GRCS

Entrevista

Na manhã desta segunda-feira (8/12), na sede do SEESP, na Capital paulista, foi realizado ato sindical unitário para a apresentação do relatório final, com 43 recomendações, do Grupo de Trabalho nº 13 da Comissão Nacional da Verdade (CNV), “Ditadura e repressão aos trabalhadores e ao movimento sindical”. À abertura, o presidente do sindicato dos engenheiros, Murilo Celso de Campos Pinheiro, destacou a importância dos trabalhos da comissão e disse que a entidade estava honrada por sediar tal evento. “Esse é um debate que deve ser elogiado e estar presente na memória do povo brasileiro”, realçou.


Fotos: Beatriz Arruda
CNV 1 GT 13 da CNV apresenta relatório final dos trabalhos, em São Paulo, no dia 8 de dezembro


Rosa Cardoso, integrante da CNV e coordenadora do GT dos trabalhadores, fez uma breve digressão das investigações da comissão, criada pela Lei 12.528/2011 e instituída em maio de 2012, afirmando que o relatório final – que será entregue, oficialmente, a presidente Dilma Rousseff no próximo dia 10 – da comissão resgata não apenas a verdade sobre diversos fatos ocorridos a partir do golpe civil-militar em 1964, mas traz imbuída a necessidade de se fazer justiça e reparação às vítimas da ditadura. Para ela, deve-se lutar, agora, pela responsabilização civil, administrativa e criminal de todos os envolvidos, sejam eles da esfera pública ou privada. “Nós não nos contentamos apenas com a verdade. Queremos justiça”, conclamou, emocionada, a um público formado por sindicalistas e ex-dirigentes perseguidos, demitidos e torturados, como os remanescentes da executiva do lendário Comando Geral dos Trabalhadores (CGT), da década de 1960, Clodismidt Riani, de 95 anos de idade, e Raphael Martinelli, de 90 anos, e do ex-presidente da Federação de Condutores de Veículos Rodoviários do Estado de São Paulo, Alcídio Boano, de 87 anos.


CNV 3Da esquerda para a direita: Boano, Martinelli e Riani, sindicalistas perseguidos pela
ditadura civil-militar de 1964


Segundo Cardoso, o levantamento de documentos e os muitos depoimentos confirmam que o golpe civil-militar teve como alvo primordial a classe trabalhadora, interrompendo os avanços democráticos conquistados por essa durante o governo João Goulart. “Desvendamos os interesses das elites militares e civis.” E explica: “As primeiras queriam obter hegemonia militar na região, seguindo as determinações norte-americanas, criando e se engajando em guerras, e construindo uma indústria bélica poderosa no País. Já os empresários queriam estabelecer um modelo ainda mais concentrador de capital, com um caráter ainda mais selvagem, atraindo as multinacionais.” Pelos trabalhos do GT 13 foram levantados que 114 trabalhadores urbanos foram assassinados – 53 operários, 16 bancários, 11 jornalistas e mais 34 entre auxiliares de escritório, comerciários, mecânicos, técnicos e vendedores.

Entre as recomendações do GT 13 estão: a reparação coletiva às vítimas; investigar, denunciar e punir os autores de crimes de morte, tortura e desaparecimento forçado, sejam eles militares ou civis; extinguir a Lei de Segurança Nacional (LSN); impulsionar a reforma do judiciário com a extinção da Justiça Militar; democratizar o ensino e o conteúdo curricular das escolas públicas e privadas, visando promover os valores democráticos e os Direitos Humanos; entre outras. Na oportunidade também foi entregue ao Secretário de Relações do Trabalho do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), Manoel Messias, requerimento solicitando ao órgão governamental o levantamento rigoroso das intervenções em sindicatos de trabalhadores entre os anos de 1946 e 1988, período coberto pelas investigações da CNV.

