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10/07/2021

Engenharia de minas para garantir mineração sustentável e responsável

Insumos extraídos são utilizados em diversas atividades, da construção civil, indústria farmacêutica à fabricação de celulares.

Rosângela Ribeiro Gil
Oportunidades na Engenharia

 

O profissional de Engenharia de Minas está capacitado a buscar recursos minerais, tais como ferro, petróleo, alumínio, ouro, gemas, água mineral, entre muitos outros. A formação na área habilita, ainda, a fazer planejamento e supervisão da extração de minérios (lavra de mina); preparação desse material (tratamento de minérios), concentrando e separando a parte que interessa (minério) daquela que não tem valor (ganga). Dentro do conceito do desenvolvimento sustentável, a profissão cuida, ainda, da recuperação da área minerada. A celebração do Dia da Engenharia de Minas é neste 10 de julho. Segundo estatísticas dos conselhos federal e estaduais (Confea-Creas), o País tem, hoje, 5.230 engenheiros de minas, sendo, 4.391 do gênero masculino, e 839, mulheres.

600 Eliane Alves Souza 1Eliane Alves Souza, estudante de engenharia de minas, em visita técnica à RHI Magnesita, em Brumado (BA). Foto: Acervo pessoal.
O mercado de trabalho para o engenheiro de minas atual é bem amplo e diversificado. Ele compreende a implementação e supervisão de grandes obras para o aproveitamento dos recursos minerais, como as minas a céu aberto, subterrâneas, barragens de rejeitos, instalações de poços para captação de água. Além disso, o profissional também atua no levantamento topográfico, pesquisa mineral, consultorias, desenvolvimento de softwares para a mineração e máquinas pesadas, gestão e controle das operações minerais e ambientais. Pode atuar no ensino e pesquisa, além do empreendedorismo e reaproveitamento dos rejeitos gerados no processo mineral.

 

O professor e coordenador do curso de Engenharia de Minas, da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM), campus Janaúba (MG), Leonardo Azevedo Sá Alkmin, acrescenta que a formação aplica o conhecimento científico na solução de problemas relacionados com o entendimento e a exploração dos recursos em nosso planeta. “Ele é um profissional responsável por apresentar projetos eficientes para se obter recursos naturais e transformá-los em produtos que podem, depois, serem empregados nos mais variados fins”, explica. É a modalidade, prossegue Alkmin, que garante insumos para a construção civil, indústrias farmacêuticas, fabricação de tecnologia de celulares e aparelhos de televisão estarem disponíveis, arrematando: “Difícil pensar no mundo hoje sem a mineração, mas muito além disso, a engenharia de minas também se preocupa em gerir os recursos naturais de forma responsável e sustentável.”

 

O docente nos ensina sobre alguns dos minérios de ferro extraídos para a utilização em diversas produções: “Temos os minerais hematita e goethita, encontrados principalmente em formações ferríferas bandadas, minérios de cobre como calcopirita; minérios de lítio, como o espodumênio, utilizado em baterias recarregáveis; o quartzo, utilizado na fabricação de vidros, que é o principal mineral constituinte das areias; os carbonatos de cálcio, para a indústria farmacêutica, como o caso da calcita.”

 

O ouro, encontrado na forma natural, prossegue na sua explanação, é utilizado em nanotecnologias. “O nióbio, produzido principalmente no Brasil, extraído de minerais como o pirocloro e a columbita, é utilizado principalmente na produção de supercondutores e ligas com alta resistência à variação de temperatura. O chumbo, encontrado em sulfetos de chumbo, como a galena, tem utilização ampla em processos industriais, como a construção civil”, relaciona Alkmin, esclarecendo que existem outros tipos de materiais extraídos pelo processo da mineração.

 

Eliane Alves Souza, 26 anos, graduanda do curso da UFVJM, endossa as palavras do docente, afirmando que a mineração é a base do crescimento econômico de qualquer país. Ela exalta e defende a profissão que abraçou: “Não há como pensar em uma sociedade que não use qualquer tipo de minério, porque essa sociedade não existe. Nós precisamos da mineração, logo, precisamos do profissional da engenharia de minas.”

 

Souza faz questão de ressaltar que a engenharia escolhida é o que ela esperava e elogia a instituição de ensino, apesar dos cortes que a educação vem sofrendo, como aponta: “Desde o início até agora no ensino remoto, os professores se desdobram de diversas formas para garantir uma boa qualidade das nossas aulas. Eles buscam visitas técnicas produtivas e aulas práticas que somem positivamente na nossa formação.” Nessas visitas técnicas, que ela define como de um "aprendizado incrível", ela pôde conhecer diversas mineradoras - em Minas Gerais e na Bahia - com diversos tipos e estilos de produção. "Pudemos acompanhar, por exemplo, o processo de beneficiamento de minério de ferro, entrar em minas que trabalham com concentrado de urânio, em pedreiras, em fabricantes de cimento, verificar projetos socioambientais. Ver todo o processo de monitoramento da engenharia das minas", descreve a futura engenheira de minas.

