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10/06/2022

ESG: prática mais ampla e moderna de sustentabilidade

Todas as engenheiras podem ser indutoras dessa prática no mundo dos negócios.

Rosângela Ribeiro Gil
Oportunidades na Engenharia

 

O que deve estimular o mundo dos negócios a adotar práticas associadas ao ESG, acrônimo em inglês para as palavras environmental, social and governance, ou, em português, ambiental, social e governança? A construção de uma imagem mais positiva perante a sociedade, em tempos de emergências climáticas e de cobrança de responsabilidades sociais? A obtenção de melhores resultados e balanços financeiros? Para o engenheiro eletricista Edson Pinto da Silva Filho, a parte financeiro-econômica é importante, mas não deve ser o motivador principal para que uma empresa adote a ideia do ESG. O principal, segundo ele, é garantir a construção de relações verdadeiras entre os negócios e a sociedade para se obter a tão proclamada sustentabilidade.

 

Edson Silva JPEG 400Engenheiro Edson Silva está envolvido em consultoria também para a implantação de práticas ESG. Crédito: Acervo pessoal.A sigla ESG, segundo informações do site Estratégia ODS, foi utilizada, pela primeira vez, em 2004, a partir de uma carta das Nações Unidas remetida a 55 das principais instituições financeiras do mundo, convidando-as a integrar tais princípios ao mercado financeiro. O Pacto Global publicou, no mesmo ano, em conjunto com 20 instituições financeiras de nove países distintos, o relatório “Quem se importa, ganha” (Who cares wins), com recomendações para integração das questões ambientais, sociais e de governança à gestão de ativos e corretagem de valores mobiliários.

 

Dentro dessa mesma linha, podemos retroceder 30 anos e voltar à primeira tentativa mundial inédita de discutir o desenvolvimento sustentável com a realização, de 3 a 14 de junho de 1992, na cidade do Rio de Janeiro, da Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento (ECO-92). Para Silva Filho, a gênese do ESG também está na Eco-92, “mesmo que tenhamos demorado 30 anos para acordar, e ainda em outro século”, ironiza, mas, ao mesmo tempo, se mostra otimista pelos rumos atuais em defesa de práticas econômicas que primam pela observância ambiental e pela interação social que não pode ser confundida com filantropia ou caridade. “Para mim, o social é um dos eixos fundamentais do ESG”, defende.

 

Silva Filho se formou na Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (Poli-USP) há 36 anos e trabalhou por muitos anos na empresa Siemens, nas áreas de energia com subestações de alta tensão, de serviços e de gestão de qualidade. Hoje, como destaca, está na área de consultoria, aplicando a metodologia do Planejamento Estratégico Consciente (PEC) em empresas nacionais e multinacionais dos mais variados segmentos – agronegócio, eletroeletrônico, metalomecânico, mineração, saneamento e saúde, entre outros – e de vários portes.

 

Nesta entrevista especial, o profissional fala sobre o que é o conceito ESG e como ele tem tudo a ver com a mão de obra técnica da engenharia. “Até pela própria formação, área de exatas, raciocínio lógico, isso ajuda demais na hora de colocar o engenheiro como participante direto das ações do ESG nas empresas”, observa.

 

O termo ESG foi um dos mais buscados e pesquisados na internet, no País, triplicando o interesse nos últimos 12 meses, de acordo com levantamento do Google Trends, a pedido do jornal Valor Econômico. É uma tendência que veio para ficar?
Realmente é um dos temas mais buscados hoje na web, tanto em ferramenta de busca como em páginas corporativas de empresas. É realmente uma tendência e está muito alinhada com o momento em que vivemos, ou melhor, que o Planeta vive. Hoje, não dá para pensarmos a vida ou em negócios sem levantar em conta as questões relativas à mudança climática, responsabilidade social e tudo isso ligado à governança das empresas. O econômico-financeiro não é o único aspecto que deve ser olhado num balanço de uma empresa.

 

Para mim, ESG ou ASG [a sigla em português] ainda não está muito correto. A minha linha de raciocínio é que ambiental e social são adjetivos, e governança, o único substantivo da sigla. Falta, portanto, uma ‘palavra mágica’ que faria uma liga perfeita, que é corporativa.

 

Entendo, que a sigla mais coerente seria Gasc [governança ambiental, social e corporativa], ou seja, a governança sob três eixos, o ambiental, o social e o corporativo. Mas ainda vou lutar muito para que a sigla se transforme em Gasc, é uma sigla expressão melhor e coloca em ordem um substantivo e três adjetivos.

 

Neste ano, completamos 30 anos da realização da Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento (ECO-92, cujo cerne era o desenvolvimento sustentável. Qual o paralelo que você faz entre a Eco-92 e o protagonismo atual do fator ESG? Ou não tem nenhuma relação?
A Rio-92 foi importante porque ela trouxe, pela primeira vez, uma discussão global sobre o tema da sustentabilidade. E ela tem tudo a ver com o que estamos discutindo hoje, apesar de estarmos atrasados, infelizmente. É como se 30 anos depois acordássemos, já em outro século [o XXI], e percebêssemos a urgência das práticas econômicas em outros patamares.

 

Tarde ou não, agora realmente não importa, a questão é que a temática do ESG traga de volta tudo o que foi discutido e conquistado de avanço com a Eco-92. O ESG é uma forma estrutural de falar em sustentabilidade.