Laboratório da repressão
A CNV levantou o nome de pelo menos 25 empresas da região do Vale do Paraíba que, por meio de suas chefias de segurança em colaboração com militares do Exército e da Aeronáutica e com as polícias civil, militar e federal, monitoraram ferozmente os operários, culminando com demissões, prisões e até desaparecimentos. Rosa relacionou, entre essas, a Avibras, Cartepillar, Confab, Embraer, Engesa, Rhodia, Ford, General Motors, Erickson, Petrobras, Johnson, Kodak, Philips, Villares, Telesp, Volkswagen e Vibrasa. Ainda nos trabalhos da CNV, levantou-se que a Petrobras e outras estatais, à época, viraram um “laboratório de repressão”, fazendo indicações de procedimentos repressivos a outras indústrias. “Portanto, tivemos, também, uma ditadura fabril”, observou.

Até o momento, explicou, a responsabilização que existe se dá pela Lei da Anistia que é apenas para os agentes do Estado. “Agora estamos falando da interpelação civil das empresas”, disse, lembrando que se está falando de um conjunto de violações que demitiu, cassou lideranças, torturou, matou, ocultou cadáveres e impingiu o desaparecimento forçado de muitas pessoas. “Nós somos muito mais que os generais que fizeram o golpe.”

Ao final de sua exposição, Cardoso rendeu homenagem ao consultor sindical do SEESP e da Federação Nacional dos Engenheiros (FNE), João Guilherme Vargas Netto, dizendo que ele ajudou-a não apenas a entender o papel da classe trabalhadora na história do mundo e do Brasil, mas a amá-la dentro das suas virtudes, grandezas e equívocos. “Quem me ensinou isso foi ele.”

Compuseram a mesa do ato unitário dirigentes da Central Única dos Trabalhadores (CUT), Força Sindical, Central Geral dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB), Central dos Sindicatos Brasileiros (CSB), Intersindical, Central Sindical e Popular Conlutas, Nova Central e o presidente da Comissão da Verdade do Estado de São Paulo Rubens Paiva, o deputado estadual Adriano Diogo.

* Apresentação do GT 13 da CNV


 

Rosângela Ribeiro Gil
Imprensa SEESP











Os 50 anos do golpe militar, completados em 1º de abril último, serão tema de programação com João Vicente Goulart, filho do ex-presidente João Goulart, o Jango, deposto pelos militares em 1964. Ele estará em São Paulo, nos dias 9 e 10 desta semana, em atividades da Agência Sindical, do Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé e do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo.

Na quarta-feira, das 19h às 20h, ele estará no programa Câmera Aberta Sindical, ao vivo, na TV Aberta de São Paulo. No dia 10, a partir das 11h, haverá uma entrevista coletiva no Barão de Itararé (Rua Rego Freitas, 454, 1º andar, conjunto 13, Centro, SP); e às 14h30, João Vicente Goulart tem um encontro com sindicalistas para discutir o tema “O que é o Instituto João Goulart e quais os seus objetivos”, na sede dos jornalistas (Rua Rego Freitas, 530, sobreloja, Centro). O presidente do SEESP, Murilo Celso de Campos Pinheiro, estará presente na atividade.

 

Imprensa – SEESP










“Uma mentira repetida mil vezes torna-se verdade”. A frase do publicitário de Hitler, Joseph Goebbels, se encaixa nas narrativas de matérias jornalísticas divulgadas nesta semana sobre os 50 anos do Golpe Militar no Brasil, ocorrido no dia 1º de abril de 1964. A ideia de que João Goulart caiu após ter sido descoberto seus planos para um golpe comunista é repetida desde aquela época pela chamada grande mídia para justificar o injustificável. No entanto, pesquisas do Ibope feitas na ocasião (e não divulgadas) mostram que uma das principais plataformas de Jango tinha sim um forte apoio popular: a reforma agrária. A política econômica do presidente derrubado também tinha apoio da maioria.
 

