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Agrônomos são essenciais para prevenir tempestades de poeira no País

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Deborah Moreira

 

Tempestade de poeira registrada no dia 1º de outubro deste ano, em Morro Agudo, interior de Sâo Paulo. Foto: Climatempo 

Temperaturas elevadas, falta de chuva, uso e ocupação do solo desordenados, desmatamento, ausência de fiscalização para conter queimadas e rajadas de vento. Essa é a combinação que resultou em um novo fenômeno nas regiões Centro-Oeste e Sudeste do Brasil: as tempestades de poeira. A partir da análise de suas causas, os engenheiros agrônomos podem apresentar técnicas e alternativas sustentáveis ao plantio no campo, garantindo umidade do solo, de modo a prevenir
novas ocorrências.

As tempestades de poeira vêm acontecendo desde o dia 26 de setembro último, quando a primeira foi registrada no interior paulista, e têm se repetido também em municípios de Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Minas Gerais. É consenso entre os especialistas ouvidos pelo Jornal do Engenheiro que são consequência das mudanças climáticas. No Brasil, a principal causa é o desmatamento. Estudos recentes comprovam que a diminuição da Floresta Amazônica impacta diretamente o fenômeno conhecido por "rios voadores". Ou seja, “cursos d´água atmosféricos, formados por massas de ar carregadas de vapor, muitas vezes acompanhados de nuvens, e que são propelidos pelos ventos” para o Centro-Oeste, Sudeste e Sul do Brasil, transformando-se em chuva, conforme informação do Projeto Rios Voadores, voltado à educação ambiental.

 

Para o meteorologista e especialista em sensoriamento remoto Humberto Alves Barbosa, que atuou entre 2017 e 2019 como coordenador do capítulo sobre a influência da superfície terrestre na atmosfera do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), a ocorrência das tempestades de poeira evidencia que o País foi negligente, uma vez que esses são os primeiros sinais de uma tendência apontada pelo painel há mais de dez anos, de que as regiões centro-sul do Brasil, Nordeste e Amazônia enfrentariam temperaturas elevadas e redução de chuva. “Essas tempestades ficarão mais intensas e frequentes em função dos fatores de clima que ainda vão se intensificar, com temperaturas cada vez mais altas nessas regiões. Estamos 1,2 grau celsius mais quentes, se comparado ao ano de 1850. Percebe-se redução das chuvas em diversas regiões e ecossistemas brasileiros. Em pontos isolados, haverá excesso de chuva.”

 

Manejo para ter alimentos

 

No centro-sul do Brasil, a escassez pluvial vem sendo sentida com mais frequência desde 2019, tornando os solos menos úmidos. Somado a isso, os meses de agosto e setembro são os mais secos, período em que ocorre com mais frequência a prática das queimadas nas plantações de cana-de-açúcar que, com os ventos, se alastram e formam os incêndios florestais. “Não vai demorar muito para a formação de um cinturão das tempestades de poeira na região em função dessas condições extremas de ambiente e das nossas práticas agrícolas. Para continuar alimentando as pessoas, teremos que incrementar as práticas de manejo para diminuir a ocorrência desse fenômeno e manter o agronegócio pungente”, assevera Barbosa, que implantou e coordena o Laboratório de Processamento de Imagens de Satélites (Lapis) da Universidade Federal de Alagoas (Ufal). Seguir tal recomendação demandará mais engenheiros agrônomos no campo, de modo a implementar sistemas adequados que garantam proteção do solo em áreas de cultivo.

 

Um dos problemas que pode ser sanado por esse profissional é assegurar adequada cobertura vegetal em faixas de terra. A ausência desta foi verificada na região de Ribeirão Preto, uma das mais atingidas pela tempestade de poeira, em análise feita por Barbosa de imagens registradas pelo satélite Planet Scope e processadas pelo Lapis. Como consequência, o solo ficou exposto à ação dos ventos.

