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Opinião – Um grande livro, um livro grande

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João Guilherme Vargas Netto


Meninos, eu li “Le capital au XXIe Siècle”, de Thomas Piketty. Se fosse menos preguiçoso, prepararia uma condensação de, no máximo, 100 páginas na qual resumiria, mantendo o estilo despojado e fluente do autor, as quase mil páginas originais do texto, seus 97 gráficos e 18 tabelas e o que desse para aproveitar do infinito anexo técnico que está na internet.

O livro deveria chamar-se “A riqueza do mundo”, pois é disso que trata. Aqui no Brasil algo semelhante havia sido feito em 2004 na tese de doutorado de Marcelo Medeiros, premiada pela Associação Nacional de Pós-graduação e Pesquisa em Ciências Sociais (Anpocs) e que, aliás, não cita os trabalhos anteriores de Piketty sobre o tema.

“Le capital” (os ecos de Karl Marx são evidentes) faz um exaustivo levantamento da riqueza mundial nos séculos XIX, XX e XXI (embora despreze a experiência soviética de mais de 70 anos), salários altos e baixos, salários mínimos, rendas, capital, patrimônios, ações, propriedades imobiliá­rias, heranças, doações, impostos e paraísos fiscais ao longo do tempo. No decorrer do século XIX não existe inflação, e apenas em parte do século XX – com duas guerras mundiais, o socialismo soviético e o “Estado de bem-estar” – o crescimento econômico e populacional superou o crescimento da renda (g > r, na terminologia do autor). Durante a maior parte do tempo, r > g, principalmente no século XXI, em que a concentração de riqueza tem levado o mundo de volta à Belle Époque europeia e à Gilded Age norte-americana em termos de concentração de renda.

Apoiando-se em uma base de dados impressionante e com uma equipe eficiente (com ênfase nas histórias da França, Inglaterra, Alemanha, países escandinavos, Estados Unidos, China, Índia, Colômbia, Argentina e muitos outros, mas não o Brasil, por falta de dados), o livro disseca a evolução patrimonial das várias sociedades analisadas e do mundo como um todo: ao longo dos séculos, os 50% mais pobres mantiveram-se estacionários em proporção da renda global, enquanto cresceu a “classe média patrimonial” dos 40% intermediá­rios e explodiu a fatia dos 10% mais ricos e, sobretudo, do 1% dos biliardários (uma curva de sino em U com as extremidades altas nos séculos XIX e XXI).

Exemplifica as situações com fatos do dia a dia (massacre de mineiros na África do Sul e a crise cipriota, por exemplo) e com citações literárias que retratam as grandes teses (de Balzac, de Jane Austen e séries televisivas), embora não sistematize a bibliografia citada, aqui e ali, no texto.

Na última parte do livro, como socialdemocrata confesso, Piketty propõe, para enfrentar a concentração mundial de riqueza e para garantir a manutenção (ou a reconstrução) do “Estado social” (educação, saúde e aposentadorias), um imposto progressivo internacional sobre o capital (patrimônio, herança e renda).

Com a experiência de minha leitura, percebi que, em geral, os muitos comentaristas que escreveram sobre o livro – aqui e no resto do mundo – podem não tê-lo lido em sua integralidade e o repercutiram ideologicamente (contra ou a favor), desprezando a riqueza da documentação e a preocupação metodológica do autor.

O livro, que está sendo traduzido para o português, com edição prevista para logo, merece leitura atenta e anotada, mesmo que alguém ainda produza um “Pikettynho”.


João Guilherme Vargas Netto é consultor sindical do SEESP


Serviço:

O capital no século XXI

Autor: Thomas Piketty

Tradução: Monica Baumgarten de Bolle 

Editora: Intrínseca – 1ª Ed. – 2014

Idioma: Português, 768 páginas

Lançamento previsto: 1º de novembro de 2014

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