Foto: Lúcia Rodrigues
homenagem doi codi
Multidão comparece na homenagem aos mortos e desaparecidos políticos durante o regime militar


No Brasil da década de 1960, presidente e vice-presidente eram escolhidos em eleições simultâneas, mas separadas. Foi o que possibilitou a eleição de uma chapa que apontava em direções distintas: Jânio Quadros como presidente (pela coalizão PTN-PDC-UDN-PR-PL) e João Goulart como vice. Quadros renunciou e Goulart, eleito pela coalizão liderada pelo PTB, sob forte oposição dos militares, só assumiu com a aprovação do parlamentarismo, costurado num acordo feito por Tancredo Neves (do PSD). Mais tarde, a população apoiou em plebiscito a volta do presidencialismo, numa clara demonstração de apoio ao projeto trabalhista de Jango.

A imprensa brasileira tinha uma postura ainda menos nacionalista. Em meio à diversidade de jornais, Jango só contava com a Última Hora, de Samuel Wainer, e a TV Excelsior, do empresário Mário Wallace Simonsen. Em São Paulo tanto a Folha de S. Paulo quanto O Estado de São Paulo faziam fortes críticas ao governo. Os empresários Octávio Frias e os irmãos Mesquita se ligaram ao Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais (Ipes), uma espécie de Instituto Millenium anabolizado, determinado a combater “o avanço do comunismo soviético no ocidente”. O IPES aglutinou, organizou, propagandeou e financiou, ainda que indiretamente, a derrubada de Jango. Na Guanabara, o mesmo papel era feito pelos jornais O Globo, Correio da Manhã, Jornal do Brasil e Tribuna da Imprensa.

Como Jango ocupava o Palácio do Planalto, havia dúvidas se poderia se candidatar em seguida (não havia, à época, o instituto da reeleição). Na ausência dele, os candidatos mais fortes seriam o ex-presidente Juscelino Kubistchek (PSD) e o direitista Carlos Lacerda. Porém, as pesquisas demonstram que o candidato puro sangue da direita tinha poucas possibilidades de bater o centrista JK.

Este preâmbulo é necessário para apresentar as pesquisas que Luiz Antonio Dias, chefe do Departamento de História da PUC de São Paulo, resgatou dos arquivos. Professor do programa de pós graduação de História da PUC-SP e de Ciências Humanas da Unisa, ele analisa algumas dessas pesquisas, feitas em 1963, em um capítulo do livro “O jornalismo e o golpe de 1964: 50 anos depois”, que será lançado em abril no evento Mídia e memórias do autoritarismo, que acontecerá na Escola de Comunicação da UFRJ. Nas pesquisas, o apoio a Jango é identificado nas camadas sociais mais pobres e era esmagador no Nordeste, onde o projeto da reforma agrária tinha grande ressonância.

pesquisa reforma agraria no gov jango 

pesquisa reforma agraria no gov jango 2

 


"Jango durante muito tempo foi criticado pela esquerda e a direita. Os conservadores diziam que ele era um 'comunista' propenso a transformar o Brasil “numa nova Cuba”. Besteira grossa, sem fundamento. Jango era um líder trabalhista, queria reformas – mas dentro da ordem democrática", avalia o jornalista Altamiro Borges, coordenador do Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé, em um artigo recente publicado sobre o tema. Ao contrário do que se alardeia em editoriais e matérias da mídia conservadora, o golpe não era inevitável. Jango foi derrubado pela direita conservadora que apoiava Carlos Lacerda, seu opositor, com apoio de amplos setores da Igreja Católica, dos Estados Unidos e da "mídia velhaca" como chama Altamiro no mesmo artigo, publicado em seu blog.

Homenagem no DOI-Codi

Um dos mais emblemáticos centros de repressão no período da ditadura foi o palco escolhido para a “descomemoração” dos 50 anos do golpe civil-militar. Durante toda a manhã de segunda-feira (31), mais de mil pessoas ocuparam o pátio externo do atual 36º Distrito Policial, entre os bairros da Vila Mariana e do Paraíso, zona sul de São Paulo, próximo da sede do II Exército. Era parentes, ex-presos políticos, representantes de organizações ou simplesmente pessoas solidárias às vítimas do regime militar. Ali funcionava o DOI-Codi, por onde passaram até 8 mil presos políticos e morreram mais de 50, segundo os cálculos de entidades de direitos humanos. Alguns voltaram ao local hoje, em ato também interpretado como uma revisão histórica no cinquentenário do golpe.