 

Estágio e atividades extracurriculares
A discente já fez o estágio na área numa empresa de consultoria e serviços na também cidade mineira de Montes Claros, sua cidade de origem. “Foi uma experiência única, pois tudo que aprendi em sala de aula foi de fato colocado em prática. A equipe da empresa foi totalmente prestativa em me orientar ou mesmo ouvir minhas sugestões nas atividades desenvolvidas. Pude desenvolver as atividades de estágio com profissionais atuantes na mineração e vivenciei processos de produção em algumas mineradoras”, descreve Souza.

 

Atualmente, a estudante cumpre atividade extracurricular como monitora da UFVJM na disciplina de perfuração e desmonte de rochas. Além disso, diz, entusiasmada, está escrevendo alguns artigos juntamente com colegas e professores, “um deles já está inscrito num congresso que acontece em setembro próximo”. Souza ainda desenvolve um projeto junto a uma empresa do setor equipamentos industriais, que será base para o seu projeto de conclusão de curso (PCC).

 

Entre outras atividades monitoradas dos estágios realizados junto a consultorias, a graduanda destaca o acompanhamento de desmonte de um paredão rochoso e o monitoramente sismográfico. "Experiências fantásticas que contribuíram, tenho certeza disso, com a minha formação", comemora.

 

Dos antigos gregos aos tempos atuais
O coordenador nos ensina que a engenharia de minas é tão velha quanto a própria humanidade. Isso porque, explica ele, o uso de materiais naturais é datado de milhares e milhares de anos, “mais de 42 mil anos atrás foram encontradas ferramentas com pigmentos baseados em ferro em locais de sepultamento. As grandes operações de mina, essas minerações em larga escala, já foram encontradas em registro de papiro no Egito antigo”.

 

Os antigos gregos e logo depois os romanos, prossegue Alkmin, foram grandes revolucionários na mineração, principalmente pensando em larga escala. “Na Roma antiga, a construção de aquedutos que levavam água para as regiões permitia o emprego de novas técnicas de extração. Muitos anos depois, com a descoberta da pólvora, começaram a ser utilizados explosivos que aumentaram muito a eficiência no desmonte das rochas”, completa.

 

300 Leonardo ALkmin UFVJMLeonardo Azevedo Sá Alkmin, coordenador do curso de Engenharia de Minas, da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM). Foto: Acervo pessoal.Professor e aluna salientam que a engenharia de minas também vem se beneficiando bastante das inovações no campo tecnológico. “Já temos, há algum tempo, a aplicação de grandes máquinas, escavadoras, retroescavadeiras, perfuratrizes, caminhões fora de estrada com rodas duas vezes maiores que o tamanho de uma pessoa, correias transportadoras, grandes usinas de tratamento de minério para diminuir as partículas e os fragmentos e separar o material de interesse, todo aquele empreendimento mineral”, relaciona Alkmin. Tais máquinas, defende, são capazes de mobilizar uma grande quantidade de material de uma forma cada vez mais efetiva, sem desperdiçar e destruir mais do que o necessário.

 

Na era da automação, continua o docente, a atividade acompanha e vai se beneficiar das tecnologias de informação e comunicação (TICs), como a internet das coisas (Iot), a indústria 4.0. “As minas estão experimentando frotas de máquinas autônomas, operadas por cabines remotas.” O professor acredita, ainda, que a operação da atividade deva adotar algoritmos de inteligência artificial e do aprendizado de máquina [machine learning] para conectar equipamentos e apoiar na coleta de dados com drones – veículos aéreos não tripulados – para monitorar melhor a operação. “São ações que já estão acontecendo, mas deverão se intensificar e, quem sabe, chegar até o controle neural de equipamentos”, prevê.

 

Desastre de Mariana
O Estado de Minas Gerais tem uma longa história na extração de minérios e, infelizmente, também de algumas tragédias envolvendo a atividade, como a do rompimento da barragem em Mariana, em 5 de novembro de 2015, que deixou um rastro de destruição ambiental, de uma cidade e mortes. O coordenador do curso da UFVJM tem consciência das situações que causam um desconforto com relação à atividade, por isso, diz: “Todos os projetos de barragens seguem rotinas muito rigorosas de execução numa legislação específica. Esses processos existem para evitar ao máximo que qualquer resultado negativo aconteça.”

