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OPINIÃO - Perspectivas da crise no mundo árabe

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Mohamed Habib

       Como num efeito em cascata, os povos árabes estão escrevendo uma nova página na sua história, buscando a construção de países soberanos e governos democráticos e respeitadores dos direitos humanos, após décadas de opressão por ditaduras fabricadas para manter protegidos os interesses econômicos dos países centrais.

       Embora todos os países atingidos pelos recentes levantes populares guardem semelhanças na fase inicial desses processos, cada um terá a marca da sua identidade no que se refere à velocidade, à dramaticidade da situação, ao grau da violência e mesmo em relação à resistência do atual governante. Contarão fatores internos, como a natureza cultural de cada povo e o grau da sensibilidade e/ou civilidade do governante de plantão. E também haverá influências externas de acordo com o olhar e os interesses dos países centrais em cada caso, principalmente no que se refere ao petróleo e à localização geográfica.

       O Egito, por exemplo, tem uma grande importância política, apesar de não estar entre os maiores produtores de petróleo, tanto para os países árabes como para o Ocidente. Dependendo da ideologia do seu governo, poderia ser aliado de um lado ou de outro. Tudo indica que, após o plebiscito realizado em 19 de março sobre a nova Constituição, o próximo governo e Parlamento, a serem eleitos até outubro, terão um perfil mais alinhado aos interesses da sociedade egípcia e com maior qualificação para manter uma relação mais respeitosa com as demais nações.

       Num outro extremo, pode-se ver a situação sangrenta no país vizinho, a Líbia, onde Muammar Gaddafi não quer “largar o osso” e provoca uma guerra interna, massacrando seu próprio povo. O Conselho de Segurança da ONU (Organização das Nações Unidas) aprovou uma intervenção militar contra as forças armadas do ditador. Por um lado, isso pode salvar vidas de civis, mas, por outro, deixará o país bastante castigado em sua infraestrutura. É provável que o ditador deixe o poder nos primeiros dias de abril.

       Tunísia e Iêmen são situações intermediárias, em que o ditador do primeiro país já foi deposto e o segundo está bem próximo. Argélia, Síria, Jordânia, Bahrein são exemplos de países árabes que passam por manifestações populares de insatisfação por motivos políticos de diferentes naturezas.

       O mundo árabe muda de fisionomia em graus variáveis, pois a região começou a escrever uma nova página na sua história. Tudo indica que nas repúblicas se alcançarão resultados mais visíveis, com implementação de mandatos de quatro a seis anos para presidente, permitindo-se apenas uma reeleição. As monarquias tenderão a flexibilizar as leis, dar mais direitos à mulher, constituir parlamentos mais representativos e investir nos programas básicos para o desenvolvimento social.

       A relação com Israel tende a se configurar, num futuro próximo, como positiva e duradoura, à medida que os árabes alcancem a sua democracia. Isso porque acordos de paz firmados com ditadores, que não levam em consideração o direito dos seus povos, além de serem injustos, só têm efeito enquanto o tirano estiver no poder.


Mohamed Habib é engenheiro agrônomo, vice-presidente do Instituto da Cultura Árabe
e pró-reitor de Extensão e Assuntos Comunitários da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas)

 

 

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