Uma lona foi erguida no pátio, um palco foi montado e um telão instalado na área símbolo da ditadura. Para a advogada Rosa Cardoso, integrante da Comissão Nacional da Verdade (CNV), a escolha do local ajuda a transmitir a “ideia de que sofremos, fomos desfigurados, fomos traumatizados, mas sobrevivemos”. Segundo ela, ali funcionava um “centro de referência de extermínio”, onde se desenvolveu a “tecnologia da repressão”.

Censura

Não existe mais censura, afirma Audálio Dantas, ex-deputado e ex-presidente do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo, entidade que dirigia quando foi morto o então diretor de Jornalismo da TV Cultura, Vladimir Herzog, em 1975. No entanto, faz uma ressalva sobre os grandes veículos de comunicação, que continuam a praticá-la por conta própria. Para ele, falta uma democracia “que seja de fato um instrumento ao alcance de todos”. A tortura segue sendo praticada em delegacias. “E temos uma polícia que é contra o povo, em vez de defender o povo, principalmente o mais humilde.”


O deputado estadual Adriano Diogo (PT), presidente da Comissão da Verdade da Assembleia Legislativa de São Paulo, que leva justamente o nome de Rubens Paiva, recorda o momento de sua prisão, naquele mesmo local, em 1973. "Cheguei aqui neste pátio. O major veio me pegar aqui, neste pedacinho... Estavam lavando a cela-forte, tinham acabado de matar o Alexandre (Vannuchi). Ele falou: 'Acabei de matar aquele filho da puta, mandei ele para a Vanguarda Popular Celestial. Vou te mandar pra lá também'", recorda.

A sigla era referência à VPR, Vanguarda Popular Revolucionária, onde militava o então estudante da USP. "Se eu disser que que estou aqui à vontade, que estou tranquilo, que perdi totalmente o medo, o trauma... Tem noites que eu passo mal, que estou agitado", afirma o deputado, que passou 90 dias na solitária. "Fiquei quase louco."

Escracho


Foto: Levante Popular da Juventude
escracho ustraCartazes, faixas e pichações foram feitas na casa onde mora Ustra


Também ocorreu na segunda, véspera do dia em que o Golpe Civil-Militar completa 50 anos, um escracho organizado por movimentos Levante Popular da Juventude, Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA) e Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), em frente à casa do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra. O ato de  repúdio foi realizado no local para lembrar que Ustra foi o responsável por mais de 500 sessões de tortura em pessoas que lutavam contra a ditadura militar no Brasil. Hoje com 81 anos, ele foi o único torturador da história do Brasil a receber uma condenação da Justiça, porém continua solto.

 

Imprensa - SEESP
Com informações da Rede Brasil Atual, Blog do Miro e VioMundo










Com mestrado na Pontifícia Universidade Católica (PUC) de São Paulo sobre os empresários e o golpe de 64 e em fase de conclusão do doutorado sobre os empresários e a Constituição de 1988, o professor Fabio Venturini esmiuçou os detalhes de “como a economia nacional foi colocada em função das grandes corporações nacionais, ligadas às corporações internacionais e o Estado funcionando como grande financiador e impulsionador deste desenvolvimento, desviando de forma legalizada — com leis feitas para isso — o dinheiro público para a atividade empresarial privada”. Segundo o pesquisador, é isto o que nos afeta ainda hoje, pois os empresários conseguiram emplacar a continuidade das vantagens na Carta de 88.

Em artigo no site Viomundo, Venturini cita uma série de empresários que se deram muito bem durante a ditadura militar, como o banqueiro Ângelo Calmon de Sá (ligado a Antonio Carlos Magalhães, diga-se) e Paulo Maluf (empresário que foi prefeito biônico, ou seja, sem votos, de São Paulo). Na outra ponta, apenas dois empresários se deram muito mal com o golpe de 64: Mário Wallace Simonsen, um dos maiores exportadores de café, dono da Panair e da TV Excelsior; e Fernando Gasparian. Ambos eram nacionalistas e legalistas. A Excelsior, aliás, foi a única emissora que chamou a “Revolução” dos militares de “golpe” em seu principal telejornal.

