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08/11/2022

Ferrovias e o Brasil nos trilhos da COP-27

José Manoel Ferreira Gonçalves*

 

O protagonismo no cenário ambiental foi uma das muitas políticas públicas desidratadas no governo que melancolicamente está se encerrando. Assim, o convite ao presidente eleito para que participe da COP-27 no Egito é um alento e nos leva a crer que o Brasil possa retomar sua presença no diálogo sobre o futuro do planeta.

 

Internamente, a COP-27 provoca-nos a necessidade de se elencar prioridades, como a intensificação das ferrovias na movimentação de cargas e passageiros, comprovadamente a alternativa que melhor combate o efeito nocivo do aquecimento global nos transportes. O excessivo descarte de material sujo na natureza pode ser mitigado pela energia limpa dos trens.

 

Segundo estudo do IPCC, Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, no Brasil 13% do CO2 despejado na atmosfera é proveniente de escapamentos. Na Europa, onde esses índices ainda são altos, as ferrovias estão ocupando espaço cada vez maior em substituição aos automóveis ou na integração entre diferentes meios de transporte.

 

O papel central das ferrovias em um cenário onde se busca a integração de modais é ressaltado em vários documentos internacionais. Como observamos in loco numa curta temporada que passamos por lá, a Europa já despertou para essa realidade, com investimentos maciços e projetos que destacam o uso das ferrovias como agentes de integração.

 

Em recente pesquisa que finalizamos em nível de pós-doutorado em Portugal, comprovamos que a ferrovia é efetiva no combate aos problemas ambientais e elencamos alguns projetos de médio e longo prazos naquele continente que podem ser inspiradores para a realidade brasileira. Nesse mesmo trabalho, propusemos a criação de Conselhos Gestores, pelos quais questões relacionadas à gestão passam a ser pensadas por um conjunto de atores da sociedade civil.

 

É importante ressaltar que o Brasil, com suas dimensões continentais, precisa mudar a mentalidade em relação às ferrovias. Uma linha férrea é inicialmente pensada por lógica imediatista, local, estanque, sem expectativas de expansão para além de seu perímetro imediato. Os desafios que a integração entre modais impõem não justificam mais essa lógica.

 

Projetos modernos precisam estar focados numa mobilidade dinâmica e sustentável, da qual todos os modais participem de modo equitativo, equilibrado. Novas configurações devem ser inclusivas, integradas, considerando a realidade das pessoas e modelos de vida nos grandes centros. A pesquisa também evidenciou o papel das Tecnologias de Informação e Comunicação (TICs) e da Inteligência Artificial (IA) na configuração de novos projetos.

 

Porém, o que temos como horizonte hoje no Brasil são as estéreis possibilidades abertas por um novo marco regulatório para o setor, que praticamente soterrou a chance de termos uma efetiva rede de transportes de passageiros sobre trilhos, e ainda estabeleceu um virtual duopólio onde apenas duas grandes empresas interessadas no transporte de suas mercadorias (minérios e commodities agrícolas) farão investimentos.

 

O novo marco também não contribui para diminuirmos a alarmante dependência do transporte rodoviário, que, como se viu recentemente, tem sido alvo de manobras políticas, de agressões à democracia e ao direito de ir e vir.

 

Pensar em ferrovias para o futuro do Brasil é, portanto, não apenas uma necessidade ambiental, mas também de respeito aos valores democráticos.

 

 

 

 

 

 

*José Manoel Ferreira Gonçalves é engenheiro e escritor, autor de várias obras sobre ferrovias. Presidente da FerroFrente, Frente Nacional pela Volta das Ferrocvias e Pós-doutorado em sustentabilidade e transportes pela Universidade de Lisboa.

 

 

 

 

 

 

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