 

Por isso, aponta ele, a graduação da universidade vai abordar temas também desconfortáveis, como as tragédias e consequências catastróficas da atividade. “Não podemos negligenciar esses eventos e precisamos pensar maneiras mais eficientes de executar os projetos.”

 

No caso específico da construção e monitoramento das barragens, os alunos da UFVJM são desafiados a pensar novas formas de barragens, com redução de riscos. “Buscamos levantar e conhecer outros exemplos pelo mundo e o que podemos aprender com tudo isso para propor modelos mais eficientes com menor riscos e viáveis do ponto de vista técnico e econômico”, explica. Uma das alternativa, segundo o professor, é usar técnicas hoje consideradas mais seguras. “Voltando ao exemplo das barragens, no Brasil tínhamos o hábito de usar barragens a úmido, regadas por uma quantidade enorme de água. Existem modelos de barragens feitas a seco, sem precisar dessa água toda concentrada. Hoje é preciso pensar nesses novos modelos, novas hipóteses e soluções”, defende.

 

A graduanda tem consciência das questões sensíveis e polêmicas que envolvem a atividade da mineração. Para ela, às vezes se torna bem difícil “convencer a sociedade de que é possível retirar esses recursos de forma sustentável e com o menor impacto possível”. Ela faz um paralelo em defesa da futura ocupação: “A imagem de uma lavra pode ser agressiva aos olhos da sociedade, porém se compararmos a outras atividades como a pecuária, que é visualmente ‘bonita’, constatamos uma consequência ambiental bem menor na atividade minerária.  Somos instruídos como estudantes a sempre fazer a mineração de modo consciente.” 

 

Sustentabilidade vende
Para o coordenador e professor do curso de Engenharia de Minas da UFVJM, é preciso deixar de ver a área como vilã do meio ambiente e destacar a responsabilidade dos profissionais em zelar pelos recursos naturais, humanos e históricos. Nesse sentido, esclarece que a extração de recursos naturais não deve ser feita de qualquer jeito, “mas com todo cuidado para que não ocorra nenhum dano às cidades, pessoas, para que não se polua águas ou cause nenhum tipo de intoxicação”.

 

O professor pondera que uma mineradora, para obter autorização de uso da terra e remover os recursos naturais, precisa apresentar planos de preservação ambiental e de compensação de danos, inclusive pós-extração. “Sustentabilidade vende”, aponta e completa: “Preservar e recuperar o planeta, o único que a gente tem é primordial. Tenho certeza que ninguém pensa em largar o lixo e deixar um buraco dentro da casa da gente. A engenharia de minas também não tem o objetivo de largar o lixo produzido ao longo das atividades minerárias pelos buracos produzidos pelas várias lavras. É de interesse que se recupere o ambiente da melhor maneira possível para que continue sendo uma área de uso para a sociedade.”

 

Multidisciplinaridade
Para o docente Alkmim, o conhecimento técnico é o mínimo que se espera de qualquer engenheiro. “Saber fazer é muito importante, mas tem que ser sempre considerado como o mínimo. No curso de engenharia de minas, acreditamos muito em metodologias ativas. Não adianta mais o professor ficar só falando e fazendo contas num quadro na frente dos alunos, apresentando slides enquanto os alunos estão sentados, ouvindo. Isso não faz o menor sentido mais, isso é muito antigo”, avalia.

 

Por isso, acredita ele que os alunos precisam buscar conhecimento para além do que se aprende em sala de aula. “Não existe resposta pronta para todos os problemas, existem formas criativas de encontrar um resultado positivo. Estamos falando que não basta ter apenas um diploma de engenharia”, observa.

 

Para além do saber técnico, o professor afirma que os engenheiros precisam saber escrever, apresentar um projeto, liderar equipes, se relacionar com outras áreas, desenvolver uma comunicação clara. “Precisa ter a capacidade de explicar o projeto para uma equipe que tem desde o pessoal da limpeza, estagiários até o gerente e o responsável pelo pagamento do projeto no setor de finanças. Aqui estou destacando a multidisciplinaridade”, defende.

 

Na UFVJM, explica o docente, antes de entrar na engenharia, os alunos ingressam num bacharelado interdisciplinar em ciência e tecnologia (BCT). O currículo é bastante flexível voltado para a matemática, física, química, biologia, humanidades, técnicas de produção e de intepretação de texto. “Não cabe mais dizer que o aprendizado de humanas não cabe na engenharia.”

