GRCS

04/09/2012

Momento propício à valorização do etanol

Algumas semanas após a realização da Conferência das Nações Unidas para o Desenvolvimento Sustentável, a Rio+20, os agentes do setor sucroenergético, ao contrário do que se poderia esperar, têm pouco a comemorar, embora sua atividade seja tão saudada como uma das soluções mais eficazes para a produção de combustíveis mais limpos, de fonte renovável, em substituição ao petróleo e seus derivados. A frustrada expectativa não se deve ao questionamento técnico da eficiência ambiental do etanol, ou ao surgimento de alguma alternativa inovadora e economicamente viável. A verdade é que esse segmento vem sofrendo pressões de várias direções, o que tem prejudicado seu desempenho e inviabilizado a rentabilidade do modelo de negócio em vigor.

O principal fator a sufocar a viabilidade do setor é a competição desigual que o etanol enfrenta em relação aos preços dos combustíveis derivados do petróleo, mantidos artificialmente congelados há anos, em razão das políticas de combate à inflação adotadas pela União. A própria Petrobras, agente que tem mantido o controle de preços, principalmente o da gasolina, tem se queixado ao governo que sua rentabilidade é afetada pela defasagem dos valores cobrados pelos combustíveis de origem fóssil nos postos. Em resposta às justas reivindicações da estatal, o Palácio do Planalto chegou a permitir o reajuste dos combustíveis, mas a limitou e compensou a alta reduzindo a Cide (Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico) que incidia sobre seus preços, mantendo-os estáveis ao consumidor. Ou seja, não houve qualquer ganho competitivo para o etanol.

Enquanto os valores da gasolina acabam sendo subsidiados, os custos da produção de etanol têm sido crescentes nos últimos anos, o que compromete sua competitividade, especialmente tendo em vista que a eficiência energética deste combustível é cerca de 30% menor do que a do primeiro.  Falando em eficácia energética, outro problema sensível é a falta de pesquisas desenvolvidas para melhorar a eficiência no uso de etanol pelos veículos nacionais. Em razão das pressões pela diminuição na emissão de poluentes na atmosfera, são notáveis os resultados positivos obtidos em relação à redução no consumo de combustíveis fósseis. Enquanto isso, por ser naturalmente menos poluente, há pouco ou nenhuma atenção voltada a economizar o álcool hidratado. Assim, sua eficiência energética em relação à gasolina apurada no lançamento do Proálcool, há quase 40 anos, é praticamente a mesma de hoje.

Os altos custos financeiros a que o setor está sujeito são outro fator que apena os produtores. Após anos de altos investimentos em razão do fortalecimento do mercado a partir da adoção da tecnologia que permitiu a utilização de motores flexíveis, o setor sucroenergético viu sua rentabilidade despencar nos últimos três anos e enfrenta dificuldades para gerir seus débitos. Tudo isso tem se refletido em perda de eficiência produtiva, especialmente em razão da escassez de recursos para a devida e adequada gestão de plantações de cana, manutenção de equipamentos e necessária modernização dos parques produtivos. Como é natural em qualquer setor produtivo que depende de gerar rentabilidade para se viabilizar economicamente, a produção de combustível a partir da cana de açúcar tem sido preterida sempre que a comercialização do açúcar torna-se mais vantajosa, o que acaba afetando o planejamento voltado ao fornecimento de etanol ao mercado.

Em um mundo tão carente de fontes de energia limpa e renovável, o enorme potencial brasileiro representado pelo uso em larga escala do etanol como combustível não pode ser desprezado ou preterido. O valor desse patrimônio é incomensurável, especialmente do ponto de vista ambiental. Reforçar a viabilidade econômica do uso do etanol como alternativa prioritária à queima de combustíveis fósseis deve ser uma missão assumida por todos, sem exceção.

* por José Osvaldo Bozzo, da KPMG em Ribeirão Preto


Imprensa - SEESP




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