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OPINIÃO - A crise financeira como sintoma

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Marco Aurélio Cabral Pinto

         A partir do século XVI, acelerou-se a urbanização e a produtividade do trabalho humano, permitindo-se a ampliação da expectativa de vida com promessas de universalização da prosperidade pela via do consumo de massas. A civilização judaico-cristã tem, desde então, dependido progressivamente do ritmo de geração de novas tecnologias para a sustentação de níveis de ocupação e de consumo, bem como da expansão territorial e cultural em domínios anteriormente ocupados por outras vias civilizatórias.
         Ocorre que, desde a década de 70 do século XX, tem sido cada vez mais difícil para os países centrais abrirem espaços mercadológicos a produtos da “velha indústria”, o que os aprisiona estruturalmente em trajetórias de baixo crescimento econômico. Dado que a diminuição no ciclo de vida dos produtos e sua diferenciação eram estratégias já em curso desde o final da Segunda Guerra Mundial, desde os anos 80 se observam, no centro capitalista, tentativas de manutenção dos níveis de consumo através de políticas de crédito expansionistas para aquisição de bens duráveis e imóveis.
        Enquanto o combate à inflação de preços para itens de consumo tornava-se o objetivo público prioritário no mundo todo, pouco se falava da inflação de preços em mercados de capitais. Dado que os patrimônios das empresas eram (e continuam a ser) “marcados a mercado”, na trajetória ascendente têm-se incentivos poderosos à continuidade do processo, com efeitos ilusórios de enriquecimento e maiores níveis de consumo relativo.
        Agravante dessa situação foi o enfraquecimento, deliberado a partir dos Estados Unidos desde os anos 80, dos principais mecanismos de estabilização supranacionais criados para se evitar qualquer chance de degradação econômica e política do sistema interestatal – o FMI (Fundo Monetário Internacional) e a ONU (Organização das Nações Unidas).
        A crise financeira internacional em curso desde setembro de 2008 parece impor ajuste forçado nos níveis de consumo mantidos artificialmente elevados pela financeirização da riqueza. Parece ainda precipitar, nos países centrais, a urgência de se constituir novo paradigma tecnológico em torno de aplicações da tecnologia digital e da biotecnologia. Finalmente, aponta para um mundo multipolar e progressivamente conflituoso, propício a aventuras militares como saída para pressões internas crescentes por emprego nos países centrais.
         Nesses termos, o Brasil deve mobilizar o máximo de esforços públicos e privados pela busca de pioneirismo tecnológico no novo paradigma, ao mesmo tempo em que potencializa o consumo em faixas inferiores de renda como reservatório econômico para cruzarmos os tempos difíceis que teremos pela frente.


Marco Aurélio Cabral Pinto é professor da UFF (Universidade Federal Fluminense) e consultor em Ciência & Tecnologia do projeto “Cresce Brasil + Engenharia + Desenvolvimento”

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