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07/03/2022

Mulheres na engenharia: poucas oportunidades, discriminação salarial e sexismo

 

Não chega a 20%, o percentual de mulheres com registro ativo como engenheira no País.

 

Rosângela Ribeiro Gil
Oportunidades na Engenharia

 

Em editorial publicado na edição do Jornal do Engenheiro, do mês de março, o  presidente do Sindicato dos Engenheiros no Estado de São Paulo (SEESP), Murilo Pinheiro, observa que, apesar, dos incontáveis avanços “conquistados pelas mulheres na histórica batalha por plena emancipação e cidadania, igualdade e respeito a suas escolhas e decisões”, muito se precisa mudar em diversos campos. A liderança lamenta que “a participação feminina na engenharia é um deles, já que a profissão, em pleno 2022, segue majoritariamente masculina”.

 

DiaMulher2022 matériaArte Eliel Almeida. Comunicação SEESP.

 

Em pesquisa realizada em 3 de março último, no site do Conselho Federal de Engenharia e Agronomia (Confea), levantou-se que o Brasil tem, hoje, 1.036.724 profissionais registrados na área, destes, 200.170 mulheres, e 836.554, homens, respectivamente, 19,31% e 80,69%. Todavia, os dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua), de 2019, mostram uma situação totalmente diferente e inversa: a população brasileira é composta por 48,2% de homens e 51,8% de mulheres.

 

A situação de desiquilíbrio também aparece nos próprios atendimentos da área Oportunidades na Engenharia, do SEESP, que oferece serviços de orientação à carreira. Em balanço sobre o ano de 2021, o maior atendimento foi de homens (estudantes e profissionais), “as mulheres também nos procuraram, mas em menor número, mesmo que de forma crescente”, observa Alexandra Justo, gestora da área.

 

Nos atendimentos, conforme entrevista abaixo com Justo, levantou-se reflexões importantes sobre como o mercado e a universidade recebem (ou excluem) a mulher na engenharia no País, quais as principais queixas sobre as relações profissionais e importantes orientações para se enfrentar uma situação de discriminação e assédio.

 

Qual a percepção da área sobre o mercado de trabalho em relação à mulher engenheira?
Inicialmente, cabe esclarecer que a percepção se dá embasada em relatos nos atendimentos personalizados que fizemos em 2021 diretamente com as profissionais e as estudantes da área, e também em entrevistas e reuniões que fizemos com profissionais estabelecidas na profissão, recrutadoras e headhunters.

 

Percebemos que há um esforço de empresas em mudar esse cenário, quando adotam políticas de ação afirmativa já no processo seletivo com o norte da diversidade e inclusão. Todavia, sabemos que o número de contratação de mulheres ainda está abaixo da expectativa, menos de 50%. Este resultado diminui ainda mais quando avaliamos os postos de trabalho das mulheres em áreas estratégicas.

 

Quando a diversidade não está presente, homens selecionam mais homens para a composição do time de trabalho. Aqui vale ressaltar a presença do viés inconsciente, e em especial neste caso, o viés de afinidade, que trata de se avaliar melhor aquele que mais se parece com nossas características, como o gênero, idade, raça etc. Assim, temos mais homens tomando a decisão da seleção por mais homens.

 

Alê nes 8M22 2Alexandra Justo, gestora da área Oportunidades na Engenharia. Crédito: Acervo pessoal.Há obstáculos à entrada no mercado e ascensão à carreira devido ao gênero?
Conhecemos mulheres com histórias de muita força, alto investimento na carreira, persistência, mas ainda assim enfrentam muitas barreiras na ascensão à carreira devido ao gênero. Outra situação é a mulher receber o salário mais baixo que do homem mesmo exercendo cargos do mesmo nível de responsabilidades e atividades.

