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Rita Casaro*

A Federação Nacional dos Engenheiros (FNE) levou para a programação da 74ª Semana Oficial da Engenharia e Agronomia (Soea), realizada em Belém, entre 8 e 11 de agosto, o debate técnico sobre recursos hídricos e agricultura sustentável. A mesa-redonda promovida pela federação aconteceu no dia 10, e contou com a participação de Edson Eiji Matsura, professor titular da Faculdade de Engenharia Agrícola da Universidade Estatual de Campinas (Feagri/Unicamp), e Rui Machado, pesquisador da Empresa Brasileira de Pesquisa e Agropecuária (Embrapa). A condução dos trabalhos ficou por conta do vice-presidente da FNE, atual presidente em exercício, Carlos Bastos Abraham, que destacou a relevância do tema para a economia brasileira. “A queda na economia poderia ser da ordem de 10% ao ano, se não fosse pelo agronegócio”, apontou.

“Nós trabalhamos com oferta, gestão e demanda. E então utiliza-se o recurso hídrico na produção de alimentos. Essa é a estrutura básica”, resumiu Matsura, dando início à sua exposição. Na avaliação do pesquisador, a quantificação e qualificação dos recursos hídricos é fundamental para que se assegure uma agricultura sustentável, “que signifique verdadeiramente ganhos sociais, econômicos e ambientais para as futuras gerações com prazo indeterminado de vencimento”.


Foto: Lucas Queiroz/FNE
Atividade reuniu especialistas durante evento em Belém.

O professor da Unicamp destacou a diversidade regional existente no Brasil – que possui área irrigada de 6 milhões de hectares e 72 milhões de hectares de área plantada – no que diz respeito ao recurso hídrico considerado o mais relevante, ou seja, o advindo das precipitações. Entre a abundância de 2.850mm ao ano na região Norte e a escassez de 550 mm nas porções mais secas do Nordeste, a média nacional fica em 1.797mm, segundo dados apurados entre 1961 e 1990.

Conforme Matsura, outro dado importante entre as diversas estatísticas disponíveis aos estudiosos e profissionais do setor, é a relação entre retirada, consumo e retorno. Um bom exemplo, citou, está na região hidrográfica do Paraná, onde se retiram 479m3/s, consomem-se 189m3/s e se devolvem 290m3/s. Segundo o professor, contribui fortemente para esse uso racional a conservação do solo. Informação também importante para se dimensionar projetos, levando em conta a disponibilidade de recursos hídricos, é a vazão de retirada determinada por litros por segundo por hectare.

Matsura abordou ainda a pegada hídrica, que possibilita o que ele classifica com “um novo olhar para o planejamento e dimensionamento dos recursos hídricos nos sistemas de produção de alimentos”. Determinando o volume total de água consumido direta e indiretamente no processo de produção de bens e serviços, a ferramenta se divide em pegadas hídricas cinza (quantidade de água necessária para diluir os poluentes descartados em corpos d’água, até o nível dos padrões naturais ou outros aplicáveis ao caso), azul (água retirada de corpos d’água de superfície ou subterrâneos, que é evaporada, incorporada nos produtos ou que não retorna ao corpo do qual foi retirada) e verde (água de chuvas consumidas nas atividades agrícolas, envolvendo a acumulação no solo, a evapotranspiração e a incorporação em produtos removidos pelas colheitas). Seguindo, por exemplo, a pegada hídrica do boi, conclui-se que são consumidos 17 mil litros de água para se produzir um quilo de carne.

Inovação e segurança alimentar
Machado, da Embrapa, enfatizou a necessidade de investimentos em pesquisa e desenvolvimento para garantir a sustentabilidade da Machado, da Embrapa: tecnologia é caminho para sustentabilidade. Os avanços tecnológicos no setor, apontou, foram os principais responsáveis pelo aumento da produtividade no Brasil, que saltou de 57,9 milhões de toneladas de grãos por hectare, em 1991, para 141,6 milhões, em 2010. Na safra 2015/2016, a produção foi 188,10 milhões de toneladas de grãos e de 26 milhões de toneladas de carne. Em 2014, produziram-se 38,9 milhões de toneladas de frutas e 35,2 bilhões de litros de leite.