 

imagens sateliteAcima, solo descoberto em Ribeirão Preto: área do município contornada em amarelo; abaixo, zoom de uma talhão arado para plantio totalmente descoberto. Fotos: Satélite Planet Scope, processadas pelo LapisA cobertura vegetal que vem sendo usada desde os anos 2000 é a palha resultante da colheita mecanizada da cana, motivada pela Lei 11.241/2002, que instituiu a eliminação gradativa de sua queima até 2021 em áreas mecanizáveis e até 2031 em não mecanizáveis – regiões com declives que não permitem a entrada das máquinas.

O engenheiro agrônomo Marcílio Vieira Martins Filho, professor do Departamento de Ciências da Produção Agrícola da Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (Unesp), campus Jaboticabal, explica que a palha é a melhor e mais barata proteção para manter o solo úmido e com temperaturas mais baixas.

“Com essa seca na região e os ventos fortes, muitos resíduos de cana sobre a superfície pegaram fogo devido às queimadas que se alastram. O que agravou ainda mais a ausência da cobertura natural do solo, que vem sendo retirada ou também pegou fogo. Alguns empreendimentos também estão retirando essa palha para a produção de energia. Essas condições colaboraram para que ocorresse o fenômeno”, explica o professor da Unesp.

Martins conta que a preparação da terra tem sido feita de maneira tradicional, com aração, gradagem, o que, segundo ele, fragmenta o solo, fazendo com que as partículas mais finas fiquem livres para serem carreadas pela água ou pelo vento. Isso configura erosão eólica, quando as partículas do solo são salpicadas, arrastadas ou suspensas, o que acabou formando as nuvens de poeira.

 

O agrônomo tem aqui a possibilidade de fornecer assistência técnica ao manejo sustentável, o que se torna premente em meio a frentes frias, típicas desta época do ano, vindas da Antártica e que seguem em direção ao Sudeste. “Sua chegada é marcada por ventos fortes e intensos, configurando uma frente de rajada. Esses ventos frios, quando se encontram com o ar quente, provocam uma área de instabilidade, fazendo com que eles se desloquem para baixo, enquanto o ar quente sobe”, atesta Helena Turon Balbino, meteorologista do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet).

Rever as práticas

 

Marcílio Martins ressalta que o agronegócio precisa evoluir para sistemas alternativos que já existem, foram testados em diversas universidades e por órgãos federais como a própria Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). "Como exemplo, cito os sistemas agroflorestais, em que é possível ter outras culturas associadas, que mantêm o solo coberto."

Marcilio Vieira FilhoMarcílio Martins Vieira Filho: agronegócio precisa evoluir para sistemas alternativos. Foto: Acervo pessoalNa contramão disso, ele lamenta, no entanto, que os cultivos têm avançado cada vez mais nas Áreas de Preservação Permanente (APPs), como as matas ciliares. É o que atesta um estudo de conclusão de curso coordenado por ele neste ano sobre a relação da vegetação ribeirinha e a qualidade da água, o qual identificou que quase metade das áreas avaliadas não possui mais vegetação ripária [também denominada ribeirinha ou mata ciliar, relacionada diretamente aos cursos d´água] em faixas que deveriam ter, como determina o Código Florestal (Lei nº 12.651/2012).

Para Barbosa, é necessário que o campo mude sua mentalidade em relação à margem de lucro e passe a adotar práticas de ESG (sigla em inglês de Environmental, Social and Governance – Ambiental, Social e Governança), diretrizes definidas por e para empresas e corporações adotarem uma agenda sustentável. A essa transformação, ainda na sua opinião, a sociedade civil precisa se mobilizar e exigir que haja formulação de políticas públicas para reduzir o impacto sobre as populações. "Se não investir em novos estudos e técnicas, o agronegócio vai precisar entrar com contrapartidas, taxas ambientais que podem ser mais custosas. Não será possível manter as margens de lucro de 40 anos atrás. Em compensação, a partir do momento que as boas práticas forem adotadas, isso se refletirá numa produção mais competitiva no mercado, até em outros nichos", complementa o coordenador do Lapis/Ufal.