 

A sigla está ligada às melhores práticas ambientais, sociais e de governança de um negócio. Em seu trabalho como consultor na área, quando isso realmente é verdadeiro e quando serve apenas como uma peça de marketing positivo?
Muitas empresas ainda não têm a prática ESG implantada e outras apenas a utilizam para dar a impressão de que está incorporada aos negócios. É daí que vem a expressão do greenwashing especialmente no ESG, principalmente por causa do verde do green. É muito discurso, retórica, e pouca prática.

 

Como consultor, batalho para que o ESG se torne realmente uma prática, uma agenda e que de fato esteja no radar das empresas não para conquistar investimentos mais baratos ou novos clientes, mas porque a licença social para desenvolver uma atividade econômica deve ser socioambiental pautada por ações práticas e efetivas. Hoje isso ainda não acontece.

 

Greenwashing
Termo em inglês que pode ser traduzido como “lavagem verde” e é praticado por empresas, indústrias públicas ou privadas, organizações não governamentais e até governos. 

O ESG pode ser um critério para investimentos?
Sim, existem critérios adotados para definição de investimento baseados no ESG. Todavia, repito, essa ação não pode ser simplesmente para obter novos financiamentos e investidores ou juros mais baratos, precisa ser uma postura de fato perante a sociedade.

 

Contribuir para um mundo mais sustentável e ter bons resultados financeiros são escolhas ou decisões diferentes para uma empresa?
Não são escolhas ou decisões excludentes. A sustentabilidade deve andar de mãos dadas com os resultados financeiros, não tem como ser diferente daqui para frente. Mas sabemos que os tempos são diferentes nas diversas economias. Por exemplo, em países, como o Brasil, de grande complexidade e extensão territorial, o tempo de maturação para adoção dessas práticas deverá ser longo.

 

Em linhas gerais, como é tirar do papel a estratégia de uma empresa para se tornar aderente aos princípios do ESG e quais seriam as práticas mais comuns?
Essa é a essência do nosso trabalho na consultoria EDX em estratégia de gestão. O nosso mote é “vamos tirar do papel a Estratégia da sua empresa”. O ESG é uma parte da estratégia corporativa, que é multidisciplinar e sempre tem uma visão do todo do negócio, e não apenas os três eixos [ambiental, social e governança]. Para deixar mais esclarecido: o ESG não é a estratégia em si. Quem adota essa linha de ação está saindo na frente e buscando alinhar suas práticas à temática com essa abordagem, principalmente no ambiental, que é mais palpável para alguns segmentos. Destaco, neste ponto, o setor de saneamento, porque o ambiente está totalmente ligado ao core business da atividade.

 

Core business
Em uma tradução livre para o português, significa “centro ou núcleo do negócio”, que define todo o propósito de sua existência.

Como você entende o social do ESG?
Dos três eixos, o que menos está ligado à estratégia empresarial é o social, porque a governança corporativa, de alguma forma, já existia e a ambiental é uma obrigação cada vez mais evidente.

 

Acredito que o social é e precisa ser a ‘bola da vez’, pois o ambiental e o corporativo já estão mais encaminhados e equacionados. Por isso, deve-se partir do real significado do social na prática ESG, que não é fazer filantropia, caridade ou qualquer outro tipo de doação ou ação para os menos favorecidos.

 

O social é a relação entre a empresa, o cliente, a sociedade, os fornecedores, os colaboradores, o governo. Ele é interação, relação e um espaço para que as partes interessadas se manifestem, interajam, encaminhem sugestões, ideias e críticas. O social do ESG está dizendo que todos impactados por uma atividade econômica, não importa qual seja, devem ser ouvidos. Precisamos entender que este social é relacionamento baseado em premissas de transparência.

 

O ESG abre oportunidades para os profissionais de Engenharia?
Abre de fato oportunidades para os engenheiros, desde o júnior até o sênior. Algumas são até muito óbvias, como as engenharias ambiental, sanitária, química, pois são totalmente ligadas ao ESG, praticamente impossível dissociar.

 

O que pode ser um diferencial é o engenheiro de qualquer empresa e setor econômico ter a percepção de que o ESG veio para ficar e ele pode contribuir com a parte técnica, e mostrar isso para a empresa. Importante ser proativo com essa preocupação. Por exemplo, se ele é um projetista deve inserir esse apontamento na hora de fazer um projeto. Se trabalha na área de finanças, endereçar esse tema do ESG para não ficar só no econômico-financeiro.

 

E, de forma geral, até pela própria formação na área de exatas, o raciocínio lógico, isso ajuda demais na hora de colocar o engenheiro como participante direto das ações do ESG nas empresas.

 

Como essa formação em engenharia elétrica tem contribuído no desenvolvimento dessas práticas ESG? Quais os conselhos para os profissionais de engenharia que queiram atuar nessa área?
Como engenheiro eletricista, volto muito minha atuação à área de energia. Na parte ambiental, isso significa falar sobre destinação correta de resíduos sólidos, do correto equacionamento das emissões de particulados para a atmosfera e dos efluentes líquidos.

 

Na questão do uso dos recursos naturais, o engenheiro eletricista pode entrar com foco na energia projetando práticas de uso de energia de fontes renováveis e ambientalmente sustentáveis, como a solar. Mas também no uso final da energia com máquinas, equipamentos, motores mais eficientes e o uso de tecnologia para reduzir a corrente de partida de um motor, o soft starter, inversores de frequência etc.

 

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