Para além do crescimento da produção, afirmou Machado, outro desafio da inovação tecnológica no setor é a preservação ambiental. O objetivo é reduzir tanto o consumo de recursos naturais, já que a agricultura é responsável globalmente por 70% do uso de água, quanto as emissões de poluentes. Para o pesquisador da Embrapa, crescimento e sustentabilidade não são conceitos antagonistas, mas complementares, sendo possível “aliar prosperidade econômica com melhoria ambiental e social”. Entre as medidas para se alcançar esse objetivo, ele listou o melhoramento genético e a biotecnologia; sistemas de produção integrados; plantio direto; aumento da eficiência dos sistemas irrigados; e máquinas e equipamentos que utilizem menos água, menos energia e poupem o esforço humano.

 

* Texto publicado, originalmente, no site da FNE

 

 

 

 

 

A última mesa do seminário “Inovação, segurança alimentar e logística” promovido pela FNE, na sede do Seesp, na capital paulista, no dia 4 de agosto, debateu os desafios da engenharia de alimentos e da logística do País, com os especialistas Luís Fernando Ceribelli Madi, diretor técnico de Departamento do Instituto de Tecnologia de Alimentos (Ital), e Thiago Guilherme Péra, coordenador do grupo de pesquisas e extensão agroindustrial de logística da escola superior de agricultura “Luiz de Queiroz” da Universidade de São Paulo (Esalq/USP).


Foto: Beatriz Arruda
Da esq. para a dir.: Orlando Melode Castro,Luís Fernando Ceribelli Madi e Thiago Guilherme Péra.


O coordenador da mesa, Orlando Melode Castro, da Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios (Apta) abriu as falas valorizando a importância do seminário. “É um tema que nos prepara para o futuro”, disse, e ressaltou que o crescimento do poder aquisitivo da população mundial traz desafios ao setor da alimentação. “Vamos produzir mais no mesmo ambiente, e como fazer isso? É preciso tecnologia e harmonia com o meio ambiente; não é uma equação fácil”, questionou.

Madi, em sua exposição, endossou a preocupação com dados mundiais: “Em 2050, a expectativa é de que 70% da população do globo estejam em áreas urbanas.” Hoje no Brasil, apresentou, 84% da população já estão nas cidades e, em 2020, o índice será de 90%. Segundo o diretor do Ital, ao mesmo tempo em que se tem um desafio, a indústria de alimentos tem oportunidades. “É uma área que movimenta 1,7 milhões de empregos no País. Somos o segundo exportador mundial de alimentos processados em volume e detemos 45% da participação no mercado global de açúcar.”

Diversificação de modais e armazenagem
Para tanta produção e exportação, a logística se faz absolutamente necessária. “Não existe agronegócio sem logística”, observou Thiago Guilherme Péra, da Esalq/USP. Ele relacionou alguns dos obstáculos que a logística nacional enfrenta para atender à indústria de alimentos: baixo valor agregado, grandes volumes e longas distâncias, sazonalidade dos produtos, mercados concorrenciais e a perecibilidade. Todavia, salientou Péra, a falta de infraestrutura é o que mais causa danos aos dois setores.

A disponibilidade de transporte do agronegócio brasileiro hoje se dá em 211 mil quilômetros em rodovia pavimentada, equivalente a 60% de uso em relação a outros modais como o ferroviário (30 mil quilômetros) e o hidroviário (22 mil). Para Péra, é aí que reside o problema: “A manutenção da infraestrutura rodoviária não acompanha o crescimento da produção.”

Tomando como exemplo a produção de grãos no País, ele informou que, em 2016, com base em dados levantados pela Esalq/USP, o custo da exportação de soja para a China era de US$92,12 por tonelada. Desse valor, o Brasil gastou US$75,49 dentro do próprio território, na movimentação do Mato Grosso, por estrada, até o Porto de Santos, em São Paulo. “Quase US$17 por tonelada apenas foi o custo para transportação do complexo portuário paulista até o porto de Xangai”, afirmou. Em 2006, a participação das ferrovias no transporte de granéis agrícolas era de apenas 18%; em 2015, subiu para 21%. “Precisamos diversificar mais a nossa matriz de transporte para que o País ganhe em competitividade”, alertou Péra, lembrando que grandes países em extensão territorial como China, Estados Unidos e Canadá utilizam o sistema ferroviário como principal meio de escoamento dos seus produtos.