 

300 Eliane Alves Souza 2 1Eliane Souza em trabalho de campo em zona rural de Montes Claros (MG). Foto: Acervo pessoal.Alkmin ainda defende: “É fundamental saber escutar, expor claramente as ideias de forma proativa, sem esperar que alguém lhe traga as respostas. Ser empreendedor, identificar as oportunidades e agir em função delas de forma criativa e inovadora, mas, mais importante do que tudo isso, temos que aprender a sermos humanos cada vez melhores.”

 

Mais mulheres
A futura profissional Eliane Alves Souza está confiante na desmistificação de que a engenharia e a modalidade de minas, especialmente, não são áreas de atuação para as mulheres. “Percebo que estamos mais convictas e firmes no propósito de buscar o nosso lugar na profissão e contamos com programas de empresas, inclusive, que incentivam a contratação da mulher na área”, comemora. Todavia, ela sabe que o caminho é longo e é uma discriminação que está dentro de um contexto social antigo, “mas precisamos fazer diferente, e estamos fazendo”.

Você sabia que o SEESP oferece:

I - Orientação à carreira
O SEESP mantém a área Oportunidades na Engenharia que atende estudantes e profissionais da área na parte de orientação à carreira, com diversas ações, entre elas: atendimento personalizado (serviço exclusivo para estudantes e profissionais associados ao SEESP) com análise de currículo, orientação de LinkedIn, simulação de entrevista, dicas atuais sobre processos seletivos online e presenciais, elaboração de trilha de carreira e de estudo etc. O setor mantém, ainda, plataforma de divulgação de vagas de estágio e outras oportunidades; cadastro de autônomos; conteúdos atualizados sobre mercado de trabalho; noções gerais de redação e português.  Para auxiliar estudantes e engenheiros na hora de formatação do currículo, também tem o Mapa da profissão, com informações de legislação, mercado, palavras-chave para cada modalidade da engenharia etc..

II - Associação para os estudantes
O estudante de Engenharia também pode se associar ao SEESP e usufruir de diversos benefícios, inclusive de desconto na mensalidade da faculdade, caso esta seja conveniada ao sindicato. Saiba mais aqui.


III - Núcleo Jovem Engenheiro
Foi criado um espaço bem bacana para os estudantes e recém-formados na área para discutir questões específicas. É o Núcleo Jovem Engenheiro, saiba como participar, clicando aqui.

 

 

Engenharia de Minas – Raio-X

Objetivo – Atua na área de tecnologia mineral, desde a prospecção (procura de depósitos), passando pela exploração e lavra até o beneficiamento (processamento, separação e/ ou concentração do material extraído) para adequá-lo às especificações de mercado. Ele é responsável por atividades que envolvem águas subterrâneas, além de atuar na área de geotecnia e de meio ambiente. Coordena e supervisiona equipes de trabalho, realiza estudos de viabilidade técnico-econômica, executa e fiscaliza obras e serviços técnicos e efetua vistorias, perícias e avaliações, emitindo laudos e pareceres técnicos. Em suas atividades, considera aspectos referentes à ética, à segurança, à segurança e aos impactos ambientais.

Carga mínima do curso – 3600 horas

Integralização – 5 anos

Estágio – Obrigatório (Lei 11.788/2008)

Temas abordados na formação – Fundamentos da Metalurgia e Materiais; Fenômenos de Transporte; Geomecânica; Modelagem; Balanços de Materiais Energéticos; Elementos de Máquinas; Topografia; Mineralogia e Petrologia; Hidrogeologia; Geologia Dinâmica; Geofísica e Geoquímica; Estratigrafia; Gênese de Minérios; Mecânica dos Solos; Mecânica das Rochas; Desmonte de Rochas; Aplicação de Explosivos Comerciais; Abertura de Túneis e Vias Subterrâneas; Pesquisa Mineral; Lavra de Minas; Tratamento de Minérios; Recuperação de Áreas Degradadas; Separação de Fases Sólidas e Resíduos; Gestão Ambiental de Empreendimentos Mineiros; Matemática; Física; Química; Ética e Meio Ambiente; Ergonomia e Segurança do Trabalho; Relações Ciência, Tecnologia e Sociedade (CTS).

Ambientes de atuação – Empresas mineradoras em projetos de produção, beneficiamento e comercialização mineral, e na gestão ambiental; em empresas e laboratórios de pesquisa científica e tecnológica. Também pode atuar

de forma autônoma, em empresa própria ou prestando consultoria.

Piso salarial – A engenharia, independente da modalidade, é uma profissão que tem piso salarial definido pela Lei 4.950-A/66.

Com informações da Secretaria de Educação Superior do Ministério da Educação

 

 

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