 

Quais as queixas mais comuns das mulheres que você apontaria?
Várias queixas já foram expostas em nossos atendimentos, e também nas entrevistas que fazemos com especialistas e recrutadores. Podemos citar, por exemplo, dificuldade em conseguir o primeiro estágio ou colocação profissional por não serem selecionadas. A remuneração e o título do cargo abaixo do homem, mesmo com maior grau de estudo e atualização, é outra queixa que aparece muito.

 

Infelizmente, piadas sexistas, comentários não inclusivos e assédio sexual ainda estão no dia a dia dessa estudante e profissional. Um exemplo, é o tipo de comentário e avaliações no ambiente de trabalho de que a mulher não consegue carregar determinados pesos, desconsiderando que as atividades estão totalmente automatizadas e que a tecnologia se faz presente para todas as pessoas.

 

O sexismo também está nas salas de aula, o que é uma pena, porque estamos falando de um espaço de educação. Por isso, as estudantes de engenharia são alvo de comentários discriminatórios, como de que alguns exercícios e atividades serem “difíceis” para elas. Lamentável esse tipo de julgamento já na própria sala de aula.

 

Uma outra questão séria é a postergação da maternidade, pois as engenheiras se sentem receosas de perder o emprego ou uma promoção na carreira. Sabemos que alguns empregos que exigem viagens constantes do profissional as mulheres são preteridas.

 

Quais orientações importantes para enfrentar esse cenário desfavorável à mulher?
Primeiro de tudo, é preciso reconhecer e saber que preconceito é crime. A pessoa precisa saber se posicionar em qualquer situação ou circunstância de discriminação ou assédio.

É preciso conhecer e reconhecer os tipos de violência e saber identificá-los, seja a física, psicológica, moral, sexual ou patrimonial. Assim como as formas mais comuns de assédio, como são os stalking [refere-se ao ato de se perseguir alguém nas redes sociais e locais públicos], o bullying [gestos que intimidam e agridem pessoas tanto verbal quanto fisicamente], os assédios moral e sexual. Com as novas tecnologias da informação digitais já existem casos de assédio virtual.

 

A nossa orientação às mulheres é para buscarem o apoio de comitês de ética das organizações e de áreas, como de gestão de pessoas ou de recursos humanos das empresas em que trabalham para formalização do ocorrido e demais encaminhamentos.

 

Buscar representatividade coletiva, por meio do SEESP, por exemplo, é muito importante. Em caso de jovens, encaminhamento ao Núcleo Jovem do Engenheiro do sindicato, para que o encontro com outras mulheres e um público diverso possa ocorrer.

 

Por fim, mas não menos importante, e dependendo da situação, tem-se a alternativa de formalização de boletim de ocorrência e cuidados junto a órgãos institucionais, como a Delegacia da Mulher.

 

Na área de Oportunidades na Engenharia do SEESP, quais os serviços oferecidos às estudantes e profissionais da área?
Os nossos serviços de orientação à carreira são bem diversificados. As estudantes e profissionais da área que são associadas ao SEESP têm à disposição o atendimento personalizado focado no desenvolvimento de competências que podem contribuir para que a mulher tenha mais confiança em se posicionar no mercado de trabalho e na sociedade em geral. Assim, como plataforma de cadastro de profissionais autônomos, divulgação de vagas de estágio e emprego. Temos, ainda, orientação sobre como estar no LinkedIn de forma a se tornar mais visível ao mercado de trabalho e para os recrutadores.

 

Gostaria de destacar as palavras do presidente do SEESP pelo Dia Internacional da Mulher, neste 8 de março: “Façamos um pacto – escolas, empresas, entidades de classe e profissionais – para superar essa barreira de uma vez por todas e não mais lembrá-la a cada 8 de março sem grandes avanços a comemorar.  A engenharia está ligada ao futuro e à inovação; não pode ser símbolo de atraso na questão de gênero.”

 

>> Para mais informação sobre os serviços do Oportunidades na Engenharia, clique aqui.

 

 

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