Outro ponto negativo destacado pelo especialista é o do armazenamento, fundamental para o agronegócio. Segundo Péra, o Brasil tem capacidade de estocagem de 70% a 80% da produção de grãos, em média, mas o ideal é ter 120%. “Assim o produtor diminui riscos e pode trabalhar também com o produto em épocas de não safra. É possível guardar a produção e trabalhar no período entressafra, onde o preço pode estar mais vantajoso do que na safra, e os custos logísticos inferiores do que em uma época de colheita”, explicou. De 2007 a 2015, com base em dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a capacidade de armazenagem no País cresceu em 4,41% e produção de grãos, 5,81%.

Apesar dos grandes desafios, o coordenador vê expectativas positivas para o setor com regulamentações do modal rodoviário, expansão dos demais meios de transporte e a tecnologia. “A utilização da internet das coisas na logística é uma tendência mundial, cada vez mais vemos o desenvolvimento de sensores e ferramentas que auxiliam ainda mais a diminuir as perdas de alimentos”, salientou.

O meio ambiente também é beneficiado com a boa armazenagem e a diversificação dos meios de transportes. “Reduzir custos com combustíveis também é reduzir a emissão de gases poluentes”, defendeu Péra.

>> Leia as demais matérias do seminário
O protagonismo do campo na economia brasileira
Agricultura com ciência, inovação e sustentabilidade

 

Jéssica Silva
Comunicação SEESP

 

 

 

 

 

 

À mesa-redonda que abriu o seminário “Inovação, segurança alimentar e logística”, no dia 4 de agosto último, no SEESP, o pesquisador Paulo Estevão Cruvinel, da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e presidente da Associação Brasileira de Engenharia Agrícola (SBEA); e Luiz Antonio Pinazza, consultor técnico da Associação Brasileira do Agronegócio (Abag), abordaram o tema “Produção e cadeia de valor”.


Fotos: Beatriz Arruda
Primeira mesa do seminário abordou a cadeia de valor e a produção do campo.
Ao microfone o coordenador do painel e do projeto "Cresce Brasil", Fernando Palmezan.

Iniciando a apresentação, Cruvinel citou o pensador italiano Giordano Bruno, do século XVII, para quem a única certeza que existe é a mudança. “Por isso, precisamos planejar as mudanças que nos levem a uma sociedade mais agregada e com mais qualidade de vida”, ensinou. Esse é o paradigma que ele usa para pensar a agricultura cujo desafio é a “expansão da demanda mundial por alimentos impulsionada pelo crescimento populacional e pela inserção de novos consumidores na economia de mercado”.

De acordo com o pesquisador da Embrapa, a Organização das Nações Unidas (ONU) indica que, em 2023, poderemos ter uma população mundial em torno de oito bilhões de habitantes, desses, 60% estarão em cidades. Em países em desenvolvimento, esse percentual sobe para 80%. A partir desse cenário, Cruvinel indica que o setor precisa, cada vez mais, trabalhar com dois conceitos básicos inseridos na cadeia de valor – que engloba infraestrutura, gerenciamento de recursos humanos, desenvolvimento de tecnologias e compras e aquisição de insumos: segurança alimentar e do alimento. “Ao mesmo tempo em que temos de fazer com que os alimentos cheguem a todas as pessoas no mundo, precisamos garantir um produto de qualidade e que traga benefícios à vida”, expôs.