Sobre as vantagens dadas aos empresários: além da repressão desarticular o sindicalismo, com intervenções, prisões e cassações, beneficiou grupos como o Ultra, de Henning Albert Boilesen, alargando prazo para pagamento de matéria prima ou recolhimento de impostos, o que equivalia a fazer um empréstimo sem juros, além de outras vantagens. Boilesen, aliás, foi um dos que fizeram caixa para a tortura e compareceu pessoalmente ao DOI-Codi para assistir a sessões de tortura. Foi justiçado por guerrilheiros.

Outros empresários estiveram na mira da resistência, como Octávio Frias de Oliveira, do Grupo Folha, que apoiou o golpe. Frias e seu sócio Carlos Caldeira ficaram com o espólio do jornal que apoiou João Goulart, Última Hora, além de engolir o Notícias Populares e, mais tarde, ficar com parte do que sobrou da Excelsior. Porém, o que motivou o desejo da guerrilha de justiçar Frias foi o fato de que o Grupo Folha emprestou viaturas de distribuição de jornal para campanas da Operação Bandeirante (a Ultragás, do Grupo Ultra, fez o mesmo com seus caminhões de distribuição de gás). Mais tarde, a Folha entregou um de seus jornais, a Folha da Tarde, à repressão.

"Se uma empresa foi beneficiada pela ditadura, a mais beneficiada foi a Globo, porque isso não acabou com a ditadura. Roberto Marinho participou da articulação do golpe, fez doações para o Instituto de Pesquisas Econômicas e Sociais (Ipes, que organizou o golpe). O jornal O Globo deu apoio durante o golpe. Em 65, o presente, a contrapartida foi a concessão dos canais de TV, TV Globo, Canal 4 do Rio de Janeiro e Canal 5 São Paulo", disse Fabio Venturini.

Globo lucrou
Ainda segundo o pesquisador, “na década de 70, porém, a estrutura de telecomunicações era praticamente inexistente no Brasil e foi totalmente montada com dinheiro estatal, possibilitando entre outras coisas ter o primeiro telejornal que abrangesse todo o território nacional, que foi o Jornal Nacional, que só foi possível transmitir nacionalmente por causa da estrutura construída com dinheiro estatal. Do ponto-de-vista empresarial, sem considerar o conteúdo, a Globo foi a que mais lucrou”.

Já que em 1985, no ocaso da ditadura, “Roberto Marinho era o dono da opinião pública”, acrescentou o professor.

Segundo Fabio Venturini, na ditadura imposta a partir de 1964 os militares se inspiraram na ditadura de Getúlio Vargas. Lembra que, naquela ditadura, o governo teve vários problemas para controlar um aliado, o magnata das comunicações, Assis Chateaubriand.

"No golpe de 64 o Assis Chateaubriand já estava doente, o grupo Diários Associados estava em decadência. O Roberto Marinho foi escolhido para substituir Assis Chateaubriand. Tinha o perfil de ser uma pessoa ligada ao poder. Tendo poder, tendo benefício, ele estava lá. A Globo foi pensada como líder de um aparato de comunicação para ser uma espécie de BBC no Brasil. A BBC atende ao interesse público. No Brasil foi montada uma empresa privada, de interesse privado, para ser porta-voz governamental. Se a BBC era para fiscalizar o Estado, a Globo foi montada para evitar a fiscalização do Estado. Tudo isso tem a contrapartida, uma empresa altamente lucrativa, que se tornou uma das maiores do mundo (no ramo)", afirma.

Venturini fala, ainda, em pelo menos dois mistérios ainda não esclarecidos da ditadura: os dois incêndios seguidos na TV Excelsior, em poucos dias, e a lista dos empresários que ingressaram no DOI-Codi para ver sessões de espancamento ou conversar com o comandante daquele centro de torturas, Carlos Alberto Brilhante Ustra. Ele comenta a tese, muito comum na Folha de S. Paulo, de que houve um contragolpe militar para evitar um regime comunista, o que chama de “delírio”.

