o IMT seguirá as orientações das autoridades, respeitando “os imprescindíveis protocolos de higiene quando for autorizado o retorno”.

 

Ao afirmar que “depois de um ano e meio de ensino remoto emergencial, estamos sobrevivendo”, Amaral destaca que a Unicamp constituiu 11 grupos de trabalho que mantêm contato diário sobre a evolução do quadro pandêmico e analisa todas as condições de retorno quando a situação permitir. Ela esclarece que o universo diário da universidade de Campinas ultrapassa 55 mil pessoas por dia, entre alunos de graduação, pós, equipe de professores, quadro administrativo e usuários de serviços de saúde disponibilizados pela instituição à comunidade. “O cenário ideal para esse retorno é quando 80% da população, pelo menos, estiver imunizada”, analisa. 

 

 

Relatos de estudantes em levantamento do Nadi/UFRGS*

 

“Acredito que o ensino remoto está sendo uma substituição razoável das aulas presenciais, mas alguns professores ainda não conseguiram se adaptar da melhor forma a esse regime, não utilizando as ferramentas disponíveis com eficiência."

Engenharia Física, 9° semestre

 

 

“Está bastante complicado se manter organizado/notas boas estudando por conta em casa. Entretanto, o ensino remoto também traz várias ferramentas didáticas consigo, contanto que o professor tenha interesse.” 

Engenharia Civil, 5° semestre

 

 

“[...] acabo ocupando grande parte do meu dia em frente a telas, o que está fazendo muito mal para minha saúde (física e mental).” 

Engenharia Química, 1° semestre

 

 

“Sinto falta do contato com meus colegas e até mesmo professores. Sinto que nas aulas presenciais os alunos se dispõem muito mais a tirar dúvidas e interagir, nas aulas síncronas não é tão assim, e sinto falta de ter a opção de encontrar o professor na sua sala para conversar/tirar dúvidas.” 

Engenharia Química, 5° semestre

 

 

“Estou aprendendo muito mais com aulas gravadas, nenhum conteúdo é perdido. Consigo estudar horas a mais em comparação com o presencial. Minha alimentação não é prejudicada, consigo me alimentar de forma saudável. Minha saúde mental está revitalizada, não sofro mais com estresse e ansiedade, toda manhã, por não saber se iria conseguir pegar o ônibus, por nunca conseguir estudar o suficiente e por não entender ou perder alguma aula cujo conteúdo era importante.” 

Engenharia de Materiais, 3° semestre

 

 

“Embora eu sinta falta do contato com meus colegas e com o ambiente universitário, tenho ficado satisfeito com o ensino remoto, pois tenho conseguido melhorar minha forma de estudar e de assistir as aulas, criando um método mais personalizado para o meu ritmo de aprendizado, coisa que não conseguia fazer na época presencial.”  

Engenharia de Materiais, 3° semestre

 

 

“O ensino remoto é muito bom para mim. Como moro longe e gasto quase 5h por dia em transporte, me proporciona economia de tempo e dinheiro da passagem. Eu, assim como outros alunos da UFRGS, pego três conduções para chegar ao campus. Além disso, ter as disciplinas de forma remota tornou a aprendizagem muito melhor, já que as aulas ficam gravadas e os materiais ficam disponíveis, e os professores e monitores ficam disponíveis para tirar dúvidas vários dias da semana. Eu aprendo mais dessa forma do que em sala de aula.” 

Engenharia Ambiental, 3° semestre

 

 

“Aulas gravadas abrem a possibilidade de voltar e assistir o mesmo conteúdo, não deixando passar detalhes importantes. Juntar as gravações com aulas para tirar dúvidas acaba sendo bem efetivo nas minhas cadeiras. Em vista das dificuldades existentes pelo ensino remoto, acredito que as videoaulas estão sendo muito boas! No entanto, algumas atividades presenciais, como laboratórios ou mesmo a troca de conhecimento entre alunos e professores, acredito que estão sendo bem prejudicadas.”

Engenharia de Minas, 1° semestre

 

* Nomes dos estudantes preservados.

 

 

Foto do destaque na matéria: Eliana Martorano Amaral / Acervo pessoal

 

 

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