Outra questão se apresenta como desafio nesse horizonte, o da assimetria do crescimento populacional. “A maior parte desse aumento é esperado na África Subsaariana e na Ásia. Áreas de baixa renda com níveis relativamente baixos de produtividade agrícola”, explicou Cruvinel (foto à esq.). Associado a isso, prosseguiu ele, tem a questão “das mudanças climáticas e os estresses térmicos e hídricos que tendem a se intensificar nos trópicos e o aumento da pressão para a “descarbonização” das economias”. Ele informou que a International Food Policy Research Institute (IFPRI) – entidade criada em 1975 e com sede nos Estados Unidos –, no estudo “Segurança alimentar em um mundo em crescente processo de escassez de recursos naturais”, de 2014, apresenta um conjunto de 11 tecnologias indicadas para aumento de produtividade. Entre essas estão o plantio direto; o gerenciamento integrado de fertilidade do solo; a agricultura de precisão, ou seja, o fornecimento de insumos agrícolas assistidos por GPS (em inglês global positioning system), além de práticas de gestão de tecnologia simples que visem controlar todos os parâmetros do campo, desde o fornecimento de insumos ao espaçamento de plantas e ao nível da água. Fazem parte desse conjunto, também, a agricultura orgânica; a coleta de água; a irrigação por gotejamento e por aspersão; as variedades com tolerância ao calor e à seca; eficiência do uso de nitrogênio; e proteção de culturas.

Toda sistematização para otimizar a produtividade no campo não pode “perder de vista, em nenhum momento, a dimensão da sustentabilidade”, asseverou Cruvinel. E continuou: “Estamos falando de demandas crescentes por alimentos e de recursos finitos.” Aqui, explicou, entra o Fator Total de Produtividade (TFP) – associação dos resultados alcançados pela agricultura e a utilização dos insumos de entrada, como terra, serviços, fertilizantes, máquina – que aumenta quando os resultados crescem mantendo os mesmos percentuais de insumos utilizados. Segundo dados internacionais, indicados por Cruvinel, a “produtividade global de fatores agrícolas (TFP) deve crescer da taxa atual de 1,40 %, para uma taxa média de pelo menos 1,75 % ao ano, para dobrar a produção agrícola, até 2050”.

Nesse sentido, o pesquisador apontou as regiões em condições de aumentar a produção. O Brasil é o que melhor apresenta área disponível para a agricultura com mais de 400 milhões de hectares (ha) – hoje a agropecuária nacional ocupa pouco mais de 50 milhões de ha. Um quadro que mudou radicalmente, segundo ele, em pouco mais de 40 anos. “Saímos de uma realidade de total insegurança alimentar, com dependência extrema da importação, para uma ascensão mundial que levou em conta políticas públicas, criação de instituições de pesquisa, inovação, competitividade, sustentabilidade e intensificação.” E elogiou: “A nossa agricultura é baseada em ciência, conhecimento e informação.” Algumas das contribuições dessas pesquisas, exemplificou, estão na “fertilidade construída”, transformar solos ácidos e pobres para o cultivo de soja, como é o caso do Cerrado; ou a fixação biológica no nitrogênio.

A sustentabilidade da agricultura brasileira, de acordo com Cruvinel, também está no uso intensivo de matriz energética limpa. “Somos o melhor no mundo na utilização de energias renováveis, com 47,3%; sendo que no restante do mundo esse índice é de apenas 18,6%.”

Agricultura 4.0
O Brasil, assim como outros países, informou Cruvinel, caminha para a “agricultura 4.0”. Traçando uma linha do tempo com as “forças de influência” no meio rural, ele discorreu sobre quatro grandes “marcos”: “Em 1782, e durante 200 anos, tivemos a introdução da produção mecânica movida à água e vapor; em 1913, ganhou-se a mobilidade com a industrialização; em 1954, tivemos a automação eletrônica; e vivemos, a partir de 2015, o momento com a Tecnologia da Informação e Comunicação (TIC) e a automação inteligente, baseada em sistemas de produção ciber-físicos.” A era das tecnologias da informação está presente no campo brasileiro, hoje, com o uso de drones (veículos aéreos não tripulados) para mapeamento e análise da cobertura vegetal e outras características, banco de dados espacial, sensores, controle e automação avançadas entre outras ações.

