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18/05/2010

Astronomia brasileira avança

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Se o país entrar para European Southern Observatory (ESO), há boas chances de que a construção civil do telescópio gigante E-ELT seja feita por uma construtora brasileira, diz pesquisadora.

       A astronomia brasileira vive um momento histórico de euforia e turbulência. Uma comissão de especialistas entregou no início deste mês ao ministro da Ciência e Tecnologia, Sergio Rezende, a primeira versão de um Plano Nacional de Astronomia (PNA), que deverá guiar a evolução dessa ciência no País pelos próximos cinco anos.
       As perspectivas gerais são positivas, marcadas por declarações de apoio do ministro ao desenvolvimento da área. Uma das propostas em pauta é a adesão do Brasil ao European Southern Observatory (ESO), uma organização de 14 países europeus que opera vários telescópios de ponta na Cordilheira dos Andes, em parceria com o Chile.
       Aí surge uma polêmica, revelada pelo Estado no início do mês, tão forte que rachou lideranças na principal escola de astronomia do País: o Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas (IAG) da Universidade de São Paulo. Muitos professores, como a astrofísica Beatriz Barbuy, acreditam que a adesão ao ESO é essencial para o avanço da astronomia nacional. "Se quisermos crescer, precisamos ter acesso a essa infraestrutura de ponta", diz ela, em entrevista exclusiva ao Estado (mais informações nesta página).
      "O salto que daríamos seria gigantesco", reforça Eduardo Janot Pacheco, presidente da Sociedade Astronômica Brasileira e também professor do IAG. Segundo ele, os observatórios andinos dos quais o Brasil participa atualmente, Soar e Gemini, são insuficientes para atender às necessidades de pesquisa do setor. "Ambos têm limitações grandes, principalmente em instrumentação", afirma. "Temos competência científica para competir, mas hoje estamos estrangulados tecnologicamente."
      Outros, como o professor João Steiner, consideram entrar para o ESO uma "irresponsabilidade". "A quatro meses de uma eleição, estão fazendo uma proposta mirabolante, que não teremos condição de bancar depois", diz ele, principal responsável pela participação brasileira no Soar (o País é dono de um terço do telescópio) e no Gemini (no qual o País tem 5% do tempo de observação).
      Segundo Steiner, dificuldades técnicas são normais na fase inicial de operação. "Todo telescópio tem problemas no início. Todo telescópio precisa de um tempo de comissionamento. Isso é absolutamente normal." Ele ressalta que, graças a acordos de troca de tempo no Gemini e Soar, pesquisadores brasileiros já têm acesso a outros telescópios de grande porte, como Subaru e Keck, no Havaí. "Dizer que esses telescópios atendem às necessidades da ciência americana, mas não às do Brasil, é risível."
      O grande problema, diz Steiner, é a relação custo-benefício, que, segundo ele, seria ruim para o Brasil, já que o custo de participação no ESO é baseado no PIB de cada país - e o Brasil tem um PIB alto, porém uma comunidade de astrônomos relativamente pequena, comparada à de países europeus. Ele calcula que a participação do país no ESO custaria R$ 1,24 bilhão em 20 anos.
      Outros calculam valores bem menores. Um grupo de trabalho formado por dois astrônomos e um diplomata deverá apresentar até o fim do mês uma análise das condições de uma eventual participação do País no ESO. Janot, um dos integrantes, diz que, como o ESO é uma organização governamental, o dinheiro para a adesão sairia do orçamento da União, e não do Ministério da Ciência e Tecnologia. Ou seja: não competiria por recursos com o resto da ciência.
      A versão preliminar do PNA será discutida na 4.ª Conferência Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação, que começa dia 26 em Brasília. A versão final deve ficar pronta em outubro.

"Indústria brasileira poderia fabricar parte de telescópio gigante'', entrevista com Beatriz Barbuy

- Por que o Brasil deveria entrar para o ESO?
A infraestrutura disponível para a astronomia brasileira é insuficiente para a diversidade de campos de pesquisa que temos, e grande parcela da comunidade tem dificuldades para obter observações adequadas para seus estudos. A entrada no ESO, que tem grande diversidade de telescópios e instrumentos de altíssimo desempenho, cobriria as necessidades da grande maioria dos astrônomos brasileiros. Além disso, abriria-se grande oportunidade para parcerias e formação de recursos humanos, com direito a ter engenheiros e astrônomos brasileiros nas equipes do ESO.

- Como surgiu essa possibilidade e como será o processo de decisão sobre aderir ou não?
Começamos pelo estudo de viabilidade de participação em um dos três projetos de telescópios gigantes (chamados E-ELT, TMT e GMT) que devem ficar prontos no fim desta década. Os três projetos se interessam pela participação brasileira. Tínhamos em mente que a verba de entrada no E-ELT (um projeto do ESO) poderia ser considerada como parte da entrada no ESO no futuro, mas, nas discussões com o ESO, nos foi mostrado que, financeiramente, seria mais interessante passar a integrar o grupo simultaneamente, pois no futuro a taxa de entrada (caução) será maior. O processo de decisão está sendo coordenado pela Comissão Especial de Astronomia, com consultas à comunidade científica, ao Ministério da Ciência e Tecnologia e ao ESO.