Consequências

Essa mudança, com a devida orientação técnica de um engenheiro agrônomo, pode prevenir novas tempestades de areia, que consequentemente retiram os nutrientes do solo, que ficam depositados nos primeiros cinco centímetros da superfície da terra, e levam mais carbono para a atmosfera dessas regiões, aumentando o efeito estufa e tornando o ar ainda pior nas localidades, cujas populações já sofrem com a fuligem das queimadas. Isso impacta a saúde sobretudo das crianças e idosos.

O professor da Unesp lembra que também nessa camada do solo ficam os micro-organismos que são patógenos para determinadas plantas ou culturas: “As tempestades podem transportá-los e causar um ataque de doenças e pragas onde não se esperava.”

Ainda de acordo com ele, a erosão eólica também impacta o armazenamento hídrico, uma vez que "o maior reservatório de água potável que temos é o solo". Não conservá-lo implica, portanto, mais escassez. "Para nós, engenheiros, o solo é um recurso não renovável, porque demora milhões de anos para se formar, enquanto o tempo que usamos para promover danos nele é muito mais curto”, ensina.


Alternativas

humberto barbosa copyHumberto Barbosa: boas práticas protegem meio ambiente e refletem em produção mais competitiva. Foto: Acervo pessoalOs agrônomos têm a oportunidade de fazer a diferença em meio a desafio de monta. Esses profissionais são fundamentais para garantir ao solo melhores condições nos próximos períodos de seca e evitar a repetição do fenômeno registrado neste ano. Para isso, será preciso reavaliar o regime de vento, de chuvas, avançar no acompanhamento da umidade do solo, ter modelos mais adaptados que projetem situações a curto, médio e longo prazos para melhorar a previsão desse tipo de tempestade. Também será necessário agregar técnicas novas.

 

"Os engenheiros podem se antecipar e melhorar as condições ambientais das áreas de plantio. Os negócios precisarão dessa adaptação para que a produtividade não caia. Isso pode evitar que os governadores e formuladores de políticas passem a exigir contrapartidas", diz Barbosa.

 

Dentre as principais práticas utilizadas para conservação do solo e da água, algumas que contribuem para o aumento da cobertura vegetal são:

Plantio direto: realizado com o mínimo revolvimento do solo, no qual a semeadura é feita mantendo-se cobertura de palhada, a qual ajuda a reduzir impactos das gotas de chuva ou a ação de rajadas de vento.

Rotação de cultura: alternância de diferentes culturas num mesmo local, numa sequência estabelecida em um planejamento técnico.

Culturas em faixas: disposição de culturas em faixas a larguras variáveis, nas quais a cada ano haverá alternância tal que as culturas que ofereçam menor proteção ao solo sejam sucedidas por outras de desenvolvimento mais denso que cubram maior área.

Adubação química e orgânica: contribui para o aumento da fertilidade do solo e melhor desenvolvimento vegetal, porque auxilia na melhoria das propriedades químicas, físicas e biológicas essenciais à ocorrência e manutenção de processos vitais.

Adubação verde: incorporação de vegetais ceifados em pleno florescimento ou ainda verdes para o fornecimento de nutrientes e material orgânico ao solo.

Sistema de Integração Lavoura, Pecuária e Floresta (ILPF): sistema de cultivos que integra a produção de grãos, fibras, carnes, leite, madeiras ou agroenergia em uma mesma área. Além de conservar o solo, permite a diversificação de atividades e o bem-estar animal. Com isso, reduz-se, por exemplo, a necessidade da abertura de novas áreas para a exploração agropecuária. É uma técnica que possibilita imitar a natureza em termos de diversidade de espécies, sequestro de carbono e equilíbrio ambiental.

Cobertura morta: são materiais colocados ou mantidos sobre a superfície do solo para conservação da umidade e melhoria de suas condições físicas, químicas e biológicas. Essa prática é extremamente eficiente na proteção contra o fenômeno da erosão. Um exemplo de sucesso, no uso da técnica, tem sido a manutenção da palhada sobre a superfície do solo nos canaviais paulistas, após a colheita mecanizada da cana-de-açúcar.

 

Foto no destaque: Climatempo



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