Apesar do bom desempenho da agricultura brasileira, o pesquisador da Embrapa disse que o País, assim mesmo precisa ser rápido em ações e políticas públicas que intensifiquem uma maior integração entre governos, universidades e instituições de pesquisas e o setor produtivo. Nesse sentido, ele salientou a necessidade de se pensar em alternativas realmente sustentáveis, como, por exemplo, a “verticalização da agricultura para reduzir o crescimento horizontal por novas áreas de cultivo”. “Está aí um bom desafio para a pesquisa e a engenharia.”

Andar em grupo
Luiz Antonio Pinazza (foto à dir.), consultor técnico da Associação Brasileira do Agronegócio (Abag), iniciou sua prelação citando ditado africano que diz que “quando a gente quer acertar a gente anda em grupo”, referindo-se sobre o acerto da FNE de criar o movimento “Engenharia Unida”. Na sequência, falou sobre o merecido reconhecimento, por parte da sociedade brasileira, dos avanços alcançados pela agricultura do País. O que fez mudar e melhorar o conceito de segurança alimentar, passando da mera quantidade – produzir mais arroz, trigo e milho, por exemplo – para a questão nutricional, onde o foco é o bem-estar, a saúde e a qualidade de vida, “em tudo isso precisamos de muita pesquisa, conhecimento, tecnologia e inovação”. Ele lembrou que produtos como o café e o açúcar, originários de outras regiões do mundo, foram tropicalizados. “O que exigiu muita tecnologia e inovação.”

Ele não tem dúvida de que o País será a segurança alimentar do mundo, “vale dizer que isso significa paz”, observou. “Não é uma questão de ser otimista ou pessimista, mas temos uma projeção espetacular no mundo. O Brasil começa a ter protagonismo no cenário agrícola internacional. De quem depende, nesse sentido, a China e a Índia? Da nossa produção.” Aliado a isso, temos a nosso favor as boas práticas agrícolas, assegurou Pinazza, como a utilização de energia renovável no campo. “O que vale dizer garantir a vida das gerações futuras”, preocupa-se.

Todavia, se o Brasil surpreende o mundo com a produção de cerca de 250 milhões de toneladas de grãos, como observou, por outro lado o País sofre por questões de logística, como de locais para armazenamento da produção e de infraestrutura eficiente e eficaz para o escoamento das safras. Esses são os gargalos, do ponto de vista de Pinazza, que precisam ser resolvidos o quanto antes. “Assim como temos de identificar as nossas oportunidades, e é o que estamos fazendo com muita pesquisa e ciência, precisamos fazer o mesmo com a parte logística”, defendeu.

A atividade teve a coordenação de Fernando Palmezan, do projeto “Cresce Brasil”, que, ao final, observou que o próximo passo é “fazer com que todos os brasileiros tenham acesso aos alimentos” produzidos pelo País.


Rosângela Ribeiro Gil
Comunicação SEESP

 

 

 

 

 

Em mais um evento do projeto “Cresce Brasil + Engenharia + Desenvolvimento”, a FNE realizou, em conjunto com a Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo e com a Confederação Nacional dos Trabalhadores Liberais Universitários Regulamentados (CNTU), o seminário “Inovação, segurança alimentar e logística”, na manhã do dia 4 de agosto último, na capital paulista, na sede do sindicato dos engenheiros (Seesp).


Fotos: Beatriz Arruda
Murilo Pinheiro, na tribuna, destaca importância dos avanços do meio rural à economia do País.

O coordenador do projeto, Fernando Palmezan, à mesa de abertura, salientou a importância da agricultura para a economia do País, dizendo que se deve aproveitar a expertise alcançada no setor para outras atividades econômicas. “O perfil dos nossos eventos tem dado impulso aos grandes debates nacionais, no sentido de avançarmos em diversos processos que signifiquem desenvolvimento e a valorização dos nossos profissionais.”