Venturini também fala do papel de Victor Civita, do Grupo Abril, que “tinha simpatia pela ordem” e usou suas revistas segmentadas para fazer a cabeça de empresários, embora não tenha conspirado. Finalmente, explica a relação dos empresários com as nuances da ditadura pós-golpe. Um perfil liberal, pró-americano, em 64; um perfil ‘desenvolvimentista’, mais nacionalista, a partir de 67/68.


Fonte: Luiz Carlos Azenha, no Viomundo











Cinco décadas depois de sua demissão, um bancário conseguiu o direito de ser readmitido. Ele foi demitido por motivos políticos durante o regime militar, quando tinha estabilidade sindical. Segundo a 5ª Turma do Tribunal Superior do Trabalho (TST), a readmissão se deu em razão de o bancário ter se enquadrado como "cidadão prejudicado durante o Regime de Exceção por perseguição política", o que é previsto no artigo 8° do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias e no inciso II do artigo 1° da Lei 10559/2002.

O bancário foi admitido no Bradesco em 1960. Em 1963, foi empossado como suplente do presidente do Sindicato dos Empregados em Estabelecimentos Bancários de Feira de Santana (BA). Exercia à época, o cargo de chefe da carteira de cobrança do banco na cidade. Segundo seu relato, em abril de 1964 foi preso de dentro da empresa por um sargento do Exército e, passados doze dias, foi despedido. Recebeu a anistia política em 2010 e, no ano seguinte, ingressou com a reclamação pedindo o retorno ao emprego.

O Tribunal Regional do Trabalho da 5ª Região manteve sentença de 1° Grau que condenou o banco a readmitir o empregado na função atualmente correspondente àquela ocupada por ele no momento da sua dispensa, com direito à progressão funcional, direitos e vantagens conquistados pela categoria no período de seu afastamento.

Segundo o relator, ministro Caputo Bastos, não há elementos no processo que permitam concluir diferentemente da decisão do tribunal regional, uma vez que a pretensão do banco é o reexame das provas, o que não é permitido em recursos ao TST. A decisão foi unânime. Consultado, o Banco Bradesco disse que não comenta decisões judiciais.


Fonte: Revista Consultor Jurídico com informações da Assessoria de Imprensa do TST







Passados 50 anos do golpe militar de 1964, que impôs um regime ditatorial durante 21 longos anos, o Brasil ainda não recuperou totalmente essa história ocultada e nem seu legado cultural de autoritarismo e violência que persiste em muitos setores do Estado brasileiro. Com diversas iniciativas de órgãos governamentais – como a Comissão Nacional da Verdade – e da sociedade civil, a nação vem resgatando e reescrevendo oficialmente esta página infeliz da nossa história para que isso nunca mais aconteça em nosso país.

Somando-se a este projeto nacional, a Universidade Estadual Paulista (Unesp) e o Memorial da América Latina, o Memorial da Resistência de São Paulo, o Núcleo de Preservação da Memória Política, a Fundação Perseu Abramo, o Instituto Valdimir Herzog e outros realizam no mês de abril de 2014 o evento Golpe militar – 50 anos: memória, história e direitos humanos.

As atividades ocorrerão em São Paulo e em diversas cidades do interior do Estado de São Paulo, sob a coordenação de unidades da Unesp. Estão previstas ações em São Paulo, Araraquara, Assis, Bauru, Botucatu, Ilha Solteira, Marília, Presidente Prudente, Registro, Rio Claro e São José do Rio Preto.

Esta Jornada de atividades visa proporcionar à população em geral, e em especial às novas gerações, um momento de reflexão sobre a memória da resistência política contra a violência estatal que deixou milhares de vítimas e uma herança cultural de arbítrio e violações dos direitos humanos individuais e coletivos.

Somente com o resgate da memória, da autocrítica e da cidadania ativa, pode-se construir uma democracia social e participativa capaz transformar estruturas sociais para superar a miséria, a pobreza e outras formas de desigualdades e exclusão na sociedade brasileira.