- Há um prazo para decisão?
Há prazo para decisão sobre a entrada no E-ELT, neste ano. Depois disso, ainda será possível entrar, mas será mais difícil obter contratos para indústrias brasileiras, pois eles já estarão definidos com outros países.

- Quanto entrar para o ESO custaria ao Brasil? Esse custo é compatível com as capacidades orçamentárias da ciência brasileira?
A caução de entrada custa 132 milhões. A anuidade seria de 13,6 milhões. Embora pareça muito, essas verbas voltariam ao país por meio de contratos para construção de instrumentos, bolsas para jovens e participação em atividades do ESO. Sem falar, é claro, no valor do conhecimento científico que será produzido. A verba da caução seria usada para a construção civil do sítio do E-ELT por uma construtora brasileira e para a confecção de partes deste telescópio pela indústria aeroespacial brasileira.

- Como assim? Há alguma garantia de que uma construtora brasileira participaria da construção do E-ELT ou há apenas um interesse do Brasil nesse sentido? E que peças seriam construídas? Vale lembrar que o Brasil saiu da Estação Espacial Internacional porque não conseguiu entregar nenhuma das peças com que se comprometeu. Nossa indústria tem mesmo capacidade para participar do projeto do E-ELT?
Se entrarmos para o ESO, há boas chances de que a construção civil do E-ELT seja feita por uma construtora brasileira. Contactei várias das grandes empresas para uma reunião na USP em fevereiro e as duas que já estão no Chile (Queiroz Galvão e OAS) se interessaram. Sobre a indústria aeroespacial: um item já identificado para fabricação no Brasil são os atuadores (sistemas de controle) dos mil espelhos menores que comporão o espelho principal do telescópio. Empresas fornecedoras da Embraer teriam perfeita capacidade de produzir isso.

- Críticos argumentam que a relação custo-benefício da adesão ao ESO seria ruim, pelo fato de o Brasil ter um PIB equiparável ao de países europeus, porém um número de astrônomos muito menor. Ou seja: pagaríamos muito para usufruir pouco.
O número de astrônomos não é tão pequeno (são cerca de 600) e há uma grande demanda reprimida. Não sabemos se isso seria suficiente para cobrir o tempo a que teríamos direito. Tendo em vista que boa parte da comunidade precisará se adaptar ao estilo de competir com projetos de alta qualidade, entraríamos com uma fração baixa de tempo no início.

- Outro argumento contrário é de que o custo de entrar para o ESO comprometeria a participação brasileira nos observatórios Soar e Gemini. Esse risco existe?
Esse risco, a meu ver, não existe. Devemos manter o Soar e a participação no Gemini. Verbas para instrumentação desses telescópios têm sido obtidas principalmente da Fapesp, e essa opção continuaria igual.

- Qual a importância do Soar e do Gemini para a astronomia brasileira? Eles se tornariam telescópios irrelevantes caso o Brasil entre para o ESO?
A entrada do Brasil nos projetos Soar e Gemini foi um passo útil para a astronomia brasileira. Eles não se tornariam irrelevantes, pois cada um desses telescópios tem características complementares. O consórcio com o Gemini, por exemplo, nos dá acesso a um grande telescópio no Hemisfério Norte (o Gemini Norte, no Havaí, idêntico ao Gemini Sul). O Soar terá eventualmente três instrumentos brasileiros, portanto servirá a uma comunidade particularmente interessada nisso.

- A senhora disse em uma conversa anterior que a participação brasileira no Soar e Gemini estava "estrangulando" a astronomia brasileira, porque a instrumentação desses telescópios é limitada e muitas vezes não funciona bem. O que quis dizer com isso?
No caso do Gemini, há instrumentação apropriada para algumas áreas de pesquisa: formação de estrelas e núcleos ativos de galáxias. Seu espectrógrafo multiobjeto de média/baixa resolução é um instrumento bem usado, mas com eficiência média, que atende parte da comunidade. A instrumentação de segunda fase não foi levada adiante, portanto não há perspectiva de termos instrumentos de nova geração. Sobre o Soar: os americanos têm dificuldades para manter os custos de operação. Seria necessário o Brasil ter pelo menos um astrônomo permanente alocado lá (hoje só há bolsistas). Há falta de pessoal. E problemas estruturais. Por exemplo, é necessário colocar um anteparo contra o vento na abertura da cúpula, pois quando há vento, há deformação nas imagens. Falta agilidade para resolver os problemas - em boa parte por causa dos parceiros, também.

 

(Fonte: Herton Escobar, O Estado de SP, 16/5 e JC Online)
www.fne.org.br

 

 

 

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