O consultor sindical João Guilherme Vargas Netto enfatizou que a grande contribuição do “Cresce Brasil” e da FNE e seus sindicatos filiados, a despeito de todos os problemas estruturais e conjunturais atuais do País na economia e na política, “é mostrar que há possibilidade de se conseguir convergências e aproximações por pontos comuns que façam avançar a nossa realidade”. Nesse sentido, Vargas Netto disse que o movimento Engenharia Unida – lançado em 2016 pela federação – cumpre o papel de aglutinar todas as engenharias num campo amplo e democrático com esse foco. “Estamos peneirando as ideias para que fiquem as melhores em nome da sociedade brasileira”, exortou.

A coordenadora de Alimentação Escolar da Secretaria de Educação do município de São Paulo, Patrícia Panaro, que também participou da mesa de abertura, agradeceu o convite para participar de atividade de suma importância à pasta, já que a capital paulista, informou, é responsável por 2,2 milhões de refeições diárias nas escolas da rede municipal, “somos o maior restaurante do País”.

Agricultura que salva
O secretário estadual da Agricultura, Arnaldo Jardim, fez uma importante explanação do que é a agricultura hoje não só para o estado, mas para a economia nacional. “Sem ela, não conseguiríamos sobreviver numa conjuntura tão adversa de quase quatro anos de recessão econômica e 14 milhões de desempregados.” Jardim observou que a crise seria maior sem o desempenho tão promissor e positivo da agricultura, apresentando números: “A nossa economia diminuiu, em média, nos últimos três anos, 3% ao ano; sem a agricultura, essa queda seria de 10%.”

O secretário citou o economista e professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV), Yoshiaki Nakano, que aponta que o Brasil sempre pensou a indústria como grande indutor de ciclos econômicos, por três fatores básicos: poder de grande acúmulo de capital, impactar os outros setores da economia e ter capacidade de inovação. “Sempre pensamos assim, e o Brasil teve períodos virtuosos nesse sentido, especificamente nas décadas de 1940 e 1970, quando tivemos uma dinâmica industrial forte.” Todavia, prosseguiu Jardim e ainda citando o especialista da FGV, “o novo ciclo da economia terá muito mais condições de ser puxado pelo setor agropecuário, porque ele reúne, hoje, o acúmulo de capital, ainda basicamente nacional, e demanda logística, estrutura para as nossas fronteiras agrícolas e de armazenagem e logística de escoamento”. Ele arrematou: “É um momento novo ter o campo protagonista da nossa economia.”

Para acompanhar essa virtuosidade, como aposta o secretário, o Estado de São Paulo se prepara em quatro questões cruciais: a agricultura sustentável, onde se deve conciliar produção e preservação; diversidade fundiária e de cultura, fazer a convivência da agricultura de escala com a familiar ou do pequeno e médio agricultor; a inovação, uma preocupação permanente que tem ensejado a criação de núcleos de inovação; e garantir a alimentação saudável.

Concluindo os trabalhos iniciais, Murilo Pinheiro, como presidente da FNE, mostrou que é possível o País superar todas as dificuldades atuais, optando por unir esforços e discutir seriamente o “Brasil que queremos, deixando de lado as vaidades pessoais”. E prosseguiu: “Temos de aproveitar os anos de dificuldades para refletir e entender como intervir mais positivamente. Precisamos exercitar a nossa cidadania, acompanhando o que acontece e fazendo a melhor política. Discutir um Brasil com conhecimento e crescimento.” E finalizou: “Nesse horizonte está, sem dúvida nenhuma, a agricultura, que hoje nos oferece bons exemplos de desenvolvimento.”

Após a abertura, e ainda na parte da manhã, foi realizada a mesa-redonda “"Produção e cadeia de valor" com Paulo E. Cruvinel, pesquisador da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e presidente da Associação Brasileira de Engenharia Agrícola (SBEA); e Luiz Antonio Pinazza, consultor técnico da Associação Brasileira do Agronegócio (Abag). No período da tarde, a discussão seria em torno da "Tecnologia na produção de alimentos" com Luís Fernando Ceribelli Madi, diretor técnico de Departamento do Instituto de Tecnologia de Alimentos (Ital); e Thiago Guilherme Péra, coordenador do Grupo de Pesquisa e Extensão Agroindustrial de Logística da Escola Superior de Agricultura "Luiz de Queiroz" da Universidade de São Paulo (Esalq/USP), com a coordenação de Orlando Melode Castro, coordenador da Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios (Apta).