Informações da Agência de Notícias da Unesp.











O primeiro ato da série que deve marcar o ano de 2014, para lembrar os 50 anos do golpe militar de 31 de março de 1964 e exigir justiça, teve como protagonistas os trabalhadores. Realizada em 1º de fevereiro, a iniciativa denominada “Unidos, jamais vencidos” lotou o Teatro Cacilda Becker, no Paço Municipal de São Bernardo do Campo (SP). O ato foi organizado pelo Grupo de Trabalho 13, que investiga, junto à Comissão Nacional da Verdade (CNV), a repressão sobre o movimento sindical e os trabalhadores, bem como a colaboração do empresariado com a ditadura. O prefeito de São Bernardo do Campo, Luiz Marinho, prestigiou o evento, além de João Vicente Goulart, filho do presidente deposto no golpe, João Goulart, o Jango, e do deputado estadual Adriano Diogo (PT), coordenador da Comissão Estadual da Verdade. Vários outros parlamentares também estiveram presentes, como o deputado federal Vicentinho (PT) e os estaduais Ana do Carmo, Hamilton Pereira e José Zico Prado (todos do PT).

 Num exemplo de ação unitária, teve a participação das dez centrais brasileiras – Central Única dos Trabalhadores (CUT), Força Sindical, Central Geral dos Trabalhadores do Brasil (CGTB), Central Sindical e Popular (CSP-Conlutas), União Geral dos Trabalhadores (UGT), Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB), Intersindical, Nova Central Sindical dos Trabalhadores (NCST), Central dos Sindicatos Brasileiros (CSB) e Intersindical Central. Em várias falas dos representantes dessas organizações, foi destacado que a participação da classe trabalhadora foi decisiva para pôr fim ao regime de exceção. Liderança na greve de 1978 em São Bernardo do Campo, Luiz Inácio Lula da Silva foi lembrado em alguns discursos. Nas preleções, ainda, enfatizaram-se as heranças da ditadura, com, por exemplo, denúncias de casos de torturas pela polícia ainda hoje, e a exigência de punição aos torturadores e de justiça a todas as suas vítimas como uma das medidas cruciais para se completar o processo democrático. 

A participação do empresariado na repressão foi outro ponto ressaltado. Rosa Maria Cardoso da Cunha, coordenadora da Comissão Nacional da Verdade e do GT 13, salientou que na realidade o golpe deve ser denominado civil-militar, por atuações como essa. Essa ação contra a classe, com denúncias e perseguições por empresas de trabalhadores, bem como a contribuição com cessão de equipamentos como veículos, combustíveis e patrocínio da tortura, está sendo investigada pelo GT 13. Segundo ela, houve cinco outras tentativas de golpe antes de 1964. “Foi gestado desde o Estado Novo por um consórcio de civis e militares que não queriam o povo na política.” Ela ponderou que a CNV tem atuação limitada, com mandato de 2,7 anos. A justiça, explicou, não alcançará as empresas, porque não se pode criminalizar pessoa jurídica. “Mas faremos essa reparação, nas lutas.” Por sua atuação junto à CNV, Rosa Cardoso foi homenageada pela Confederação Nacional dos Trabalhadores Liberais Universitários Regulamentados (CNTU) com o prêmio Personalidade Profissional 2013, em Excelência em gestão pública. 

No ato em São Bernardo do Campo, foram homenageados mais de 400 trabalhadores que lutaram contra a ditadura, inclusive alguns mortos nas mãos dos militares, representados por seus familiares. Alguns depoimentos de ex-presos e perseguidos políticos foram exibidos em vídeos durante o ato, que contou ainda com duas apresentações teatrais, do Grupo Solano Trindade e de Tin Urbinati, o qual realizou performance baseada no poema de Vinícius de Moraes intitulado “O operário em construção”. Adriano Diogo concluiu: “Na resistência à ditadura estávamos todos juntos. Agora, para punir os torturadores e abrir os arquivos militares, temos que continuar juntos.”

 

 

Soraya Misleh
Imprensa - SEESP


 

 

 

 

 

 

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