 

Rosângela Ribeiro Gil
Comunicação SEESP

 

 

 

 

 

O tema do Dia Mundial da Água deste ano (22 de março), “Água e Desenvolvimento Sustentável” - divulgado pela UN-Water, agência da Organização das Nações Unidas (ONU), que coordena ações em assuntos sobre água doce e saneamento -, não poderia ser mais adequado ao momento que estamos vivendo. Parece até um recado direcionado aos brasileiros, mas não é. O fato é que o mundo precisa entender que a água é um recurso precioso e finito e que, se não for bem cuidado, trará sérias consequências a todos. Não se pode ignorar que sem água, não há vida.

Ao longo dos últimos anos a mensagem de especialistas tem sido a mesma: alertar sobre as crescentes dificuldades em fornecer água em quantidade e qualidade a todos. Discussões e debates em todos os níveis e esferas se arrastam em torno do mesmo apelo. Seja população, setores público ou privado, todos precisam abrir os olhos, já que a água é um bem essencial para o planeta.

Usufruir de saneamento básico e água potável é direito essencial garantido constitucionalmente no Brasil. Mas e os deveres, quem administra? Nós. Não adianta olhar o problema apenas como responsabilidade dos outros. Cada um de nós tem o direito de cobrar a universalização de saneamento básico e de água potável, mas também temos responsabilidades. Não acreditamos que o estresse hídrico vivido no momento pela região Sudeste do país seja contingencial. Acreditamos sim ser um novo paradigma e, como tal, deve considerar que a água é um bem precioso e que deve estar submetida a uma ampla gestão integrada de nossos recursos hídricos.

O sétimo item da Declaração Universal dos Direitos da Água diz que: “A água não deve ser desperdiçada, nem poluída, nem envenenada. De maneira geral, sua utilização deve ser feita com consciência e discernimento para que não se chegue a uma situação de esgotamento ou de deterioração da qualidade das reservas atualmente disponíveis”. Infelizmente é para isso que estamos caminhando se providências não forem tomadas rapidamente. E de quem seria essa responsabilidade? Respondo: de todos, afinal direitos e deveres existem para todos.

De um lado a população cumprindo com a sua parte, economizando, utilizando o recurso de forma responsável, fazendo descartes de maneira correta, não desmatando, plantando. De outro o poder público e a sociedade civil organizada investindo continuamente em tecnologia e educação. É preciso aplicar recursos em obras que garantam o abastecimento de água. Não acreditamos em soluções paliativas e de curto prazo. São necessárias para a situação emergencial presente, mas somos todos chamados a pensar em soluções sustentáveis e de longo prazo.

Segundo o relatório “Progress on Sanitation and Drinking-Water 2014”, da Organização Mundial da Saúde (OMS)/UNICEF,  existem ainda hoje cerca de 7 milhões de brasileiros sem acesso a instalações hidrossanitárias adequadas. De acordo com o Plano Nacional de Saneamento Básico (PLANSAB), o custo para universalizar o acesso aos quatro serviços do saneamento (água, esgotos, resíduos e drenagem) é de R$ 508 bilhões, no período de 2014 a 2033 e, considerando apenas água e esgoto, o valor gira em torno de R$ 303 bilhões. Ou seja, ainda temos um longo caminho a percorrer até atingirmos a universalização dos saneamento básico no país.

Indústrias, comércios, prefeituras, órgãos públicos e privados, e até mesmo cidadãos comuns têm adotado boas práticas no seu dia a dia e muitos fazem uso das tecnologias disponíveis no mercado, como estações compactas para tratamento de esgoto sanitário (ETEs), que permitem o reúso da água tratada para fins não potáveis. São exemplos a serem seguidos em todas as esferas, uma vez que contribuem sobremaneira para preservação dos recursos hídricos, redução da poluição de rios e mananciais, redução de casos de doenças e melhoria na qualidade de vida.



* por Hélcio da Silveira, diretor da Mizumo










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